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O partido imprescindível

Áurea Sampaio

No futuro Governo, o CDS é dispensável, Sócrates também, mas o PS não

1.Fez muito bem Pedro Passos Coelho em dizer que só vai liderar o Governo se vencer as eleições. Apesar de a Constituição não impedir o Presidente da República de empossar um Executivo cuja composição não integre o partido mais votado, é óbvio que tal Executivo estaria condenado, à partida, aos olhos dos portugueses. Até hoje, a prática constitucional definiu que o partido vencedor das eleições lidere uma solução governativa e qualquer alteração desse figurino fragilizaria a sua ação pela perceção generalizada da sua falta de legitimidade. Paulo Portas tem insistido bastante no tema, pondo em evidência a sua indisfarçável ambição pelo poder, mas ele sabe muito bem que legitimidade constitucional não é exatamente o mesmo que legitimidade política. O PSD já viveu esse filme (ou semelhante) quando Santana Lopes substituiu Durão Barroso à frente do Executivo. Mais do que todas as trapalhadas de então, a verdade é que a legitimidade desse Governo começou a ser contestada desde o primeiro minuto e isso diminuiu, desde logo, a sua influência e a sua capacidade de agir. Ora, numa altura tão exigente e delicada da situação do País, não contar com o contributo do partido mais votado seria abrir caminho a mais instabilidade e um passo de gigante para dificultar a solução dos problemas.

Mas se neste aspeto andou bem o líder do PSD, não se percebe a sua reiterada afirmação de que não está disposto a governar com o PS. Entende-se que a sua dificílima relação com Sócrates o leve a rejeitar compromissos a dois. Mas uma coisa é Sócrates e outra é o PS... com quem o PSD está condenado a entender-se, ganhe ou não as eleições. Ou acha Passos Coelho que um Governo exclusivamente formado pelos partidos mais à direita basta para levar o plano da troika avante? Se acha, não está a ver bem o filme. Do ponto de vista político e social, os socialistas são imprescindíveis para que esta fase se supere com o mínimo de ruturas possível. No futuro Governo, o CDS é dispensável, Sócrates também, mas o PS não. Quem não perceber isto vai fazer o País passar momentos ainda mais dramáticos.

Ao menos Passos Coelho deixou claro que se demite da liderança do PSD se perder as eleições, deixando o seu partido livre para decidir qual o rumo subsequente. Seria muito positivo que Sócrates também se definisse.

2. A senhora Merkel gosta muito de falar mal dos países do Sul. Demagógica e populista julga que mobiliza apoiantes lançando diatribes, com isso explorando os mais baixos sentimentos do eleitorado. Como as sucessivas eleições têm vindo a demonstrar, a chanceler alemã não ganha nada com isso e são derrotas sobre derrotas, esperemos que até à derrota final. A Alemanha, que gosta de vender o seu rigor e credibilidade como imagem de marca, fica muito mal na fotografia com as mentiras da chefe do seu Governo sobre as férias e a idade da reforma dos portugueses. Mas se Merkel é uma política irresponsável que não se importa de libertar ventos de xenofobia e assim ameaçar uma paz com mais de 50 anos no continente, é lamentável que o sr. Saraiva da CIP vá, mais uma vez, à boleia de uma mentira para ver se colhe uns quantos dividendos.