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O pântano

Áurea Sampaio

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As instituições agonizam, o regime apodreceu. Agora, sim, é mesmo o pântano

Áurea Sampaio

 O regime está em decomposição total. O Governo é uma manta de retalhos e o principal fator de instabilidade, no País. Seja por total incompetência, seja por método de ação deliberado, o certo é que utiliza uma espécie de experimentalismo comunicacional terrorista, de efeitos devastadores. Hoje, em Portugal, ninguém sabe exatamente como será o seu dia de amanhã - literalmente. E não é só pela incerteza decorrente das contingências que vivemos, é, também, e sobretudo, pela ação do Governo. Veja-se o que se tem passado com as pensões, com a mobilidade especial e os despedimentos na Administração Pública, com a convergência dos sistemas público e privado de Segurança Social ou com a idade da reforma, para citar apenas os casos mais recentes, e tirem-se as conclusões. Este Executivo habituou-nos, desde o início, àquela máxima do futebol segundo a qual o que hoje é verdade amanhã é mentira, só que este desnorte tem consequências nas pessoas, nas empresas, nos potenciais investidores que tanto se desejam. Quem, na passada, assistisse ao diz-se-que-disse sobre o pagamento dos subsídios de férias e de Natal pelo Estado diria que governantes e deputados da maioria deviam ser internados.

O Parlamento contribui, e de que maneira, para a degenerescência a que assistimos. Como disse, um dia, Paulo Morais, aquele hemiciclo assemelha-se cada vez mais a um gigantesco escritório de advogados em open space. Com as óbvias ressalvas para quem ali procura fazer um trabalho sério, aquela câmara representa, apenas e só, os diretórios partidários a quem os deputados dão cada vez mais espaço para porem e disporem das suas consciências. Ali, há muito se sabe, as maiorias são acéfalas, venerandas e obrigadas aos chefes que estão em S. Bento e os colocaram na listazinha em que foram eleitos, tudo fazendo para impedir que o Parlamento cumpra a sua mais nobre missão: fiscalizar o Governo.

Até há relativamente pouco tempo, o Presidente da República tinha escapado, praticamente incólume, a esta degradação institucional. Por intervenções infelizes, pelos casos que protagonizou... sem dúvida, mas nada contribuiu de forma tão dramática para a queda de Cavaco Silva como a sua atuação nesta crise. O Chefe de Estado começou por contribuir para a demissão de Sócrates, em nome da má governação, depois fez um ou outro reparo público importante ao Executivo de Passos Coelho, em seguida entrou num período de omissão para, finalmente, emergir como a mão que segura o Governo. Ou seja, Cavaco não agiu no tempo em que ainda tinha espaço de manobra para deixar cair Passos e convencer Seguro a apoiar uma equipa de gente de qualidade e capaz de ajudar a salvar o País. Um erro monumental do inquilino de Belém que foi incapaz de entender os sinais e que, por isso, deixou de ser o Presidente de todos os portugueses, como mostram as sondagens e a generalizada falta de respeito por ele. Nem vale a pena falar das manifestações à porta ou dos insultos, veja-se o Conselho de Estado. Dos relatos cruzados, saiu uma imagem comum: o isolamento do PR face ao seu órgão de consulta. Com um Governo sem rei nem roque, um Parlamento sem ímpeto fiscalizador e um Presidente de costas voltadas para o seu povo, as instituições agonizam, o regime apodreceu. Agora, sim, é mesmo o pântano.