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O lugar da alternância

Áurea Sampaio

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O desafio consequente de Costa era um risco, mas esse ato de coragem só ampliaria o seu currículo e manteria incólumes futuras pretensões

Áurea Sampaio

1.Desde há muito que a "cultura" da alternância se enraizou na vida dos dois principais partidos políticos portugueses. A alternância, que não tem nada a ver com alternativa, é uma espécie de limbo viscoso onde deambulam, como sonâmbulos invertebrados, os aspirantes a chefiar o Governo do País. A alternância é um lugar suspenso no tempo em que apenas se está, um intervalo de espera onde o jogo é, essencialmente, um exercício de faz de conta. Faz-se de conta que se conhece a fundo os problemas, que se tem soluções para todos e que se dispõe de uma grande equipa para os resolver. Esta ilusão é criada através de um certo número de artifícios típicos e mais do que batidos, mas o eleitorado continua a cair que nem um adolescente volúvel. Formam-se uns "grupos de trabalho" com nomes mais ou menos pomposos, organizam-se uns pseudo debates com os mesmos rostos, do mesmo sistema que dizem as mesmas banalidades há décadas e, no fim, finge-se guardar, com desvelo de amanuense, essas pérolas vertidas em textos pela enésima vez repetidos.

A verdade é que, na vida real, não há ninguém mais avesso à disputa de ideias, ao repto corajoso e à defesa de políticas claras associadas a protagonistas com rosto do que os putativos líderes em estágio no limbo da alternância. Pelo contrário, eles encaram o desafio como traição, as ideias como plasticina em mãos de criança e o compromisso como elemento fragilizador do poder. Neste local de passagem, a regra é ser vago, dizer que sim ou não a tudo e o seu contrário, parecer desprendido, acalmar o "aparelho". 

Lembrei-me de tudo isto durante as escaramuças que animaram a monotonia da vida interna do maior partido da oposição. Para já, foi demasiado dececionante. António Costa tinha todas as condições para obrigar à clarificação que há muito se impõe no PS e que António José Seguro, em nome de uma unidade de fachada (como se constata), nunca quis assumir. O desafio consequente de Costa era, evidentemente, um risco, mas esse ato de coragem só ampliaria o seu currículo e manteria incólumes futuras pretensões, fosse qual fosse o desfecho. Assim, saiu muito fragilizado - ele que não tem aparelho e que defraudou os apoiantes verdadeiros e tutti quanti que só pensam em derrubar Seguro. Augusto Santos Silva, o Maquiavel da era Sócrates, não podia ser mais lapidar: "Pensar que se pode tomar decisões sobre programas e lideranças do PS como se fossem moções da JS de há 30 anos é um erro político, um enorme e talvez fatal erro político." Quem anda sempre à procura do momento ideal arrisca-se a deixar escapar as convicções.

 

2. Quando estamos à beira de saber onde vai o Governo cortar os tais 4 mil milhões que diz ter sido uma encomenda da troika, mas que nós sabemos não ser bem assim, é imprescindível ler o trabalho meritório feito pelo jornal Público, no passado dia 3, sobre a forma como o Estado distribuiu mais de 2 400 milhões de euros, em 2011. É absolutamente deplorável como o Ministério das Finanças, que impõe uma autêntica ditadura fiscal aos contribuintes, se revela tão pouco exigente e rigoroso consigo próprio, quando se trata de cuidar do dinheiro que estes, com tanto sacrifício, são obrigados a entregar-lhe. Tudo o que ali se relata é revelador: uma absoluta falta de respeito pelos portugueses.