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Áurea Sampaio

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Nem os mercados estão loucos, nem os portugueses são parvos e, a seu tempo, tudo ficará clarinho como águ

Áurea Sampaio

Isto é de loucos e, no mínimo, altamente esquizofrénico. Fomos, há dias, vender títulos de dívida pública e os mercados cobraram-nos juros consideravelmente mais baixos. Para se ter uma ideia, passámos de uma taxa de 4,5% a 18 meses, no leilão de abril, para 1,9%, na emissão de agora e pelo mesmo período de ano e meio. Bem bom, porque é menos dinheiro que temos de desembolsar para garantir o financiamento do Estado, mas incompreensível à luz da lógica dos ditos cujos mercados. Ou seja, dizem os adoradores desta entidade tão vaga quanto inimputável, que os mercados são rigorosos e implacáveis para quem não cumpre os seus ditames. Se assim é, então os mercados endoidaram. Estão a cobrar-nos juros mais baixos, quando a esmagadora maioria dos  indicadores dizem que estamos pior do que quando pedimos o resgate e a troika nos invadiu o território. A dívida pública já era astronómica e cresceu; o défice só ficou pelos 5% por causa das receitas da venda da ANA e dos cortes nos salários e pensões; o desemprego vai a caminho dos 17%; o PIB afunda-se mais um ano; o consumo está em mínimos históricos assim como o investimento... Ou seja, estamos mais pobres, não temos perspetivas de crescimento nem dinheiro para investir e até a única coisinha de que o Governo se vangloriava - as exportações, mesmo essas, diz o Banco de Portugal, têm tendência para estagnar. Como se tudo isto não bastasse, as perspetivas não são nada boas, com mais cortes anunciados e o famoso consenso político morto e enterrado quase exclusivamente por responsabilidade do Executivo.

Face a este quadro negro, que se passa então com os juros? Será uma questão de competência e credibilidade do Governo e das suas políticas, como diz o próprio e a sua guarda avançada nos media? Nada disso. A prosápia governamental sustenta-se nas medidas decisivas tomadas a nível europeu para travar a crise do euro, sobretudo o programa de compra de dívida anunciado pelo BCE. Ou seja, Draghi e a sua equipa criaram a convicção nos mercados de que nenhum país do euro cairá, pois, em último recurso será o próprio BCE a financiá-lo. Foi isto que acalmou a voragem dos especuladores, doravante cientes de que não ficarão a arder com o calote.

É isto que está a "beneficiar" a quebra dos juros, mas os nossos males estão lá a corroer o tecido económico e social do País. O Governo também sabe isso, mas com a entrada em 2013 iniciou-se a temporada da venda do bacalhau a pataco. Há eleições à vista e é preciso controlar o terramoto político lá para os lados da coligação. É por esta razão que Passos tenta disfarçar a espiral recessiva" de que falava Cavaco, com loas a um "ciclo de expansão económica" imaginário, enquanto Gaspar foi esta semana à reunião do Eurogrupo pedir a extensão do pagamento dos empréstimos "para facilitar o regresso aos mercados". Amigos e afilhados papagueiam a boa nova com a mesma convicção com que vociferavam contra a oposição quando esta exigia negociações com a troika para obtermos mais tempo e mais dinheiro para cumprir o programa de ajustamento. Mas não vale a pena criar ilusões. Nem os mercados estão loucos, nem os portugueses são parvos e, a seu tempo, tudo ficará clarinho como água.