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Governo submerso

Áurea Sampaio

O problema do Governo não é de comunicação, são as medidas. Imagine-se Vítor Gaspar a dizer-nos que os impostos iam baixar! Interessa se é monocórdico, se tem cara de pau? Nada, passaria a ser um herói 

Áurea Sampaio

"Afinal, quem manda no País?" Por estes dias, a pergunta fez sentido mais do que nunca. Com Passos Coelho e Paulo Portas desaparecidos em combate, ficámos completamente nas mãos da troika que, em representação, dos nossos credores, veio avaliar se nos estávamos a portar bem. Esse trabalho de formiguinha amanuense sobressaiu neste verão estranho e tenso em que tudo e todos tentam alienar-se do tempo que aí vem, cumprindo uma espécie de intervalo que se deseja eternizar até ao instante derradeiro em que a realidade se impõe, qual icebergue silencioso e devastador. Com o primeiro-ministro a banhos no Algarve e Portas em parte incerta, quase todo o Governo submergiu não se sabe bem a fazer o quê. Por alguns dias, até pareceu que o verdadeiro chefe do Executivo assumia, à luz do dia, as rédeas do poder que tão habilmente comanda na sombra. E então assistiu-se à omnipresença de Miguel Relvas, ora a falar sobre a saga da RTP, ora a debitar sobre a "revolução" na Administração Pública, ora desmultiplicando-se em declarações sobre reformas e mais reformas. Por qualquer razão desconhecida, Relvas sumiu sem deixar rasto e foi, então, a vez do ministro Álvaro dar um ar da sua graça. Perseguido pelo incómodo de não revelar os seus planos secretos - certamente inteligentíssimos - para estimular a economia, o governante decidiu distribuir umas manchetes denunciando o despautério gastador do Executivo Sócrates. Foi sol de pouca dura, porque a malta cheira as manobras de diversão à distância e não gosta de se entreter com cadáveres políticos. Por estratégia ou por outra razão qualquer, a verdade é que houve muito pouca gente a deitar a cabecinha de fora neste querido agosto de má memória. Fê-lo ainda o ministro das Finanças, mas este é um caso à parte. Vítor Gaspar, para mal dos pecados dele, é obrigado a falar. Como já se percebeu, por ele, ficava quietinho, no seu gabinete do Terreiro do Paço, a fazer contas e a enviá-las para S. Bento, eventualmente propondo aqui e ali algumas medidas... e os políticos que se desenrascassem. Não tem sido assim porque Passos Coelho já percebeu que conseguiu um ministro de ouro, dificílimo de encontrar nos tempos que correm. Bom técnico (dizem), consta que não tem qualquer ambição política, o que configura o perfeito arauto das más notícias. Tão perfeito que, como se já não lhe bastasse esse horrendo papel, também passou a alvo preferido dos que criticam a má comunicação do Governo. Ainda agora veio anunciar a antecipação do aumento brutal do IVA e logo as vozes do costume resumem tudo à retórica: que ele não sabe explicar, nem justificar as políticas. Não vale a pena disfarçar, o problema não é de comunicação, são mesmo as medidas. Imagine-se Vítor Gaspar a dizer-nos que os impostos iam baixar?! Interessa se é monocórdico, se tem cara de pau? Nada, passaria a ser um herói. 

A hibernação estival está a chegar ao fim e com ela surgem as primeiras tricas na coligação. A nomeação de Santana Lopes aqui, o "sapo" Braga de Macedo ali - o mar vai ficando cada vez mais encrespado. Sim, quem manda é a troika, mas é o Governo que vai a jogo. Ou seja, a votos.