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E se a maioria retaliar?

Áurea Sampaio

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O plano estapafúrdio de Cavaco tinha um propósito: recolocar o PR no cento da vida política

Áurea Sampaio

Eis-nos de regresso ao caminho que o Presidente da República deixou em suspenso, em nome da negociação de um acordo de salvação nacional. Parece que tudo ficou na mesma, mas é ilusão. Os mestres do negócio já quantificaram os milhões que empobrecemos, mas ninguém consegue ainda medir quanto custa a dose reforçada de ceticismo que nos habita, ou que influência tem, na nossa vida coletiva, o cinismo crescente sobre a bondade dos desígnios dos atores políticos. Mas esta crise política teve, pelo menos, um efeito benéfico para a saúde física e mental de milhões de portugueses: suspendeu, durante três semanas, o ciclo infernal de informação e contrainformação acerca de putativas medidas, sempre gravosas, para a vida das pessoas. Esse ciclo está de volta, como o atestam as negociações sobre o regime laboral da Função Pública, mas vamos ver, agora que as propostas são ainda mais dolorosas, até que ponto os portugueses se vão resignar a este "viver habitualmente" [Salazar dixit] que se iniciou há dois anos.

Aguardam-se, agora, os contornos da famosa remodelação governamental [escrevo na terça-feira, 23, ao princípio da tarde] que o Presidente começou por ignorar e, mais importante ainda, o conteúdo da moção de confiança que o Chefe de Estado exigiu que o Governo submetesse ao Parlamento. Um verdadeiro caderno de encargos que impõe ao Executivo coesão interna, diálogo político e social e aposta no crescimento económico, em troca de um resto de legislatura estável. Ou seja, para que não haja antecipação de eleições. É verdade, muita coisa mudou. Um Presidente que parecia estar refém da maioria conseguiu inverter a situação, ganhando espaço para manter em rédea curta a coligação. Como o próprio ainda há poucos dias enfatizou, Cavaco não dá ponto sem nó. Pensa demoradamente cada um dos seus movimentos e só age depois de equacionar todos os cenários. É timorato e daí a sua leitura restritiva dos poderes presidenciais, mas não hesita quando tem a certeza de ficar bem na fotografia. A sua última jogada é reveladora. Há muito sabia que tinha de se libertar de uma maioria pela qual se deixara aprisionar e que estava a arrastar o seu mandato para um abismo sem regresso. O momento surgiu com as demissões de Gaspar e Portas. Com a coligação em coma, aproveitou para desatar os nós e vingar-se de gente que não respeita e politicamente despreza, um sentimento recíproco, de resto. Primeiro humilha-a, ignorando a proposta de remodelação; depois, força-a a negociar com o PS, partido que Passos tem feito questão de ignorar ao longo do último ano e meio; finalmente, oferece aos socialistas eleições antecipadas, dando mais uma machadada na credibilidade do Executivo. Se a coisa desse para o torto, como deu, o PR poderia sempre apresentar-se como alguém que tudo fez e todas as condições deu para um entendimento capaz de salvar o País. Quanto à retoma do cenário de há duas semanas (que rejeitou) - de um Governo remodelado e com novo discurso - acaba por surgir como o mal menor, face à pressão dos mercados, e com a vantagem de ficar sob a sua tutela como bem lembrou ao fazer questão de frisar que continua na plena posse de todos os seus poderes. Afinal, o plano estapafúrdio de Cavaco tinha um propósito: recolocá-lo no centro da vida política. Se a maioria retaliar, podemos ter guerra institucional. Só nos faltava mais essa!