Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

As cenas do CDS

Áurea Sampaio

  • 333

As cenas do CDS estão a dar resultado e os seus objetivos a ser cumpridos

Áurea Sampaio

A coesão deste Governo foi sempre um problema desde o início, mas tem-se vindo a agudizar. A questão não é de agora, está na natureza da relação entre os dois partidos desde os primórdios da democracia desta III República. É um problema de confiança, um sentimento muito semelhante ao complexo entre colonizado e colonizador. O PSD quer usar e abusar do CDS sem lhe dar quaisquer hipóteses de crescer para além de um limite em que não ameace a sua hegemonia; os centristas vivem na eterna necessidade de se demarcar, receosos da perda da sua identidade, o que os conduziria à absorção por parte do partido maioritário. Esta tensão permanente faz parte da história destas duas formações políticas, que se aliaram quatro vezes, a primeira das quais em 1979. Líderes tão diferentes como Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Freitas do Amaral, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Santana Lopes e Paulo Portas não lograram levar os governos até ao fim, ou nem chegaram lá, como no caso da AD, negociada por Marcelo e Portas, em 1999, que caiu após meses de intrigas e acusações, antes de enfrentar, nas urnas, o PS de António Guterres.

Agora, o clima de desagregação entre os dois partidos não é muito diferente do de outros carnavais, só que há premissas capazes de alterar substancialmente os equilíbrios desta relação. Desde logo, a crise brutal e a intervenção externa a que o País está sujeito, mas também a circunstância de ser o líder do partido mais pequeno o que tem não só mais experiência governativa, como mais experiência vivida em coligações. De facto, esta é a terceira vez que Portas alinha em governos presididos pelo PSD, a primeira em 2002, com Durão Barroso, e a segunda em 2004, com Santana Lopes, o herdeiro imposto por Durão, antes de "fugir" para Bruxelas. Ora, é este lastro que permite a Portas ganhar terreno ao ponto de aparecer nas sondagens como o segundo dirigente partidário com mais popularidade, logo a seguir ao líder do principal partido da oposição. Isto apesar de o CDS ser corresponsável pela política mais violenta contra famílias e empresas desde o 25 de Abril e de ser titular da pasta da Segurança Social que tutela muitos dos direitos sociais mais sensíveis - trabalho, pensões, desemprego... - não por acaso os mais penalizados pela austeridade.

Portas aplica a tática de guerrilha, é uma espécie de toca e foge. Sempre que há medidas muito impopulares, o CDS espalha a notícia da sua oposição, dá a entender que se não estivesse lá seria ainda pior, desaparece em amuos silenciosos ou surge publicamente a dar recados ao seu parceiro de coligação. Enfim, um mestre da encenação, este dr. Portas. Nas duas últimas semanas, os exemplos desta relação turbulenta são elucidativos: faltou à tomada de posse dos novos membros do Governo; apoiou outro candidato autárquico no Porto, onde antes estava coligado com o PSD e iniciou uma guerra para tomar conta do Ministério da Economia - a cereja no topo do bolo para quem já tutela o Trabalho, ficar também encarregado de regular os interesses do capital. A verdade é que as cenas do CDS estão a dar resultado e os seus objetivos a ser cumpridos: todo o odioso da situação cabe inteirinho ao PSD e o papel de elemento rebelde e simpático da coligação mantém-lhe as portas abertas para um entendimento com o PS... não vá o diabo tecê-las. Entretanto, Passos Coelho afunda-se no fanatismo da austeridade e com ele leva o PSD ao fundo do poço.