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Apesar de Cavaco

Áurea Sampaio

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'Cavaco disse que é preciso 'manter o rumo' de uma governação em que já nem os ministros acreditam'

Áurea Sampaio

No dia em que escrevo, segunda-feira, 29 de Abril (esta edição da VISÃO fechou mais cedo, por causa do feriado), ainda não se sabe o que sairá do Conselho de Ministros extraordinário marcado para terça-feira, 30. Sabe-se é que, à volta da mesa, se sentará um Governo que já não consegue ocultar as suas profundas divergências aos olhos dos cidadãos. Já não se trata apenas dos malabarismos taticistas com que Paulo Portas tem procurado escamotear as suas responsabilidades pelas políticas seguidas, trata-se de uma efetiva divisão no seio da equipa ministerial, cuja coesão se tem deteriorado à medida que crescem os efeitos devastadores da receita que tem vindo a ser aplicada ao País. De um lado, estarão Paula Teixeira da Cruz (ministra da Justiça), Miguel Macedo (Administração Interna) e Aguiar Branco (Defesa) - todos do PSD -, Álvaro Santos Pereira, independente (Economia) e Paulo Portas (Negócios Estrangeiros); do outro farão parte Passos Coelho, Gaspar e os restantes, embora ninguém acredite que Assunção Cristas (Agricultura) e Pedro Mota Soares (Assuntos Sociais), ambos do CDS, contrariem a vontade do seu líder. A ser assim, verifica-se que os contestatários poderão dispor de sete num total de 13 votos em Conselho de Ministros, ou seja, da maioria. Mas se os centristas se deverão mostrar coesos, até pelas particularidades da coligação, o mesmo não acontece com o PSD, o que é um dado fundamental na situação presente. Por não haver memória de isto ter acontecido nos últimos 30 anos, ou seja, desde a consolidação da democracia e, também, por aquilo que os três representam no contexto interno do partido laranja. Todos fazem parte da histórica ala "mais social-democrata" do PSD e foi em nome dela que participaram, quer em governos de pendor mais liberal, casos de Miguel Macedo e Aguiar Branco (fizeram parte dos executivos de Durão e Santana), quer em importantes órgãos partidários, como Paula Teixeira da Cruz, uma militante muito mais recente que qualquer um dos outros (aderiu apenas em 1995) e que Marques Mendes catapultou para a ribalta, ao fazê-la vice-presidente da sua Comissão Política. E não vale a pena o atual secretário-geral do PSD fazer declarações mais ou menos patéticas como a que dá o Governo a viver "num quadro de grande coesão da coligação", porque a verdade é que o Executivo é o reflexo da enorme clivagem que se vive no PSD, onde cada vez mais militantes de topo se insurgem contra as medidas do Governo. Medidas essas que Passos, Gaspar e Cia querem agravar e que, por isso, suscitaram este bloqueio, no âmbito do Conselho de Ministros. Ora, é justamente à luz destes acontecimentos mais recentes que o discurso do Presidente, no 25 de Abril, se revela ainda mais grave. Como se não bastassem as feridas que abriu e as incoerências que mostrou, Cavaco veio dizer que é preciso "manter o rumo" de uma governação em que a maior parte dos governantes já não acredita. E prometeu não fazer rigorosamente nada para alterar o curso dos acontecimentos, nem um Executivo de sua iniciativa, nem eleições... nada. Rigorosamente nada. Mas, como se prova, o mundo move-se, independentemente da sua mão estar à frente ou atrás dos arbustos.