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A única solução

Áurea Sampaio

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 É fundamental que o PR tenha um plano B. Ele (...) não pode refugiar-se em queixumes sobre a falta de poderes

Áurea Sampaio

 Vai ser muito difícil, se não impossível, o Governo aguentar até ao fim do mandato. A situação política está a degradar-se muito rapidamente e o calendário de acontecimentos não permite antever qualquer folga capaz de dar um átomo de alento à equipa de Passos Coelho. Pelo contrário, se até à semana passada só os apoiantes confessos das atuais políticas conseguiam vislumbrar virtualidades na ação governativa, depois da "homilia" gaspariana da passada sexta-feira tudo mudou. Foi o choque total e já nem os profissionais da desdramatização conseguem justificar a abjeta condução dos destinos do País com simples erros de comunicação. De salvador da pátria, o estrangeirado Vítor Gaspar passou a ser encarado como uma espécie de Zandinga a quem todos juram nunca ter consultado para deitar as cartas nas quais, durante um ano e tal, leram futuros radiosos.

No "laranjal" já não se fala de outra coisa a não ser de remodelação e o nome do ministro das Finanças anda nas bocas do mundo. Remodelar é uma tentação cosmética que não resolve nada de essencial. E o essencial é o rumo traçado por um primeiro-ministro que prometeu - e (isto) cumpriu - ir além do compromisso com a troika, levando essa insensatez a um empobrecimento dos portugueses muito superior ao acordo subscrito com os credores internacionais. Passos e Gaspar estão intrinsecamente ligados. Eles acreditam nas mesmas coisas: o primeiro, com uma obstinação incompreensível face a resultados tão dramáticos; o segundo, movido por uma espécie de experimentalismo lunático, alheio ao facto de haver vidas em jogo nos dois lados da equação. Passos precisa de Gaspar para lidar com a troika porque ele é o verdadeiro interlocutor dos senhores do dinheiro e é esse poder que faz toda a diferença no Conselho de Ministros. Também cá dentro, o chefe do Governo não pode prescindir do seu titular das Finanças. Há que gerir o impacto político-social dos cortes de 4 mil milhões, as consequências de um eventual chumbo de normas do Orçamento deste ano pelo Tribunal Constitucional, a possibilidade de Orçamento Retificativo... E ainda há eleições em outubro que ameaçam a estabilidade da coligação, como se está a ver pelas listas no Porto. No meio deste cenário, tem Passos Coelho alguma margem para desencadear uma remodelação? Não parece possível.

Por seu lado, o PS indicia vontade de apostar em eleições. Neste momento, essa hipótese não é de todo desejável face à situação, no País e na Europa. Seria mesmo suicidário ficarmos paralisados à espera de resultados que poderiam colocar-nos num impasse como o que se vive em Itália, com a agravante de não termos o peso deste país, no contexto europeu. É aqui que tem de entrar Cavaco Silva. É fundamental que o Presidente tenha um plano B. Ele não se pode demitir das suas responsabilidades, nem refugiar-se em queixumes sobre a falta de poderes. Já se viu que este PSD de Passos não é solução, mas tem de ser um Governo de base PSD (para ser respeitada a vontade dos portugueses) e PS. Aliás, estes dois partidos é que nos meteram neste imbróglio: o PS de Sócrates entregou-nos à troika, o PSD de Passos foi mais papista que o Papa. Não é a saída ideal, mas é a única que existe: tal Governo devia ser integrado por gente de convicções, moralmente inatacável e com provas de competência dadas. Este é um momento de emergência e exigem-se gestos transcendentes.