Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A ofensiva de Cavaco

Áurea Sampaio

  • 333

Ter dado posse à dupla Passos/Relvas deve ter sido o maior sapo que Cavaco teve de engolir

Áurea Sampaio

Quis o acaso que, nestes tempos de má fortuna, ao leme do destino do País coincidisse o Governo provavelmente mais detestado da democracia portuguesa com o Presidente da República menos popular de sempre. Excluindo esta coincidência, nada mais liga os protagonistas de um lado e de outro, apesar de Cavaco Silva, Passos Coelho e mais uns quantos governantes serem oriundos do mesmo partido. Como a génese do PSD assentou numa espécie de agremiação de várias famílias, não é de estranhar que a trupe "passista" sempre tivesse alimentado um particular ódio de estimação por Cavaco e que este nunca tivesse escondido uma certa aversão pelo oportunismo de muitas carreiras políticas exclusivamente forjadas na juventude partidária. Ter dado posse à dupla Passos/Relvas deve ter sido o maior sapo que o atual inquilino de Belém alguma vez engoliu enquanto político. Como é sabido, também as relações do PR com Paulo Portas foram sempre péssimas. Desde os tempos em que Portas foi diretor do semanário O Independente que Cavaco não confia nem um bocadinho no líder do CDS, apesar das relações institucionais a que os respetivos cargos obrigam. Perante este clima de amizade e compreensão mútuas, imagine-se, então, como não terá o Executivo recebido o envio para o Tribunal Constitucional do pedido de fiscalização sucessiva do Orçamento! Tanto mais quanto esta espécie de ofensiva do Presidente não se limitou a essa iniciativa. Além dos fundamentos próprios daquele pedido de fiscalização, emitiu uma mensagem de Ano Novo com uma mão-cheia de recados - sobretudo, as referências à "espiral recessiva", à urgência de políticas de crescimento, à necessidade de negociar com Bruxelas outro tipo de programas para relançar a economia, para não falar das advertências quanto à importância decisiva do diálogo como método e enquanto condição sem a qual não será possível o êxito de qualquer solução.

Tem sido positivo este início de ano de Cavaco, mas há que constatar uma evidência e um erro. A evidência: fosse este um PR realmente influente e o Governo não se atreveria a dar um pontapé na Concertação Social logo após o discurso presidencial. Refiro-me à provocação que foi a proposta de redução para 12 dias das indemnizações por despedimento. Numa altura em que o desemprego tem a dimensão que tem, só mentes insanas e desprovidas de qualquer sensibilidade social consideram essa medida uma prioridade. Os argumentos segundo os quais tal faz parte do programa da troika são tão miseráveis que nem merecem resposta... como se viu com o que sucedeu após a reação da UGT.  O erro: não ter pedido a fiscalização preventiva do Orçamento. O que será pior: vivermos umas semanas de duodécimos, ou correr o risco de uma crise política ainda mais brutal, se aspetos fundamentais do Orçamento tiverem de ser mudados quando este já está em execução e quando o timing é mais apertado, na perspetiva de nova avaliação da troika e do debate à volta dos cortes nas funções do Estado? Cavaco não quis afrontar demasiado o Governo. Mas fez mal e o tiro pode sair-lhe pela culatra.

Uma pequena notícia diz que os reguladores mundiais do sistema financeiro chegaram a acordo quanto a darem mais quatro anos aos bancos para estes cumprirem as metas e os rácios de liquidez. Mais um exemplo de que tudo se negoceia neste mundo - desde o prazo do pagamento da casa ao preço do automóvel e ou da televisão. Só o programa de ajustamento português é imutável. Um génio, este Gaspar!