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A fragilização de Passos

Áurea Sampaio

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Passos está cada vez mais social e politicamente isolado

Áurea Sampaio

Na passada sexta-feira, quando se dirigiu ao País para anunciar mais um pacote de austeridade, Passos Coelho devia ter usado de humildade. Sem retóricas inúteis, bastava ter começado, simplesmente, por dizer:

- Enganei-me! Andei por aí a fazer previsões que não se concretizaram, recusei ouvir os que me avisaram sobre o impacto das medidas de austeridade no tecido económico e social do País, enfim, nada do que antevi aconteceu. Pelo contrário, a economia afundou-se mais do que esperei; o desemprego cresceu mais do que previ; arrecadei menos receita; não consegui controlar a despesa; não fiz as reformas que prometi.

Não foi este o discurso de Passos, talvez porque se fosse apenas lhe restaria um de dois caminhos: ou se demitia por ter falhado o seu modelo, ou pedia ajuda para encontrar uma saída diferente daquela que já experimentou e não deu certo. Quando os homens estão à altura dos grandes momentos da História não há barreiras capazes de impedir a construção de pontes em nome da defesa de valores tão essenciais como a preservação da dignidade humana, da justiça social e até da liberdade. Quem é livre, se a perda de um dia de salário o impede de fazer greve? 

Outro aspeto que faltou no discurso do primeiro-ministro foi a explicação do que falhou. Uma omissão condenável que não só legitima os que questionam a credibilidade dos novos sacrifícios, como acaba por dar a machadada final na relação de confiança que muitos portugueses ainda mantinham com o chefe do Governo. Quem acredita, agora, que o caminho das pedras possa desembocar na terra do leite e do mel? As sondagens irão brevemente responder a esta pergunta, mas é óbvio que Passos Coelho está cada vez mais social e politicamente isolado. Nas ruas, a sua figura é cada vez mais hostilizada; na coligação, multiplicam-se os esforços do CDS para sair deste filme o mais airosamente possível, ainda que, desta vez, seja muito difícil o cinismo de Portas compensar; na concertação social, a UGT ameaça romper o acordo firmado há meses com o Executivo, enquanto importantes setores do patronato contestam ou torcem o nariz ao novo pacote de medidas. Como se tudo isto não bastasse, está comprometida qualquer hipótese de neutralidade do PS no Orçamento e surgem críticas ao Governo oriundas do próprio PSD.

Há ainda Cavaco. O que vai fazer o Presidente? Alinhará com Alexandre Relvas, um dos seus mais diletos discípulos, que criticou o "experimentalismo social" das novas medidas do Governo? Agirá em conformidade com os sociais-democratas do seu partido que alertam para os perigos que a coesão social pode vir a sofrer com a "rutura ideológica" em curso no PSD (ver pág. 28)? Será coerente consigo próprio quando, após o último pacote Sócrates, disse que "há limites para o sacrifício dos portugueses"? Ou vai refugiar-se nas teias de uma alegada "estabilidade política" definida como um fim em si mesma e não como condição para atingir um bem maior? Aconteça o que acontecer, a passagem de Cavaco por Belém ficará definitivamente assinalada por tudo o que ele fizer e disser por estes dias. Mas mesmo que Cavaco assine de cruz o Orçamento, se o PS romper com o Governo, se a UGT denunciar o acordo de concertação e se uma parte respeitável do PSD der a cara contra esta política - então Passos ficará mesmo em maus lençóis. Mais só e com a legitimidade diminuída.