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Vacilantes rostos do passado

António Lobo Antunes

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O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e se ausentava num abismo de mudez

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Vacilantes rostos do passado: os meus avós, os meus tios, a minha bisavó, já tontinha, um militar com as tripas nas mãos a olhar-me na picada, numa atitude de oferta. Silenciosos verões, a serra da Estrela que continua a fazer-me sonhar, o céu da noite sobre as ramadas dos pinheiros. Cheiros da Beira Alta que só a mim pertencem, da roupa engomada nas gavetas e o do incenso, na igreja, quando era menino do coro e as flechas de São Sebastião, num altar lateral, me atormentavam. Riscos encarnados a imitarem sangue no corpo de pasta. A minha embirração por São Luís Gonzaga, possuidor de todas as virtudes que eu não tinha: obediência aos pais, bom aluno, simpático até ao enjoo e, segundo a pagela, esmoler. Ainda hoje a palavra esmoler me provoca uma reacção no género da que me transtorna quando uma faca raspa o fundo de um prato ou o giz, na escola, guinchava na ardósia. Esmoler não lembra ao diabo mas lembrou ao biógrafo de São Luís Gonzaga, que devia ter sido fuzilado no berço antes de ter tempo de crescer e escrever aquilo. O problema das crianças é que se tornam adultos: os gatos, por exemplo, são sempre gatos, que alívio. E os cavalos de carrossel não mudam nunca. Saudades do carrossel em forma de oito:

- Viaje no oito que viaja melhor

berrava o altifalante, e atrás do microfone um homem gordo, de bexigas, a piscar o olho às pequenas jeitosas enquanto limpava o suor das bochechas com um lenço gigantesco, esse não um vacilante rosto do passado, uma cara pavorosamente nítida, de anel do tamanho de uma algema no dedo. Silenciosos verões durante o dia, os insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre, asas queimadas crepitando. O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e se ausentava num abismo de mudez. O bolso do casaco dele cheio de palitos que não sei para que lhe serviam, não os punha na boca. Depois de morrer o casaco, de linho branco, permaneceu que tempos no cabide. Era bonito e triste, de uma melancolia amável. Não me ligava nenhuma, dava ideia de não ligar a ninguém. Sorria apenas. Vacilantes rostos ou sombras? Isto parece a introdução do Fausto de Goethe, vou mudar a agulha. Lembro-me da minha mãe cantar, lembro-me de parecer nossa irmã, lembro-me de eu a querer escrever. Com cinco ou seis anos copiava coisas dos jornais e considerava-as minhas. Fazia versos. Por volta dos treze anos comecei a entender que não tinha talento e seguiram-se séculos e séculos de prosa. Na altura ainda fazia essas diferenças. As prosas eram, evidentemente, horríveis, tinha consciência disso, mas tinha também a certeza inabalável, de cimento, que iria fazer o que nunca, antes de mim, se fizera. É esquisito que ainda hoje não pasme com a minha convicção de garoto. Como Bocage ao acabar de dizer um poema:

- Isto é meu, isto não morre.

Pois, mas morreu ele. Claro que nessa altura não me preocupava o que preocupava Balzac e ainda me preocupa hoje: a forma interna, as possibilidades internas do material, a administração das palavras no interior do texto, mas não vou aborrecer as pessoas com problemas técnicos. Quero que o canalizador me ponha a torneira a funcionar, não me interessa como o faz. E a maior parte dos leitores exigem resultados, o meio de os atingir é-lhes indiferente, enquanto a mim, por dever de ofício, o que me atrai num livro é desmontá-lo, ver o por dentro, os parafusos, as rodas dentadas, os amortecedores

(amortecedores é fundamental)

as bielas, a tralha escondida que põe a funcionar tudo aquilo. Quando John Cheever escreve "numa boa página de prosa ouve-se chover" a questão é como se chegou a isso, que milagres não há. De que maneira treinar a cabeça e a mão, apagar da memória tudo o que não faz parte do livro, aprender, até a tornar instintiva, a fazer a triagem do que nos irá servir e jogar fora resto. Que longo caminho até chegar aqui. E, ao mesmo tempo, a sensação de que estamos sempre a começar. Queridos, vacilantes rostos do passado. Daqui a nada eu, passado igualmente, na memória dos outros:

- Como era o António, que não me recordo bem?

Casaco e palitos não tinha, sorriso pouco, quase não falava. Sujeitava-se mal à ordem das coisas. Tentou, a vida inteira, conseguir vários níveis de emoção em cada frase e concentrar num nada o mundo todo. O resto considerava-o inútil. Um dia morreu. Deixou parágrafos. Na esperança que as asas queimadas dos insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre crepitem não um segundo mas a eternidade inteira. Na esperança, não. Seguro disso, enquanto o céu da noite continuará sobre as ramadas dos pinheiros, no lugar onde foi mais feliz.