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Tudo o que cresce precisa de muito tempo para crescer

António Lobo Antunes

"O segredo de escrever é ser estrábico, ter um olho na bola e outro nos jogadores. Em miúdo espantava-me que os olhos dos lagartos fossem independentes um do outro, mas quando comecei nesta vida descobri-me lagarto numa pedra, à coca, muito quietinho, rodando as pupilas para sítios diferentes, guloso da mosca de uma frase"

E começo a ter o livro. Quer dizer, sinto-me pronto a escutar as vozes que guiam a mão, já consegui despir-me interiormente de tudo o que não é ele, respiro palavras, como palavras, deito-me com palavras, acordo com palavras, os murmúrios interiores não cessam, vou começar. É apenas disso que necessito para começar: não ter mais nada dentro a não ser a obra e o que existe à minha volta se esbater até deixar de existir. Julgo que, por fora, não se nota, tenho a certeza que, por fora, não se nota. E o que vem até mim ou entra no livro ou é rejeitado. Cheguei de França, tenho de ir a Espanha e mal volte de Espanha principio. Ao fim de dois ou três meses o material torna-se sólido, ou antes um núcleo sólido a que se vão acrescentando filamentos, cicios, murmúrios, pedacinhos de coisas, parágrafos, afinal inúteis, que se desprendem, permanecem um momento a vogarem, somem-se, um após outro, além das fronteiras que me limitam. Ou não bem limitam, me cercam e mudam, porque o país que sou se altera, encolhe, cresce, anexa estranhas regiões desconhecidas, cujo idioma tento entender a pouco e pouco. Meu Deus, existem dúzias de línguas diferentes cá dentro, para as quais vou construindo uma gramática, de início rudimentar e depois progressivamente mais complexa. Quem não inventa uma língua junta linhas, não escreve. 

Acabo de chegar de Espanha nem há uma hora sequer, comi com alguns dos escritores de que mais gosto, Juan Marsé, Ana Maria Moix, o grande crítico Ignacio Echevarría. Juan e Ignacio acabaram agora cada qual o seu trabalho: um belíssimo romance chamado Caligrafia dos Sonhos e uma antologia de textos de Rafael Sánchez Ferlosio, na minha opinião a melhor mão viva de Espanha, julgo que nunca traduzido em Portugal

(porquê?) 

que deu a mais perfeita definição de um escritor ao referir-se à primeira 

(acho que primeira) 

mulher, a também escritora Carmén Martin Gaíte: 

- Carmén é uma viúva que tem o morto em casa. 

Acabo de chegar de Espanha 

(Sánchez Ferlosio é inclassificável) 

revejo os poucos apontamentos que juntei para o livro e decido: vou iniciar isto no dia 25 de fevereiro, em homenagem ao aniversário de um amigo muito querido. Vai ser um texto longo, apetece-me segregar um texto longo com a mulher que me apareceu e anda cheínha de vontade de começar a abrir a boca. Conserva-a fechada até ao dia vinte e cinco se faz favor. No caso da pessoa que está sentada no escuro à minha espera consentir, publica-se lá para o fim de 2013. Carmén é uma viúva que tem o morto em casa. Anita Moix está com um romance. Andam todos a trabalhar menos eu. As traduções não param de me chegar a casa. E eu sem fazer nada, raios partam, adianto estas crónicas para ter espaço, mas as crónicas são um galope diferente, que me seca a cadência do livro e me atrapalha o ritmo. O segredo de escrever é ser estrábico, ter um olho na bola e outro nos jogadores. Em miúdo espantava-me que os olhos dos lagartos fossem independentes um do outro, mas quando comecei nesta vida descobri-me lagarto numa pedra, à coca, muito quietinho, rodando as pupilas para sítios diferentes, guloso da mosca de uma frase. Descobri também que o passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não pára de se transformar. Lá vêm os mortos, diferentíssimos 

- Olá, rapaz, que tal ficamos assim? 

e eu a demorar a reconhecê-los, surpreendido, a escutar 

- Sou este, sou aquele 

a olhar melhor, a concordar 

- De facto 

e a ter de passar a existência a limpo para a adaptar àquilo. Terei mesmo o livro, será este? Eu para Juan Marsé 

- Será o livro? 

ele 

- Daqui a dois anos sabes 

e daqui a dois anos sei, mas daqui a dois anos o que será de mim? Gosto de Barcelona com sol, gosto de falar de bola com os choferes de táxi. Carmén é uma viúva, etc. Jornal atrás de jornal, televisões, conferências, a maneira das espanholas cruzarem a perna até ficarem parecidas com chamas de vela e eu a acertar as pupilas de lagarto para as focar melhor. Não tive tempo para estar com o pintor Albert Cruells que sorri com o corpo todo. E, atrás das casas, escondido, o mar. Tão escondido como o hotel, demasiado à vista, com cujo endereço nunca atino. A fotógrafa colombiana, arrastando botas de soldado de um exército perdido, que não pára de me tirar retratos. Mostra-me fotografias de escritores, coisa que nunca me interessou 

(quero lá saber como são ou eram as caras deles) 

e eu a fingir que vejo para não parecer mal educado. E um caderno inteiro com imagens de um romancista que não me agrada por aí além, desde pequeno, nas suas diversas metamorfoses a caminho do insecto perfeito, de óculos escuros e gola para cima, severo, profundo. Encontrei-o em Paris há uns meses, grave e trágico. Acho que nunca o vi sorrir, sempre a tomar pastilhas, esquisitíssimo. O jardim zoológico dos literatos e afins deixa-me sempre de boca aberta. Com o tempo conheço-os a todos, e aqueles que me interessam são pouquíssimos. Hoje, doze de fevereiro, faltam treze dias para o livro. O que farei até lá? Ler, com ganas de começar logo a corrigir o que leio. Agora, de novo em casa, posso fechar-me outra vez, não ver ninguém, não ter opiniões, não dar respostas, não dizer 

- Obrigado 

não fingir que me interesso enquanto penso noutra coisa. Apetece-me estar a sós comigo, na minha cadeira, em paz. De vez em quando um morto 

- Lembras-te de mim? 

e não sei se me lembro de ti. Lembro-me de hoje ter acordado a meio da noite a pensar que era feliz, e de voltar a adormecer agarrado a um brinquedo que não havia. Devo ser feliz porque há sol lá fora. Em havendo sol lá fora não preciso de mais nada. Até os móveis me parecem contentes. Como se acaba esta crónica? É simples: põe-se um ponto final. Aqui está ele: .