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Os ladrões

António Lobo Antunes

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A jarra que fora da mãe dela igualmente e a acompanhava desde pequena, a gente vai criando amor aos objectos, sobretudo àqueles que nos escoltam desde a infância e nos viram crescer, o homem sentou-se na cama, pronto a discutir com a mulher, eles que não discutiam, se ignoravam, e nisto os dois gatunos no umbral

Despertou a meio da noite, sem compreender porquê, e nisto apercebeu-se que passos leves na sala de maneira que pensou

- Foram os passos que me acordaram

enquanto a mulher, ao lado, continuava a dormir, de costas para ele. Há anos que dormiam de costas um para o outro. Há anos que, despertos, viviam de costas um para o outro. Não se beijavam ao chegar a casa, não se beijavam de manhã, o hábito tornara as palavras quase desnecessárias, continuavam juntos porquê? Os passos na sala interromperam-se um instante, recomeçaram. Passos e a porta empenada do aparador, onde havia umas casquinhas herdadas da sogra, meia dúzia de xícaras antigas. A claridade dos intervalos dos estores tornava inútil acender a luz, a penumbra cinzenta chegava. Passos não de uma pessoa, duas pessoas, a primeira mais lenta, a segunda mais rápida, acompanhados de uma espécie de cochichos, não uma espécie de cochichos, cochichos, uma tossezita nítida abafada no lenço. Pensou em levantar-se, teve medo de levantar-se, pensou

 - Se calhar estou a inventar coisas

e não estava a inventar coisas dado que a pessoa mais rápida

- Levamos a aparelhagem?

numa voz completamente nítida, tentou imaginar o que haveria mais na sala que pudesse atrair gatunos, não eram ricos, não tinham objectos caros, talvez o crocodilo que parecia de marfim, talvez a jarrita de cristal, uma das pessoas pegou nela porque a outra

- Deixa estar isso que é a fingir cristal

e o facto de não ser cristal desiludiu-o, ou antes irritou-o como uma ofensa, não da parte do intruso, da jarra que o enganava há séculos a garantir que cristal, o homem capaz de jurar que a jarra

- Sou de cristal

e, vai na volta, um vidreco qualquer, porque carga de água nos aldrabou o tempo inteiro, decidiu, vingativo

- A primeira coisa que faço amanhã é pregar-lhe uma martelada

enquanto os passos, até então na sala, na cozinha, no corredor, se iam aproximando, a pouco e pouco, do quarto, a pessoa mais lenta

- Há sempre jóias nos quartos

a pessoa mais rápida

- Vai na volta falsas como a bodega da jarra

e o ódio do homem à jarra a multiplicar as marteladas diante do silêncio zangado da mulher, ou antes, não silêncio

- Nem sonhes que apanho os cacos, és doido

a tentar empurrá-lo, danada com ele

- O que se passa contigo?

a jarra que fora da mãe dela igualmente e a acompanhava desde pequena, a gente vai criando amor aos objectos, sobretudo àqueles que nos escoltam desde a infância e nos viram crescer, o homem sentou-se na cama, pronto a discutir com a mulher, eles que não discutiam, se ignoravam, e nisto os dois gatunos no umbral, fechou os olhos muito depressa, escutou o rápido para o lento, no cochicho do costume

- Olha, este dorme sentado

e o lento, com pena

- É capaz de ser doente da espinha

uma pena relativa, claro, porque foram direitos à concha dos colares e dos anéis em cima da cómoda e a despejaram, inteirinha, nas algibeiras das calças, o rápido pegou no relógio do pulso na cabeceira oposta à do homem e aproveitou para uma olhadela à mulher que continuava a dormir, comparando o mostrador com a criatura que ressonava devagar

- O relógio não vale um chavo e ela também não, é gorda

o homem, de olhos fechados, conseguiu impedir-se um estremeço de ultraje dado que o relógio, comprado numa ourivesaria próxima, lhe tinha levado o subsídio de Natal inteiro e a mulher, apesar de forte quando a conheceu

(gostava de raparigas fortes)

não era assim tão gorda, a metade inferior podia concordar, as nádegas, as pernas, mas os ombros estreitos, verificou-a pelo rabo do olho, ele que não a verificava há eternidades, e notou que a metade superior se espessara também, o braço fora do lençol abundante, o peito de cima vasto, poisado no peito de baixo achatando-o, um duplo queixo de cónego, a nuca grossa a brilhar de suor, deu por si a reparar com mais atenção e de facto nem o relógio nem ela valiam um chavo, o lento, o compassivo

- Não percebo como é que o infeliz mora com isto

o rápido

- Provavelmente foi assim que arranjou a doença da espinha

e o homem não incomodado com os gatunos, incomodado com a mulher

- Que raio de ideia ter-me enfiado nisto

mirando com rancor as banhas que dormiam e os seus sopros tranquilos, veio-lhe à ideia a sesta dos hipopótamos no jardim zoológico, veio-lhe à ideia o repouso dos texugos, abotoou melhor o pijama e propôs aos ladrões

- Não me querem levar também?

o rápido mediu-o com pena

- Já temos os sacos cheios da sua tralha, amigo, onde é que você ia caber?

o lento

- Se fosse mais pequeno ainda dava agora desse tamanho em que sítio é que a gente o mete?

Compreensivos, amigos, o homem, grato pela generosidade, deu-lhes o envelope com dinheiro da gaveta, o cartão de crédito, a aliança, solicitando

- Esqueçam-se de tudo menos da aliança

tentando convencê-los a virem-no buscar amanhã, para a semana, até ao fim do mês, no máximo, o lento, de alma compassiva

- Se calhar em caminho ainda passamos por cá

o homem, com vontade de abraçá-lo

- Era um favor amigo

acompanhou-os ao patamar, debruçou-se do corrimão até o trinco da rua produzir aquele estalinho, acenou-lhes da janela, os gatunos acenaram-lhe da rua, viu-os, já saudoso, desaparecerem na esquina, voltou para a cama, deitou-se e, como não havia mais ninguém por perto, fez uma festa no ombro da mulher, cujo sono principiou a subir a custo uma ladeira, numa mudança mais forte.