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O Rabo

António Lobo Antunes

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Eu que vinha da guerra, me achava um homem, à custa de haver crescido na mata durante dois anos

- Doutorinho, doutorinho

disse ela. Era uma senhora de noventa anos, com uma bengala na mão direita e um saco de plástico na esquerda, a arrastar os pés difíceis. A boca tremia ao falar, tinha pouco cabelo, não a reconheci.

- Não se lembra de mim, pois não?

e não lembrava, tão idosa, tão lenta. Lembrava-se ela

- Foi há tanto tempo, doutorinho

a segurar a placa com a língua. Roupa antiga, chinelos, as pernas estreitas, demoradas, duas alianças coladas uma à outra, os olhos meio sumidos na algibeira das pálpebras. A partir de certa altura a cara ganha bolsos que vão engolindo as feições. Um casaquinho de malha a que faltava um botão, um camafeuzito ao pescoço. E, no entanto, qualquer coisa nela que não me era inteiramente estranha, mas o quê? Ajudou-me

- Era enfermeira no hospital na altura em que o seu paizinho lá trabalhava, ainda apanhei o doutorinho quando para ali entrou

e a qualquer coisa que não me era estranha a aumentar, os noventa anos a transformarem-se numa mulher entre duas idades, ainda bonita, com um sorriso que, na altura, lhe enchia a cara toda. Faltava-me o nome, a senhora ajudou-me

- Sou a Estela

e, escondida nas rugas e na dentadura, a Estela de facto, a Estela de súbito, despachada, direita, a dar de comer a uma doente, a entrar no refeitório do pessoal com as colegas, a informá-las

- Aquele doutorinho é filho do senhor doutor

a informar-me

- Não se zangue comigo, doutorinho, mas apertando-lhe o nariz ainda sai leite

eu que vinha da guerra, me achava um homem, à custa de haver crescido na mata durante dois anos, tinha uma filha bebé, considerava-me uma pessoa crescida, e logo esta criatura a destruir-me as ilusões

- Apertando-lhe o nariz ainda sai leite

reduzindo-me a um crianço definitivo. Enfermeira Estela: tão baixinha agora, tão mirrada. Perguntei-lhe

- Acha que ainda me sairá leite do nariz?

e, na cara dela, inesperado, o tal sorriso que a enchia toda

- Qual é a dúvida?

e dúvida nenhuma, a enfermeira Estela mesmo, sempre de saltos altos, a quem o meu chefe apreciava o rabo

- Olhe-me para aquilo

não pela boca, pelo interior do cigarro

- Olhe-me para aquilo

comigo a concordar por educação, a concordar mesmo sem ser por educação, na verdade o rabo, ao jantar, em casa do meu pai, séculos depois, não sei porque carga de água, a enfermeira Estela apareceu na conversa, o meu pai, de garfo suspenso

- Eu não devia falar nisso mas tinha cá um rabo

de olhinho sonhador, a equilibrar o peixe

- Um rabo e pêras

a seguir ao rabo e pêras a enfermeira Estela evaporou-se até regressar agora, sem rabo algum, de bengala e saco plástico, reduzida a uma marioneta penosa

- Doutorinho, doutorinho

conquistando cada passo numa vitória duramente ganha. O marido enfermeiro também, de bigode galante, preferindo qualquer outro rabo ao rabo dela

- O seu marido, senhora enfermeira?

e a enfermeira Estela, a encaixar melhor a dentadura com o indicador

- Os diabetes levaram-no nem eu sei já quando

se calhar na época em que o seu rabo ainda exaltava os médicos, se calhar depois, quando já não exaltava ninguém, primeiro mole, a seguir inexistente e a enfermeira Estela, viúva do marido e do traseiro, uma vidinha de viúva num apartamento qualquer, com o retrato do bigode galante à cabeceira, para quem não devia olhar, a reunir-se à tarde com colegas cada vez mais decrépitas, para chazinhos num cafezeco ao pé de casa, conversando disto e daquilo, conversando de quê, até as colegas desaparecerem uma a uma

- Só cá estou eu, doutorinho

viúvas igualmente, caminhando no céu, de bengala e saco de plástico, a estenderem deditos incertos para a tília que São Pedro lhes deve servir a meio da tarde.

- Olhe que não mudou nada, doutorinho

retribuí-lhe o galanteio, de rabo na ideia

- A senhora enfermeira também não

a boca tremeu-lhe com mais força

- Não troce de uma velha

e pareceu-me que uma espécie de lágrima na algibeira da pálpebra, se calhar imaginação minha, sou dado a fantasias, se calhar verdade

- Não troce de uma velha

porque a bengala um arabesco no ar antes de cravar-se no passeio em busca de equilíbrio, acrescentando baixinho

- Ainda se recorda do meu rabo?

e eu a fingir que não ouvia, a fingir que não ouvia, a fingir que não ouvia, a arranjar uma desculpa para me ir embora depressa, misturada com um

- Então não recordo?

se calhar não tão saudoso como ela desejava, como eu desejava, como o meu pai desejaria, ao virar a esquina o meu chefe, apreciativo

- Que pedaço de perdição

e tive quase a certeza que a espécie de lágrima, nem acredito no que escrevo, em mim.