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O Open do Poço do Bispo

António Lobo Antunes

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O torneio era internacional porque qualquer estrangeiro podia concorrer

Chamava-se Edmundo e era campeão do bilhar às três tabelas. Todas as tardes, às quatro horas, estava no Palace do Bilhar, duas ruas abaixo da nossa, a preparar-se para o Torneio Internacional do Poço do Bispo, em mangas de camisa mas de colete e lacinho como os profissionais. Nunca vi sapatos de verniz tão brilhantes quando erguia uma das pernas, estendido ao longo da mesa, para uma jogada mais difícil, enquanto o tio dele, numa cadeira de braços, sempre de cachecol, mesmo em agosto, ia dando instruções. Antes da artrite não havia pai para o tio no bairro inteiro, agora aconselhava apenas, de cigarrilha no queixo, propunha alternativas, corrigia posições Esse ombro esquerdo, esse ombro esquerdo mandava repetir os lances, doseava o giz no taco. A gente ficávamos encostados a ver, sobretudo o Teobaldo e eu, que sem falsas modéstias éramos as promessas do Palace. Aliás o tio do Edmundo achava que com trabalho íamos lá desde que cortássemos na cerveja, que tira firmeza à mão, e perdêssemos menos tempo com as miúdas que retiram serenidade mental aos atletas. A minha chamava-se Ariana, tinha dezoito anos e trabalhava no Império das Lãs, e a do Teobaldo ajudava a mãe que cozinhava para fora. Na minha opinião cheirava um bocadinho demais a refogado.

O Edmundo não perdia tempo com as miúdas porque, mal se aproximava de alguma, o tio Queres fazer figura de urso no torneio? e esta ameaça horrível obrigava-o a regressar de imediato ao taco, sobretudo com a taça ali mesmo, em cima de uma coluna, de fitinhas com as cores da bandeira nacional nas asas e uma carrapeta com duas bolas pintadas de branco e uma pintada de vermelho. O torneio era internacional porque qualquer estrangeiro podia concorrer. Que eu soubesse não concorria nenhum, mas os dirigentes do Clube Atlético do Poço do Bispo chamavam-lhe O Open, e andavam a pensar convidar um espanhol que morava na Amadora, casado com a dona de uma tabacaria, e que dava umas tacadas mais ou menos, para tornar o Open mais Open e chamar atletas estrangeiros.

O espanhol prometeu trazer um amigo com habilidade, e a única questão era pagar-lhe a estadia, dado que o sujeito não era criatura de posses. O Atlético fez um esforço por intermédio de umas rifas e o espanhol lá veio com o da dona da tabacaria. Chegou na véspera e, para se ambientar, enfiou onze cervejas no bucho, deu uma lição da sua língua à Ariana, que, para espanto meu, gostava de idiomas, experimentou a mesa com um taco emprestado e não lhe consentiram mais do que um lance porque, logo ao primeiro, só por milagre não rasgou o pano. Apesar de tanta falta de talento a Ariana, sabe-se lá a razão, as mulheres são esquisitas, não lhe tirava o olho de cima. No dia seguinte, na primeira eliminatória do torneio, o Teobaldo perdeu, eu apurei-me à justa contra um contabilista de Alcântara que passou o jogo a fungar, constipadíssimo Devo ter febre e o Edmundo, orientado pelo tio, deu uma banhada a um gordo de Odivelas.

O adversário do espanhol da Ariana faltou por estar de serviço nos bombeiros, o pano permaneceu intacto e ele, para comemorar, mamou meia garrafa de brandy e saiu, quase de gatas, para a pensão onde lhe arranjaram um buraco sem janela mas com cama e lavatório de esmalte. Contaram-me, não vi, que a Ariana o acompanhou para ele não se enganar no caminho, a cantarem um pasodoble qualquer. Na segunda eliminatória fui-me abaixo contra um pinoca do Martim Moniz, o Edmundo, com o tio à perna, aguentou-se, tem-te não caias, com um mulato dos Anjos, o adversário do espanhol da Ariana torceu um pé e desistiu, e o espanhol chegou aos quartos de final sem ter pegado no taco, de maneira que o pano, para alívio dos organizadores, permaneceu inteiro. Para alívio dos organizadores e para alegria da Ariana que nem sequer me deu um beijo de consolação, toda inclinada para o bêbedo num entusiasmo que me confundia. Claro que compareci aos quartos de final, na esperança de ver o espanhol levar um enxerto de um sujeito da Bobadela, considerado, pelo tio do Edmundo, um rapaz com talento.

O sujeito da Bobadela, e nós todos na assistência, esperámos cinco minutos, dez minutos, um quarto de hora e o espanhol nicles. Meia hora e nicles. Três quartos de hora e nicles também, e foi mais ou menos por essa altura que a miúda do Teobaldo entrou a dizer que tinha visto a Ariana e o estrangeiro a tomarem a camioneta do norte, com uma grade de cervejas e uma caixa de brandy por bagagem, agarrados um ao outro a cantarem zarzuelas. Passaram cerca de vinte e cinco anos sobre essa noite e ainda não me decidi se continuo ou não à espera dela. Dizem-me que mora em Badajoz, tem um filho e uma filha e vai ser avó. Pergunto-me se existe razão suficiente para deixar de esperar. Há alturas em que penso que sim e alturas em que penso que não. Se calhar espero mais um ano ou dois, talvez. O que me aborrece mesmo, no meio disto tudo, é o Edmundo ter sido derrotado na meia final por um meia leca de Pedrouços.

Isso foi grave e nunca mais pusemos a vista em cima da taça, com as fitinhas da cor da bandeira nacional e as três bolas no topo. Fiquei tão desiludido que chorei de raiva e o tio do Edmundo deixou de falar-lhe. É a única coisa sem remédio porque a Ariana é evidente que volta.

E se aparecer de bengala jogamos os dois uma partida na mesa de jantar.