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O milagre

António Lobo Antunes

'respondi modestamente que era actor de novelas na televisão, em voz baixa, implorando segredo dado que me incomodava ser reconhecido. Pediu um autógrafo também e tornei-me instantâneamente uma celebridade no bairro'

Durante anos tive um sítio para escrever na Rua Afonso III, um segundo andar pequenino a cavalo no rio: um quarto, uma salita, uma cozinha dentro de um armário, o rio em frente e no outro lado do rio as chaminés na margem sul, as paredes cobertas de fotografias de jogadores de futebol e anúncios de astrólogos que amarravam e desamarravam pessoas, davam sorte aos negócios e tratavam a impotência, tudo ao mesmo tempo. Por alguns meses não foi apenas sítio de escrever, foi sítio de morar, sem livros e quase sem móveis, trastes comprados no lugar mais barato que encontrei, uma cama, uma cómoda, três cadeiras, a mesa de tampo de mármore partido em que trabalhava. A porteira chamava-se dona Generosa, o edifício era tão feio que se tornava lindo, abastecia-me num supermercadozito a cem metros. Uma ocasião estava na bicha do pagamento e a rapariga antes de mim pediu-me um autógrafo. Ao chegar a minha altura a senhora da caixa, proprietária e única empregada, que ouvira a história do autógrafo, perguntou-me

- Desculpe, o senhor é famoso em quê?

e respondi modestamente que era actor de novelas na televisão, em voz baixa, implorando segredo dado que me incomodava ser reconhecido. Pediu um autógrafo também e tornei-me instantâneamente uma celebridade no bairro. Até o barbeiro se interessou

- Há muitos maricas no teatro não há?

e tirei o braço da toalha num gesto vago que lhe confirmou as suspeitas. Notei no espelho que me observava avaliando a minha masculinidade e tocando-me o menos possível no receio que a mariquice fosse contagiosa: há os que são e não parecem de modo que convém ter cautela. Na tasca onde almoçava o dono informou-me, com abertura de espírito

- Não tenho nada contra os homossexuais, sabia?

e de um grupo de operários que ouviu esta declaração de princípios veio o acrescento tolerante

- Cada um come do que gosta

seguido de cotoveladas e risinhos. A dona Generosa, que simpatizava comigo, preocupou-se

- Dizem por aí que o senhor é esquisito, veja lá

enquanto eu metia a publicidade da minha caixa do correio nas caixas do correio dos vizinhos e a dona Generosa, cúmplice

- Expliquei logo às pessoas que por mim nunca notei nada

afastando à cautela o filho com a palma estendida, e depois disto, ao apresentar o cesto de arame na caixa, a proprietária do supermercado, numa mistura de estranheza e dó, sugeria

- Temos aí um cremezinho para a cara francês

ou

- Recebi agora um verniz de unhas transparente

surpreendida por me contentar com iogurtes e bolachas ou antes não surpreendida visto que

- A manter a linha não é?

num murmúrio tolerante. A minha reputação ia-se adensando, principiavam a aceitar-me, a advogada dois andares acima consultou-me acerca da roupa

- Fala-se que vocês têm mais gosto que os outros, o que acha deste azul?

o azul do soutien, não da blusa, o soutien reduzido e eu achei que o azul estupendo, avaliei-o entre dois dedos, isto no elevador, como o soutien cheirava bem pesquisei

- É perfumado isso?

a advogada parou os olhos em mim, admirativa primeiro, interessada a seguir

- Onde é que se compram soutiens perfumados?

repeti o gesto vago que clarificou o barbeiro

- Por aí

o soutien chegou-se mais, comigo sempre a avaliar o tecido

- Numa loja da Baixa, uma transversal que quase ninguém conhece, se me acompanhar lá em cima faço-lhe o desenho

julguei que tinha sorte, não tive sorte porque um soslaio ao relógio

- Estou atrasadíssima para um julgamento, amanhã procuro-o

mirou-me das escadas no que se me afigurou uma espécie de dúvida se calhar nascida de um deslize dos meus dedos, observei os dedos que me pareceram sossegados, tranquilizei a dona Generosa que esperava da porta

- Sou louco por azuis

a dona Generosa

- Se eu fosse sua mãe tinha pena

a dona Generosa

- Com um palminho de cara como o seu que desperdício

se calhar por culpa dos dedos a advogada não veio, tocaram à campainha mas era para conferirem o contador do gás, nenhum perfume, um sujeito gordo, nenhum soutien, um fio das grilhetas dos forçados das galés ao pescoço, com uma cruz em tamanho quase natural que lhe alcançava o umbigo, a advogada moita, morena, com franja, um anel no polegar

- Como se chama a advogada, dona Generosa?

a dona Generosa, terapêutica

- Julga que o ajudava a perder os vícios?

tornei-me melancólico

- Deus queira

e recebi na volta

- Florbela tudo pegado

e o esclarecimento indispensável visto que dentro da dona Generosa morava, insuspeitada, uma professora primária

- Não é Florbela Tudo Pegado, é Florbela com as letras juntinhas, a minha cunhada é Florbela

a cunhada que a visitava aos domingos, sem franja nem anel no polegar e de certeza que um soutien cor de carne, pus-me a pesar os elementos que tinha

- Morena advogada Florbela: serve a dona Generosa, a dissipar dúvidas

- Isso que se murmura por aí acerca de você é verdade?

soltei com melancolia

- Murmura-se tanta coisa

e já esquecera a Florbela quando no fim do mês, um domingo à tarde, a campainha de novo e não era por causa do contador, era o soutien no capacho, era a franja, era o anel

- Posso?

um soutien não azul, preto, uma saia rodada facílima de desabotoar, só com um botão atrás, eram sapatos que se descalçavam num instante, era

- O que é isto?

E o perfume no pescoço, nos braços, era um piercing no umbigo, era o

- O que é isto?

substituído por

- Aí tenho cócegas

era o

- Aí tenho cócegas

substituído por

- Afinal não tenho

substituído por

- Estou toda a tremer

era o

- Estou toda a tremer

substituído por

- Fofinho

era o

- Garantiram-me que eras esquisito

e eu

- Graças a Deus curei-me, a treze de maio vamos a Fátima agradecer

dado que um dos meus irmãos me jurou que em Fátima havia umas hospedarias de se lhe tirar o chapéu, à volta do santuário, e é normal gemer-se em consequência dos cilícios dos penitentes.