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O malandreco

António Lobo Antunes

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Um assunto puxou o outro, passámos dos méritos comparados da tília e da menta, no que se refere ao acalmar dos nervos, a assuntos vagamente mais íntimos, trabalho, dentista, a osteoporose da tua mãe, a osteoporose da minha, apiedámo-nos das pobres senhoras, refectimos em conjunto acerca dos pavores da velhice

Porque motivo já não me chamas malandreco? A primeira vez foi quando falámos ao telefone, a seguir ao encontro na pastelaria: estavas sozinha e eu estava sozinho, em mesas ao lado um do outro, levantaste o dedo a fim de pedir um pacote de açúcar ao empregado, o meu chá trazia um pacote a mais no pires e ofereci-to, começamos a falar disto e daquilo, gostei do anel de prata

(de prata?)

no polegar, dos brincos de prata

(de prata?)

grandes nas orelhas, triângulos enormes a imitarem filigrana, gostei das unhas cada uma da sua cor, castanho, verde, azul, amarelo, adiantei com respeito

- Parece um arco-íris

sorriste de agradecimento

(pareceu-me que subscrevias a ideia do arco-íris)

um assunto puxou o outro, passámos dos méritos comparados da tília e da menta, no que se refere ao acalmar dos nervos, a assuntos vagamente mais íntimos, trabalho, dentista, a osteoporose da tua mãe, a osteoporose da minha, apiedámo-nos das pobres senhoras, reflectimos em conjunto acerca dos pavores da velhice

(dentaduras postiças, insónias, rugas)

trocámos telefones depois de espreitares o relógio e declarares que tinhas um primo à espera

(não acreditei no primo, sou desconfiado por natureza)

no dia seguinte, não, passados dois dias marquei o teu número, demoraste a lembrar-te de mim, o nome Honório não te despertava nada, repetiste

- Honório, Honório

escarafunchando a memória que o pacote de açúcar acabou por iluminar, o pacote de açúcar mais importante do que eu, fiz-to notar num requebro triste, respondeste em tom sedutor

- Gosto de coisas docinhas

e eu à procura de coisas docinhas sem achar nenhuma, eu desesperadamente à procura de coisas docinhas sem achar nenhuma, julga-se que é fácil mas não é, meu Deus a capacidade que têm as coisas docinhas de se escapar da gente, meu Deus o meu silêncio aflito tapado com uma tossezita oportuna, antes de desligares tu

- Então um beijinho

eu, numa sem vergonha de tímido que me espantou

- Onde é que o ponho?

tu, num gorjeio 

- Malandreco 

repeti, orgulhoso de mim

- Onde é que o ponho?

sem perceber que ela já tinha desligado, apeteceu-me marcar o número de novo, pesei os prós e os contras

(o meu pai tantas vezes, prudente

- Antes de agires pesa os prós e os contras

santo homem a descansar nos Prazeres sem pesar prós e contras nenhuns, para sempre liberto de dúvidas que o faziam suar:

- Repara nas minhas palmas todas molhadas)

pesei os prós e os contras e decidi não marcar, as mulheres necessitam de tempo para metabolizarem em sossego as nossas palavras, tão diferentes da gente

(o meu pai, por uma vez definitivo

- É outra raça

e é outra raça de facto, paizinho, devia tê-lo escutado mais vezes, só compreendemos o valor das pessoas quando as perdemos)

tão sensíveis, tão frágeis

(começo a não acreditar nisso)

marquei o número quinta-feira e reconheceu-me logo

- Olá, malandreco 

e eu feliz, sou malandreco que me farto, não faz ideia da malandrequice que tenho, acertámos um segundo chá que terminou de novo com o relógio e o primo, não mencionando a despedida rápida

- O jantar de aniversário de uma tia nossa, que maçada a família

um terceiro chá em que não existia arco-íris, as unhas todas vermelhas, compridas, de gel, provocando-me alterações psico-somáticas que o pudor me impede de referir, meias pretas, saltos altos, um penteado de cabeleireiro exagerando as ditas alterações ao ponto de ter receio de, felizmente controlei-me a tempo, com as palmas molhadas do meu falecido pai na ideia

(querido paizinho, tão bondoso, tão discreto, um ás nas palavras cruzadas do jornal ao ponto da minha mãe, criatura de elogio difícil, garantir

- Para as palavras cruzadas não havia como ele

e a gente os dois, de luto, a sorrirmos num orgulho triste, até ela acrescentar

- Nem nisso sais a ele e os sorrisos darem lugar a soslaios de ódio discreto)

controlei-me a tempo, com as palmas molhadas do meu falecido pai na ideia, convidei-te para o cinema de sábado à tarde e recusaste porque o teu primo necessitava de ti a fim de visitarem uma parente afastada num lar

(- Já lhe deram três ou quatro ataques, coitadinha

e uma vida por um fio, soros, algálias)

convidei-te para passearmos em Belém no domingo, o rio, os pescadores, essas tretas, com sorte um abraço, com sorte aquilo que os escritores denominam olhares significativos, dava sei lá o quê por um olhar significativo mais unhas vermelhas, mais meias pretas, mais brincos grandes, mais a minha psico-somaticidade aos saltos, mais um abraço, quero um abraço, exijo um abraço, não me recuse um abraço, porque razão é má para mim, chamar-te

- Má

chamar-te

Mazona

e, com o

Mazona

uma palmadinha terna no rabiosque, tudo o que imploro é uma palmadinha terna no rabiosque, seguida de um olhar enternecido, grato, sublinhado por um arrulho 

- Malandreco 

interminável, mas domingo, desgraçadamente, o aniversário do primo, o teu comentário

- Se eu não for é uma barraca do caneco

e eu parvo com o vocabulário, uma barraca do caneco deixou-me sem fala, levantaste-te da mesa à pressa, esporeada pelo maldito relógio

- Tenho de ir

e fiquei para ali diante de dois chás, abandonado, sozinho, tão tonto que mal dei pela frase do empregado, ao entregar-me o troco, a rosnar com desprezo

- Estes travestis

que nem dei pelo comentário do empregado

- Estes travestis

na esperança que alguém, atrás de mim, me sussurrasse 

- Malandreco 

para me sentir, nem que fosse por um segundo, apenas um segundo, um modesto, pobre, miserável segundo, para me sentir, por um segundo, feliz.