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O encontro de amigos

António Lobo Antunes

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- Vamos celebrar esta amizade, manda aí vir dois brandis
ou seja os dois para ele, o primeiro para amortecer e o segundo para espevitar, tirou quatro relógios de um saquito de plástico

Primeiro pediu-me um cigarro. Depois pediu-me um café. Depois disse que não era contra um croissant de fiambre

- Para amansar a úlcera tenho de comer de vez em quando

não apenas fiambre, manteiga também, que escorrega melhor, e paguei o croissant, o fiambre e a manteiga, depois achatou as mãos nos bolsos do casaco

- Queres ver que me esqueci do dinheiro?

verificou nas calças igualmente e, já agora, no interior das meias

- Há por aí muita gatunagem

e nem uma moeda, olhou-me melhor, resolveu-se

- Para tirar peneiras empresta-me aí vinte euros

porque o passe dos transportes caducou e, apesar de tudo, uma pessoa tem que voltar para casa, não é, pelo menos uma sopinha a patroa faz, mediu-me a diminuir as pálpebras

- Já agora junta dez euros aos vinte e eu compro-lhe um bolo, de cada vez que lhe ofereço um bolo durante uma semana até brilha.

Acabei por pescar dez euros da carteira e ele, a dobrar a nota

- Com cinquenta cêntimos ponho-lhe uma vela em cima e ela amanda-se ao ar de alegria

comigo a imaginar um casal feliz com a sopa, o bolo e a vela, não conheço a esposa, não estou certo de o conhecer a ele porém, com tanta intimidade, somos, de certeza, amigos antigos, conforme ele me provou logo

- Vamos celebrar esta amizade, manda aí vir dois brandis

ou seja os dois para ele, o primeiro para amortecer e o segundo para espevitar, tirou quatro relógios de um saquito de plástico

- Olha-me esta maravilha alemã

não japoneses nem chineses, fancaria de aldrabões, alemães comprovados

- Consegues ler Berlim aqui escrito?

O Berlim não me admirou, admirou-me foi que tivessem ponteiros, deu-lhes corda, encostou-os ao ouvido

- Demoram meia hora a funcionar, as máquinas de precisão são assim

ou seja necessitam de reflectir primeiro, adaptar as rodas dentadas aos caprichos do tempo, impregnarem-se da alma instável dos astros e então, uma vez tudo isto considerado, marcam sete e vinte e três ou onze e dezoito com a segurança inabalável dos pilares da ponte sobre o Tejo

- Sólidos, aqueles pilares, não?

e passamos a transportar no pulso uma verdade férrea pela irrisória quantia de quarenta euros por peça, isto no caso de, como o bom senso recomenda, adquirirmos os quatro relógios, um para nós, como é lógico, que o egoísmo, até certo ponto, é saudável, e oferecendo os restantes a pessoas centrais na nossa vida, a mãe, o pai, um filho especialmente amado, o funcionário dos impostos, o homem que nos resolveu, finalmente, o problema da torneira que pingava há meses, transformando-nos a insónia num tambor militar. Além dos relógios trazia anéis e girafas reduzidas, de pau, ideais para a cómoda do quarto, alinhadas por tamanhos, desde a primeira de três palmos, imponente, à última, da dimensão da unha minúscula do pé de um recém-nascido, só visível com uma lupa mas que, embora eu não desse por ela

- Está lá, precisas de um oculista

terminava a manada. Aliás a última grátis

- Por ser para ti

as outras de sete euros e meio, as maiores, a dois euros e cinquenta e cinco, as minorcas, e os anéis com pedras verdadeiras da África do Sul, compradas directamente aos bosquímanes do Alasca, que toda a gente sabe serem peritos em jóias, e trazidas por mala diplomática porque o governo sul-africano, naturalmente, proíbe a exportação de jóias, onze euros e treze, já com o desconto de dezoito por cento a que a amizade obriga

- A propósito de amizade que tal um último brandi?

e o cálice dele contra o meu na energia das cumplicidades verdadeiras, acompanhadas de uma palma, não sei porquê deu-me ideia que suada, no ombro

- Sem exagero sinto-me teu irmão

que tive medo que desse lugar a um beijo mas os beijos são para os bispos, os políticos e as meninas e nós, graças a Deus, têmo-los no sítio. Ele, pelo menos, tinha, e eu, depois de uma procura discreta, pareceu-me que também, a não ser que ele mos tivesse roubado para os impingir no próximo café, como relíquias de São Mateus

- Aquele que até escreveu um Evangelho

as quais convém tocar antes para fazermos boa figura aos sábados à noite, com ele a garantir

- Vais ver que depois de lhes tocares a tua senhora até chora para andar de lambreta.

Bem vistas as coisas, e atendendo ao seu valor, não me saiu tudo muito caro. Acompanhou-me ao multibanco a levantar o dinheiro

(em duas vezes, uma não chegava)

abraçámo-nos comovidos, à despedida, antes que lágrimas de saudade garantiu-me

- Para a semana passo cá outra vez e quem paga o croissant sou eu

e desapareceu a andar muito depressa. Se eu fosse desconfiado até podia pensar que tinha medo que eu corresse atrás dele a chamar-lhe aldrabão ou a puxá-lo para a esquadra. Mas acredito nas pessoas. Que razões tenho para não acreditar? Apenas uma leve suspeita quando São Mateus não pôs a minha senhora a chorar para andar de lambreta. Estou a vê-la sentada na cama, de braços cruzados, aborrecida comigo

- Então nem para o peditório cá de casa dás?

enquanto eu tentava convencê-la a esperar mais um bocadinho porque as máquinas de precisão necessitam de reflectir primeiro, são assim. Só me pergunto de quantas semanas a minha, quieta, mansa, irredutível

(a pensar decerto)

necessita ainda.