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O duro mês de maio visto por outro lado

António Lobo Antunes

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Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe

A casa da minha infância é muito longe de Lisboa, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E amoras, veredas de amoras. Em toda a vida nunca fui tão feliz como ali. Podia correr-se nas ruas

(ruas?)

andar de carroça, brincar nas esquinas, sentarmo-nos numa pedra, durante muito tempo, a ver os lagartos, as abelhas, a bicharada toda. Apanhar calhaus de mica, cheios de brilhos. E escutar os ramos da trepadeira à noite, contra os vidros do janelico. Onde estão as pessoas desse tempo, onde está o eu desse tempo? A mercearia não era mercearia, era loja de quase tudo, semana sim semana não havia feira, ciganos, ourives, leitões, barros, barros, barros. Bicicletas tão velhas! Manchas de sol no chão! Chamavam-me

- Tóino

não me chamavam

- António

e que é do Tóino, meu Deus? Está a partir pinhões, batendo-os com um pedaço de granito contra um pedaço de granito. Está a comer castanhas verdes e a ficar mal da barriga. Está a ouvir o sino da igreja, aos domingos, e o som das moedas do ofertório a caírem na caixa de lata. Estão a dar-lhe banho na selha. Está a ver os comboios lá em baixo, pelo meio das árvores fora. O Tóino de chapéu de palha, com um elástico debaixo do queixo. Está a espreitar as pessoas na taberna, sempre escura, cheia de moscas. Quase tantas como no curral da burra. A Joãozinha, senhora dulcíssima, como escreveu um homem de quem gosto muito, tratava o meu avô por

- Tonicho

e o meu avô gostava que ela o tratasse assim. A bomba do poço a ranger. O Caramulo tão longe, poentes de mil cores, noites de besouros contra a lanterna. O meu pai a fumar e eu queria tanto fumar também. Perguntei

- Posso fumar?

e a resposta um par de olhos terríveis. O chalet que me parecia sempre abandonado, com espinhos em torno. Não me lembro muito nitidamente da minha mãe nessa época, lembro-me mais da minha avó, omnipresente. Imensas chávenas de asa quebrada. O meu avô usava um aparelho de ouvir complicadíssimo, quase não falava, sempre de casaco de linho branco. Lia o jornal na varanda, ia para a varanda, que esquisito, durante as trovoadas de verão, enquanto a minha avó rezava, apavorada. Era alta, o meu avô nem por isso, alta, de olhos azuis, sempre tão boa para mim. Adorava-a. Adorava a família da minha mãe, de resto, me trataram com tanta ternura. Não tenho razão de queixa de ninguém. Reparo agora, que curioso, que até hoje a única pessoa de quem tenho razões de queixa é de mim mesmo. Fui um afortunado, sempre, embora nunca tivéssemos sido ricos. Que alegria chegar àquela casa, que pena virmo-nos embora para a tristeza do inverno, a tristeza das aulas, o suplício dos professores. Já escrevia nessa altura, versos, ninharias. Mas ia ser o maior escritor do mundo, isso era certo. Na minha opinião sou, claro, não vale a pena escrever se não se é o maior escritor do mundo. Infância, ainda sinto o teu mistério, as descobertas diárias, o teu murmúrio no meu sangue. Ainda me acompanhas com, nos intervalos da alegria, tristezas inexplicáveis que passavam depressa, perplexidades inexplicáveis que passavam depressa, angústias inexplicáveis que passavam depressa. Saudades disso, também e, de repente, o maravilhamento de novo. Paixões por meninas entrevistas, um par de tranças sem cara, um sorriso que se me não dirigia, e ainda bem porque, no caso de se me dirigir, não saberia o que fazer com ele. Isto vai tudo mal redigido mas pouco me importa. Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E as amoras, claro, as amoras. A conversa das pessoas crescidas, à noite, no andar de cima, conversas, risos, passos no corredor e a trepadeira no postigo sempre, a trepadeira no postigo. Não chamava

- Tóino

a trepadeira, não se interessava por mim, interessava-se por assuntos lá dela, que me não diziam respeito ou que, se calhar, sendo mais velha do que eu, decidia não serem para a minha idade, frase que aliás ouvia com frequência:

- Como é que os meninos vão para a barriga das mães?

- Isso não são coisas para a tua idade

resposta que não me irritava muito: limitava-me a considerar os grandes um pouco idiotas, por esconderem coisas quando a vida estava toda ali à mostra, não existiam segredos, existiam, quando muito, algumas lacunas em mim

(ocasionais, na minha opinião, e que se eu pensasse descobria logo)

Completamente secundárias, instantaneamente esquecidas. Por essa altura a minha mãe estava grávida quase todo o tempo e, ainda hoje, não me interessa saber como aconteceu. Continuam a interessar-me muito mais os segredos do vento nos pinheiros que, esses sim, ao contrário da trepadeira, falava a minha linguagem e tinha a certeza que se preocupava comigo. Partilhámos tanta coisa! Mesmo quando vêm tempos difíceis, e vão vir agora, os pinheiros hão-de lá estar. E o Tóino e os irmãos têm imensos pinhões para abrir com um pedaço de granito. Haverá tarefa mais importante do que essa?