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Hino à Alegria

António Lobo Antunes

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O pai falecera há vinte anos, mentira, vinte e um, ainda novo, de um aneurisma, numa época em que a mãe andava, embora de bengala

Vivia com a mãe, que estava paralisada numa cama há onze anos. Dava-lhe de comer, mudava as fraldas, tratava de tudo, tinha um divãzito à cabeceira, onde se sentava à noite, junto dela, a assistir à televisão. Dormia ali também, não fosse preciso qualquer coisa a meio da noite, um copo de água, uma bolacha, um comprimido. E passavam dias a fio sem uma palavra: para quê? Saía de credo na boca para o supermercado, pagar as contas, essas coisas. Às vezes demorava mais tempo nos Correios, quando havia muita gente na bicha, para receber a reforma, e o facto da mãe poder precisar dela em tais alturas inquietava-a. Arranjava-se para esses momentos, pintava-se, punha uma boininha vermelha. De dois em dois meses viajava até ao cabeleireiro umas esquinas acima, a colorir o cabelo de loiro, e lia as revistas de casamentos e divórcios de reis, cantores, jogadores de futebol e actrizes de novelas, pessoas importantes. Uma ocasião, ao voltar para casa, viu passar, de automóvel, a apresentadora do programa da tarde e ficou parada a olhar, feliz. Graças a Deus um semáforo vermelho manteve-a ali trinta segundos. Sorriu à apresentadora, que não lhe sorriu em troca, contudo o facto de lhe ter sorrido bastou-lhe. Não podia trabalhar por causa da mãe, mas a pensão do pai, com cuidado, ia chegando, pode poupar-se sempre aqui e ali, não comiam muito, a senhora da farmácia aceitava que comprasse os medicamentos a prestações, e era um ponto de honra para ela não falhar nenhuma. O pai falecera há vinte anos, mentira, vinte e um, ainda novo, de um aneurisma, numa época em que a mãe andava, embora de bengala. Quis Deus que tivesse sido uma morte sem sofrimento. Estava muito bem a ler o jornal, olhou para elas, disse

- Ai que porra

(de quando em quando soltava uma inconveniência ou outra, era homem)

poisou a cabeça na gravata e pronto. Tirando o

- Ai que porra

foi tranquilo. Só a incomodava um bocadinho o facto de, ao pensar nele, o

- Ai que porra

lhe manchar um tudo nada a lembrança. De certeza que a mãe se sentia igualmente incomodada com isso, uma senhora, não usava, é lógico, a expressão urinar, usava verter, por exemplo

- Ajudas-me a ir lá dentro verter?

e ajudava e a mãe vertia, que se escutavam as gotas a cantarem. As pessoas finas parece que têm um canário na bexiga, que agora, claro, não cantava, as fraldas, logo ali de sentinela, impediam-lhe a música. Ocasionalmente um ruído intestinal, porém as fezes não cantam, tocam trombone de varas e, depois de concertos mais demorados, dava um trabalhão limpar aqueles bemóis todos e colocar o creme a fim de impedir que a vocação artística assasse as nádegas. A mãe, que se desinteressara há séculos das claves de fá, permanecia imóvel, nem um dedo para amostra mexia, ela que dantes pegava na chávena de chá com o mindinho e o anelar em arco, educadíssima. Não dizia gaita, dizia maçada, não dizia chato, dizia importuno. Contudo apavorava-a a hipótese da mãe, dado que as pessoas são imprevisíveis, uma noite destas lançar um

- Ai que porra

inesperado e ficar-se como um passarinho. Sob esse aspecto, e era o único que tinha a apontar-lhe, o pai podia ter sido uma má influência, o pai no resto exemplar, ao entalar-se numa gaveta não exclamava palavrão nenhum, gemia

- Safa

e metia o dedo debaixo da água morna da torneira. Só mesmo encostando a orelha à boca dele, e nunca, claro, encostou a orelha à boca dele, daria pelo cicio de um

- Foda-se

que ela escutara em nova, amplo, imenso, ao electricista que apanhou um choque, lá em casa, a consertar um curto-circuito num interruptor. O electricista, envergonhadíssimo, para a mãe dela

- Desculpe, dona Floripes

e a mãe, uma verdadeira princesa

- Esteja à vontade, senhor Borges

como se o

- Foda-se

constituísse o seu alimento quotidiano e não constituía de forma alguma, mesmo quando os pais eram novos e ela dormia no quarto ao lado, registava, aos sábados à noite, os ténues protestos da cama que nenhum subtil e piedoso

- Ai Jesus

acompanhava, embora não se perceba lá muito bem o que o

- Ai Jesus

tem a ver com o ímpeto da Carne. De qualquer das maneiras, para citar os políticos, a nudez da mãe, nesta altura do campeonato

(nova citação dos mesmos)

era, não mencionando o trombone de varas, total. Engolia a sopinha e ficava a esmoer, diante da apresentadora do programa da tarde, entretida a acompanhar o Chefe Morais num apontamento culinário sobre Faisão a la Não Sei Quê que ninguém da assistência provaria a menos que atravessasse de cabeça o vidro do ecrã, misturando o bicho com válvulas e fios. Mas estava sol lá fora, era maio e, com tanta luz no mundo, a vida fervia de promessas. Só não entendia quais porque, dentro dela, novembro durava o ano inteiro e o que recebia do pai não chegava para ligar o calorífero. Porém aí a gente põe uma mantinha nos joelhos e aguenta. Não temos aguentado até agora?