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Dorme que eu velo sedutora imagem

António Lobo Antunes

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam

A vocação artística tem um forte componente genético que, em mim, é evidente: chegou-me direitinho do meu avô. Não é que lesse muito: para ser sincero nunca o vi ler livro nenhum, embora houvesse em casa meia dúzia de romances brasileiros, a terra de onde veio, Alencar, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, Machado, Pompeia, que jamais saíram de uma estantezeca lá ao fundo, mas recitava à gente, seus netos, poesia de qualidade, que muito fez para me entusiasmar pela possibilidade de transmissão das emoções através das palavras. Pedíamos-lhe, trémulos de entusiasmo

- Ó avó recite lá

e ele, aumentando na cadeira



Um brasileiro mui rico

querendo espantar o mundo

mandou fazer um penico

com uma paisagem no fundo.



Diz-lhe um amigo: - Que louco para que queres isso tu?

- É para alegrar um pouco o triste olho do cu.



Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam, velocidade acompanhada de um

- Francamente

escandalizado, o que prova como podem ser diversas as reações à beleza. A fim de tentar a unanimidade o meu avô iniciava, de imediato, um excerto do grande lírico do século dezanove, Tomás Ribeiro



Dorme que eu velo sedutora imagem

grata miragem que no ermo vi



que as agulhas pareciam aprovar, se não fosse o caso de o meu avô introduzir aqui o seu cunho tão pessoal, que torcia um tudo nada a estrofe:



Enquanto dormes uma dor me ataca

vou fazer caca pensando em ti



e, em resposta, os  

- Francamente

se multiplicarem, acompanhados de discursos acerca da vulnerabilidade das crianças e o perigo de futuros deletérios, de bebida e pecado, para as pobres crianças que éramos, para além de nos afastar da religião e do santo respeito pelas coisas sagradas como, por exemplo, quando íamos pela rua com ele, passava um grupo de freiras, nas suas vestimentas de andorinhas fúnebres, com  o crucifixo ao pescoço, o meu avô, sonoro



As Irmãs da Caridade

têm um buraco no cu

que lhes fez o padre cura

com a chave do baú



e a família, em escândalo, a pedir perdão ao Santíssimo, enquanto o meu avô, enorme, plantado no passeio, fumava ao mesmo tempo a boquilha e um sorriso, mal sonhando o futuro que o esperava, a arder, sem remissão, no inferno. No meu entender não lhe passavam pela cabeça as consequências, por vezes graves, da Arte. A título de exemplo, e gosto da expressão a título de exemplo que me aproxima da elegância formal dos nossos dirigentes, uma das filhas teve, finalmente, o primeiro, ia a escrever rebento, foi por pouco, o primeiro crianço e levou-o ao pai que, na sua ideia, ia vibrar de contentamento com mais aquela vergôntea da sua árvore. O meu avô estudou-o com atenção

- E como se chama ele?

a minha tia respondeu, com natural e legítimo orgulho

- Francisco António

O meu avô quedou-se paralisado na cadeira, a remoer memórias do seu Pará distante, com a família à espera da reação

(as reações do meu avô, em geral, eram inesperadas)

que tardou mas veio. O meu avô pôs-se de pé num pulo, com a cara cheia de infância, e fez tremer as paredes vociferando a seguinte cantilena



Francisco António da Costa Braga

nosso amigo e protector

para proteger os seus artistas

mandou fazer uma chapelaria a vapor



e, após uma pequena pausa, mais forte ainda

- Póróróró vapor.



Durante toda essa tarde, de cinco em cinco minutos, o meu avô berrava

- Póróróró vapor



até que lhe tiraram o Francisco António da frente. Mesmo assim um eco estupefacto

- Francisco António não lembra ao diabo

e, num fio

- Póróróró vapor

Durante anos, até à sua morte, quando eu tinha dezoito, volta e meia piscava-lhe o olho, inclinava-me para ele, segredava

- Póróróró vapor

e, por um bocado, palavra de honra que nos sentíamos felizes. Experimentem.