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Crónica das mãos

António Lobo Antunes

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Os gestos, isto é os actos dos mais elementares aos que exigem precisão, faço com a esquerda. A direita é a dos livros. Só para os livros.

Estou aqui sentado à mesa, com papel e esferográfica, à espera que a crónica chegue e não há maneira de chegar

(a maior parte das vezes é assim, demora imenso tempo a decidir-se)

e, de repente, reparo nas minhas mãos. Não são grande coisa, coitadas. Quase tão feias como as de Chopin, que eu imaginava etéreas, de dedos como chamas de círios de igreja quando o guarda-vento se abre e elas se inclinam, a fugirem da corrente de ar, e fiquei de boca aberta ao ver-lhes o molde em gesso. Mesmo assim comovi-me, quer dizer tocaram-me imensos sininhos corpo fora e fiquei para ali a olhá-las, a olhá-las, sentido Chopin todo cá dentro. O compositor favorito de Gide. Tanto sofrimento naquele polaco. E tão humanas aquelas mãos, tão vivas. Bom, reparei nas minhas mãos, reparo agora à medida que escrevo, uma com a caneta, a outra com o cigarro, e espanta-me que se mexam sem ajuda, indiferentes a mim. Eu sou canhoto, faço com a esquerda as coisas mais difíceis mas, a partir de certa altura, passei a usar a direita para desenhar palavras. A caligrafia delas é completamente diferente uma da outra e, o mais curioso, a maneira de ser também. Durante anos e anos, até aos vinte e tal, escrevia sempre com a esquerda e o que saía não me agradava: vários livros inteiros para o lixo. Farto daquilo zanguei-me com ela, passei a caneta para o lado oposto e apareceu-me a Memória de Elefante. Era o que eu procurava, ou seja o embrião do que eu procurava. Estava já tudo ali e, de uma forma totalmente desapaixonada, dei conta que, se desenvolvesse o material, teria o que pretendia ter, através de pacientes conquistas sucessivas. Tirando isso a mão direita para pouco mais serve. Os gestos, isto é os actos dos mais elementares aos que exigem precisão, faço com a esquerda. A direita é a dos livros. Só para os livros. Por exemplo no hospital, as receitas, as histórias clínicas, as ajudas nas cirurgias, as palpações, sei lá, tudo pertencia à esquerda. A outra apenas a encaixava no braço para riscar papel. E assim tem sido até hoje, assim continuará a ser. Mas agora estou a observá-las e a dar-me conta que nos conhecemos mal. Volto-as de uma banda, da outra, encolho e estico os dedos, palpo-as, noto as articulações, os ossos, as veias. Coisa esquisita, as mãos. As minhas pelo menos. A direita está cheia dos calos da caneta: no médio, na ponta do indicador, na ponta do polegar, numa prega da palma em consequência de um quisto sinovial que lhe torceu as linhas por causa da posição do anelar e do mínimo quando trabalho. A colega não tem nada disso: esforçando-se para ser estúpida debitaria as palermices sobre Literatura que se publicam nos jornais e nas revistas do nosso País. Curioso como a ignorância e a pretensão andam a par. Mudei, durante a última frase, a caneta para a esquerda, por uma questão de higiene, já estou na direita outra vez. Olha, tem sardas e os dedos um bocadinho tortos do ofício de escrever. As mãos de Chopin. Quietas, de gesso, e no entanto

e no entanto nada, aí estou eu comovido. Porque carga de água os artistas me comovem tanto? Porque carga de água me indigna a sua morte? Sinto-os por aí, à minha volta: músicos, pintores, escritores, cantores, bailarinos. A mão de Liszt, a mão de Delacroix, a mão de Gontcharov, etc. Se me poisassem no ombro, que alegria. Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta. O meu irmão Nuno contou ontem que um doente dele, um menino com autismo, foi passar uns dias às termas com os pais. As termas estão cheias de velhos em cadeiras. Vai daí o menino chegava ao pé deles e perguntava

- Vais morrer hoje?

esta pergunta extraordinária trouxe-me à cabeça que, em criança, me interrogava numa espiral de aflição

- Terei morrido?

e espiava as mãos para ter a certeza. Mexer mexiam-se, mas o que é que isso provava? Nunca tinha visto um morto a não ser nos retratos, a começar pelo irmão do meu pai, que morreu bebé, e não imaginava o que fosse. Se calhar os mortos mexem as mãos, pensava eu, se calhar os mortos mexem as mãos, se calhar são eles quem anda no corredor à noite, antes de se acenderem as luzes. Com a luz acesa escondem-se, claro, por qualquer motivo que eu não entendia detestam o escuro e admirava a coragem dos meus pais por serem capazes de andar no meio deles sem medo que os comessem porque, como toda a gente sabe, os mortos pelam-se por comer os vivos. As minhas mãos mexiam-se, sou capaz de ainda estar vivo. Às vezes via gatos mortos na berma das estradas mas isso eram gatos, não eram pessoas. Uma ocasião atrevi-me

- Estou vivo?

responderam-me

- Que pergunta mais parva

e como

- Que pergunta mais parva

não é sim nem não fiquei indeciso. Fui estudar-me no espelho e estava lá, passei as mãos na cara e, com a cara no espelho cheia de dedos, comecei a acreditar que talvez. Para tirar a prova dei, com toda a força, uma palmada no meu próprio rabo e doeu-me. Como continua a doer se me baterem estou vivo. E os dedos obedeciam todos, as mãos igualmente. Resolvi fazer um soneto para comemorar. Tinha aprendido nos Almanaques Bertrand dos meus avós, cheios de sonetos de senhoras veementes. Os sonetos eram perfeitos e, para mim, estupendos, aos meus faltava-lhes um bocado no caminho da perfeição, os versos saíam com tamanhos diferentes mas tudo aquilo rimava que era uma beleza. Com a mão esquerda, é lógico, a direita a pensar noutra coisa. Ainda hoje acho que os fazedores de antologias deviam pescar para a imortalidade aquelas maravilhas. As das senhoras, claro, não as minhas, tinha consciência que para o génio me faltava ser crescido, ter mais experiência de vida, doze anos por exemplo. Provavelmente a mão direita não estava de acordo comigo mas o que interessa o julgamento da mão? Olhem para ela: não é grande coisa, coitada. Acabou esta crónica mesmo agora. E, se bem a conheço, vai passar uma meia hora ou isso a olhar para o tecto, uma das suas actividades favoritas. É o que te apetece, não é? Olha para o tecto então que eu fico a sonhar com as poetisas do Almanaque Bertrand, cheias de andorinhas e estrelas. Qual Chopin! O que me calhava agora era um soneto desses almanaques a desfazerem-se, assinado Viúva Solitária.