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As alegrias do matrimónio

António Lobo Antunes

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Daqui a pouco pões-te a coçar os sovacos e a pendurares-te do lustre, em vez de quarto arranjo-te uma jaula

Eu? Este cheiro? Qual cheiro? Não sinto cheiro nenhum, escusas de me encostar o nariz à camisola que não dou por nada, cheira a lã, talvez cheire um bocadinho ao porco assado do almoço, talvez, sei lá, olha, lembrei-me agora, é possível que seja da mulher da mesa à esquerda da minha, um casal que levou o tempo inteiro a discutir e ela um pivete a perfume desses que se metem por todo o lado e apanham a gente, colam-se, que culpa tenho eu, a puxares ainda me estragas a gola, não me venhas com o argumento que, se fosse assim, era o casaco que cheirava porque, antes de me sentar, o pus nas costas da cadeira para comer mais à vontade, já me basta estar enfarpelado no escritório, a atender os clientes, se dependesse da minha vontade comia nu, palavra, como os homens das cavernas, nu e com as mãos e não era porco assado, era bisonte, ou unicórnio, ou dinossauro, há um sujeito das cavernas no meu temperamento, com ganas de mastigar, aos urros, bichos pré-históricos a escorrer gordura do queixo e de moca no sovaco para bater em quem quisesse roubar-me a minha coxa de mamute, até se fosses tu, mal estendesses a mãozinha para o mamute arranjavas uma fractura exposta do braço, não divido elefantes antigos com ninguém e não respondas que estou a desviar a conversa e não tenho graça nenhuma, não é graça, é a sério, em dez anos de casamento é impossível não te aperceberes da costela selvagem que sempre possuí, só não desenho nas paredes desta caverna porque o teu filho risca tudo, repara ali, junto à cómoda, naquele sol desenhado a lápis de cor, com olhos e boca, deixa o meu pescoço em paz, não o farejes, nem tu és caniche nem eu sou pneu, palavra de honra que só falta fazeres-me chichi nas calças para ficar o quadro completo, que ciumeira mais estúpida, se me atiras com a água do copo estamos mal, era o que só o que faltava, uma batalha agora, agarro no meu machado de sílex e abro-te a cabeça ao meio, agarro na minha lança de osso, afiada no granito do corredor, e depois quero ver como é, fico a conhecer-te por dentro e não acredito que tripas, tu, estou farto de pensar, aliás, no que terás sob a pele, acho que escamas como as desses pássaros que existiam antes de Deus nascer, de olhos fosforescentes e unhas mais compridas que as da tua irmã, lá estás tu com o cheiro, que cisma, depois de eu explicar as coisas bem explicadinhas, que culpa tenho dos perfumes que me atormentam nos restaurantes e, não me venhas com a léria que uma nódoa de baton na camisa, vou ter de mandar-te ao oculista, qual nódoa, isto no colarinho é do molho do porco, qualquer idiota percebe, repara bem na cor, engasguei-me, tossi e caíu-me um pingo da boca, é natural, não uso um fecho éclair nas gengivas para impedir essas coisas, a minha boca não é uma braguilha de jeans, são lábios, e os lábios, que eu saiba, não possuem dentinhos de metal que se enfiam uns nos outros, a gente tosse e há sempre perdigotos, é inevitável, o que é extraordinário é chamar baton a um perdigoto, que eu saiba não servem maquilhagem como aperitivo nem o empregado pergunta

- E para entrada deseja um creme hidratante ou um baton?

pelo menos comigo, até agora, não me perguntaram, se calhar tu, que és diferente, és capaz de te desodorizares com os espargos e chupar o coiso de tirar o suor dos sovacos, sei lá, quem me garante não seres rapariga para isso com a conversa que estás a obrigar-me a ouvir desde que cheguei, insinuares que uma amante ou assim, achas que me sobra tempo e paciência para duas, para doidas varridas chegas-me tu, a encostares-me a camisola ao nariz, julgas que é algum lenço, isso, é lá, não me assoo aos cotovelos como os macacos, tu, por exemplo, daqui a pouco pões-te a coçar os sovacos e a pendurares-te do lustre, em vez de quarto arranjo-te uma jaula, não te apetece uma banana agora, não te apetecem amendoins, quando domingo fores à missa só tens que grunhir

- Doins

depois do

- Amen

do padre, em acabando de jantar ponho-te no carro e vou oferecer-te ao Jardim Zoológico, deixa-me em paz com o cheiro, deixa-me em paz com o baton, senta-te direitinha na cadeira, direitinha e calada, e arranja-me o peixe como deve ser que, da última vez, me ias matando com uma espinha maior que um alfange, enquanto não me apanhares morto não descansas, confessa, fazia-te jeito a pensãozinha, fazia-te jeito seres viúva e andares de autocarro com as outras viúvas a caminho de Fátima, a cantarem, felizes, com pandeiretas, não há ninguém mais alegre do que uma viúva, esse peixe, se fazes favor, cortado em bocados mais pequenos que a minha garganta não é nenhuma cisterna, o padre

- Amen

e tu

- Doins

não foi má, confessa, faz lá um sorrisinho, anda, para variar faz lá um sorrisinho, minha trombuda, porque estás a pegar assim na faca, porque estás a apontar-ma ao peito, porque estás a tomar balanço, toma cuidado que magoa, pára com isso, Irene, que te arrependes, levas vinte anos de prisão no mínimo, queres acabar na cadeia, não queres, queres perder a excursão a Fátima, queres perder as pandeiretas, sempre estou para saber quem é que, amanhã, vai conseguir limpar o meu sangue da alcatifa.