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Aguentar à bronca

António Lobo Antunes

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Com a partida das raparigas fico quase sozinho na esplanada, a mastigar ainda, a empurrar com a cerveja

Há alturas em que um homem tem que se aguentar à bronca e não dar de frosque. Ficar ali. Plantado. Claro que, nas tempestades, somos fortes que nem caniços mas, depois de se dobrarem, os caniços endireitam-se outra vez. Não procuram abébias: estão. Eu a almoçar na esplanadazita do restaurante e a pensar nisso. Não tinha apetite, esforçava-me para comer, ia empurrando o arroz com a cerveja. Passou por mim o maluquinho do bairro, passaram duas raparigas cujo projecto era serem bonitas e eram quase, o que estragava tudo era o projecto de serem bonitas e bem arranjadas, relógios que elas julgavam parecer caros e não eram, pulseiras de todo o género, também com desejo de parecerem caras, vestidos curtos e justos cuja maior qualidade não estava no tecido, estava nas pernas delas, sapatos de salto agulha em que, para andar neles, se tornava necessário possuir uma vocação de pássaro que elas não tinham. Mas o seu projecto de serem bonitas comoveu-me. Ficaram por ali um bocado no passeio, a conversarem, aborrecidas por os homens repararem menos nelas do que desejavam, até que lá se foram embora com o seu sonho: um marido doutor, um jipe, uma casa de férias, em lugar de dias atrás de um balcão a atender clientes nos correios. Dissolveram-se na esquina, comigo a desejar que um doutor ou um jipe reparassem mas os doutores não abundam por aqui

(não conheço nenhum)

e os olhos dos jipes interessam-se mais pelos travestis do que pelas mulheres. À noite dúzias de homens mamalhudos patrulham as ruas, enormes, de cabeleiras gigantescas, desejosos de esfregarem a pele na pele dos jipes para uma troca de partes respectivas que não entendo bem como se passa ao certo. Com a partida das raparigas fico quase sozinho na esplanada, a mastigar ainda, a empurrar com a cerveja. E quando digo quase sozinho refiro-me a que, para além de mim, um reformado, sempre o mesmo, a fumar cigarros friorentos. Saíu-me assim, e é verdade: nunca imaginei ser possível existirem cigarros friorentos, nunca os tinha visto, claro, mas aí estão eles, a tremerem. Ou são os dedos que tremem? Cruel dúvida. Diz-me sempre

- Boa tarde

e ali fica diante de um brandizinho intacto. Usa duas alianças, é capaz de ser viúvo, não pelas alianças, pela orfandade do olhar. Às vezes apetece-me pegar nos reformados ao colo, conversar com eles, embalá-los. Diz-me

- Isto está mal, amigo

e fica a meditar no discurso que acabou de fazer. Para o avaliar melhor repete

- Isto está mal, amigo

e parece-lhe certo, de modo que o passa a limpo depois de tossir no lenço

- Isto está mal

em sílabas fortes, sublinhadas pelo lápis vermelho de uma fungadela. Aceno que sim, de boca cheia, o reformado volta à carga

- Mal e bem mal

de cabelo penteado com cuidado mas de barba por fazer. O dono do café traz-lhe uma sandes, o reformado esclarece

- O meu almoço

e vai roendo o pão em vagares de passarinho. Como será o sítio onde vive? Deve escutar os meus pensamentos

- Vivo num quarto

deve escutá-los melhor do que eu

- Estou a dever três meses de renda, amigo

deve escutá-los muito melhor do que eu

- Não tarda nada estou para aí a dormir debaixo de uma ponte

alonga-se num silêncio cheio de recordações misturadas

- Trabalhei durante quarenta e oito anos

e agora pão e brandi uma vez ao dia

- Uma vez ao dia, amigo

e, o resto do tempo, bebe o arzinho do bairro que também alimenta. Quer dizer, suponho que alimenta porque o que não falta aqui é gente igual a ele, um que tocou flauta na filarmónica da polícia, outro que chegou a ter uma loja ferragens

- Não uma loja qualquer, uma loja de ferragens, senhor, sucederam-me uns azares, veio esta crise e pronto.

Esse não é a sandezinha nem o brandi, são duas maçãs na mercearia, das quais, ao acabá-las, nem uma pevide sobeja. Esfrega a barriga para mim

- Já estou mais confortado

e afasta-se com um cãozeco cabisbaixo atrás, tão lento quanto ele, sempre a cheirar-lhe os calcanhares:

- O meu Nero

explica-me

- O meu Nero

explica melhor

- Vi um filme com um imperador assim

e o Nero mais cabisbaixo, mais lento, carregando o peso daquele nome ilustre de imperador de filme, o Nero que parece tudo menos um imperador seja do que seja, humilde, apagado.

- Pois é verdade, Nero

remata o das maçãs, confortado, a arrastar os chinelos dos sapatos. Da loja de ferragens pelo menos com as dobradiças dos joelhos ficou, não perdeu tudo, aquele. Em vez de cinto uma corda de roupa, ele que teve empregados

- Cheguei a ter seis empregados

e agora tem o Nero, os chinelos, as dobradiças e o apoio das maçãs. Não é ainda a hora dos travestis e dos jipes, é a hora de eu resolver que há alturas em que um homem tem que se aguentar à bronca e não dar de frosque. Ficar ali. Plantado. Como eles, como eu. Por desgraça as pernas das raparigas não voltaram a passar: talvez uma delas gostasse de um homem que teve seis empregados e uma loja de ferragens, que doutores não há. Mas não custa imaginar que há-de aparecer um qualquer, qualquer dia, qualquer ano, nem que seja na idade de se confortarem com brandis e maçãs.