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À noite os sons

António Lobo Antunes

Em matéria de má-criação possuo um currículo e peras, davam-me notas de mau comportamento no liceu. Vinham a encarnado e tudo, no fim do papel

À noite os sons, ainda que longe, parecem tão perto de nós: um cão, no horizonte, mesmo aqui ao lado, a queda do galho de uma árvore, a respiração da terra. A água no fundo do poço que não se aquieta, não se aquieta. O choro de uma criança, na rua de baixo, junto ao meu ouvido. As crianças magríssimas do interior de Angola, de barrigas enormes, não choravam. Também não me lembro de ver um adulto chorar. Ou queixar-se. Uma ocasião, numa cubata, uma mulher encheu-me o corpo de pó de talco e depois não fiz nada, vim-me embora. Havia trapos, galinhas, um bebé a dormir e vim-me embora de pura vergonha. Recordo-me de tropeçar numa garrafa de cerveja caída e de crocodilos num rio. Mas ao falar dos sons não me referia a África, referia-me aqui, em Lisboa. Pingos de torneiras longínquas a tombarem-me no interior da cabeça. Estalos de mobília. O zunzum de conversa dos retratos, que não se calam nunca. Pergunta

- Estás aí?

uns aos outros. Às vezes respondo por eles

- Está aqui

e o silêncio espantado imaginando quem será aquele que falou. A gente olha as molduras e os retratos procuram na memória

- Qual é este?

não acham, pensam

- Devo ter envelhecido

e esquecem-nos. É terrível ser esquecido por um retrato: só quem passou por isso é que sabe. A gente

- Avô a gente   

- Tio

e nada. Acreditem: é terrível ser esquecido por um retrato. Só muito tarde percebi que o passado e o futuro existem no presente, o que fomos e o que seremos estão connosco agora. Aquele miúdo sou eu, aquele velho sou eu

- Mais uma colher, tio António

comigo de manta nos joelhos a abrir a pobre boca obediente, não boca-boca, os papelinhos dos lábios e, entre os lábios, uma linguíta pálida, ao mesmo tempo que, de calções

- Deixa o animal em paz

tento cortar o rabo a uma lagartixa quase a sumir-se num intervalo de tijolos, ou estou na cama, com tuberculose, no dia em que o meu pai faz trinta e três anos. É engraçado, não sinto sofrimento, sinto ganas de ser malcriado com as pessoas. Em matéria de má-criação possuo um currículo e peras, davam-me notas de mau comportamento no liceu. Vinham a encarnado e tudo, no fim do papel. A minha mãe ia conversar com os professores, pedir que me pusessem na primeira fila para andarem de olho em mim. E notas negativas a dar com um pau, faltas. A professora do primeiro e segundo achava que eu era um génio a escrever, fadado para altos voos, mas o professor do terceiro, quarto e quinto afirmou que as minhas redacções não valiam um chavo:

- Isto é sujeito, predicado, complemento directo e ponto, não quero cá fantasias, levas um medíocre e vais com sorte

de maneira que durante três anos não passei do medíocre e fui com sorte. Entregava-me o ponto todo riscado

- Anda-me com metáforas, este

mandava-me dividir Os Lusíadas em orações

- Não me interessa a versalhada, interessam-me as oraçõezinhas

e a mim interessava-me a versalhada, azar o meu. Pior que azar: estupidez minha:

- És burro ou quê?

e era burro de certeza porque as frases querem-se como deve ser. Por exemplo: eu sou português, frase como deve ser. Por exemplo: caminho da virtude alto e fragoso, adjectivos a mais, patetices. Mas não era nisto que eu estava, era nos sons à noite: um cão, junto ao horizonte, mesmo aqui ao lado, a queda do galho de uma árvore, a respiração da terra. A água no fundo do poço que não se aquieta, não se aquieta. A tua voz a dizer o meu nome. Já agora há quanto tempo não dizes o meu nome? Apagaste-me de vez? Nunca pensei que me apagasses de vez, tive esperança de ser, ao menos, uma luzinha vacilante mas teimosa em qualquer ponto da tua memória, que se pode ignorar mas não se esquece, uma silhueta, mesmo difusa, um fragmento de cara, a gente pensa

- Qual é este?

e depois um

- Ah

desiludido, só cá faltavas tu. Fui um chato, não fui, quezilento, desconfiado ou então ausente, noutro mundo? Se eu dividisse Os Lusíadas em orações, com rapidez e eficiência, correria melhor? Fiz-te a vida negra, ignorei-te, apareci-te maquilhado e com cinto de ligas? O que falhou, explica-me? Escrevo isto e o choro de uma criança, na rua de baixo, junto ao meu ouvido. Se por acaso o escutares não ligues: apenas um choro, mais um, o que não falta para aí são choros. Choros e pingos de torneira longínquos a tombarem-nos dentro da cabeça. Pelo menos na minha.

Queres tu ver que são lágrimas?

Daqui a nada vou-me deitar. Sozinho mas rodeado de ecos. Ecos de mim, de ti, das ondas de uma praia onde nunca estivemos e não sei onde fica, de um farol de nevoeiro a lastimar-se. A professora do primeiro e segundo anos acreditava no meu talento, tinha um sorriso bondoso. No último trimestre do liceu encontrei-a por acaso à saída:

- Ainda escreves, Antunes?

perguntou-me ela. E, em lugar de responder, fugi. Claro que escrevia mas às escondidas, com vergonha, cheio de incertezas. E, no entanto. E, no entanto, uma ova. Não quero falar disso. Foi mais ou menos por essa altura

(tinha dezasseis anos)

que te vi pela última vez. Nunca chegámos a conversar. Nem sequer tenho a certeza de como te chamavas. Nunca arranjei coragem para te esperar à saída do colégio de freiras. Se te encontrasse agora não te conhecia, mas não há perigo, não nos encontraremos: somos outros e de certeza que nem deste conta de um palerma de franja a espiar-te na outra ponta da sala num baptizado qualquer.