Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A gente os dois

António Lobo Antunes

  • 333

Casamento para mim é casamento, fidelidade, amor, almoçamos fora ao domingo, termos as nossas coisas, com respeito, a meio da semana, sem palavrões nem palmadas, um suspiro aqui e ali, decente, e fica o trabalho feito até à quarta-feira que vem, cada um dorme para seu lado e pronto

Claro que não tenho outra mulher, já bastas tu para me fazeres a vida negra, agora, imagina só, duas ao mesmo tempo a atazanarem-me com patetices, suspeitas idiotas que me viram aqui e ali, que a semana passada uma loira me saiu do carro com um beijo na boca e, já no passeio, um adeusinho de mil falanges. Isto perto de casa, em baixo, na avenida, com montes de conhecidos a passarem. Uma loira bem posta, de brincos compridos, a tilintar pulseiras que, na tua cabeça, porque só pode ser na tua cabeça, trabalha de programadora lá na empresa, a fazer-me olhinhos atrás do computador. Verdes, ainda por cima, uma loira de olhos verdes e saia justa, repara na minha sorte. Francamente sempre pensei que tivesses mais sentido das realidades, onde é que uma loira de olhos verdes e saia justa ia atentar em mim, com um metro e cinquenta e oito, casado, gordo, um ordenado que envergonha um mendigo, este defeito na orelha? Ainda se eu fosse alto, apresentável, com voz de barítono, solteiro, ainda se o meu pai fosse o dono da firma e não é, reformou-se há três meses dos correios, tudo o que fez na vida, durante uma eternidade, quarenta e tal anos acho eu, foi meter cartas em frinchas, de porta em porta, aqui no bairro, cartas, postais, encomendas registadas às vezes, uma ocasião um papagaio numa gaiola, já ninguém consegue ouvi-lo falar do papagaio na gaiola, não estou a desviar a conversa, estou a lembrar-me do papagaio, que também é gente. Pode ser que sim, se calhar inventou o papagaio isso não significa que todos os homens sejam mentirosos, eu posso garantir que não sou. E, para tua informação, devo ser o único, do jantar de Natal da empresa, que não tira a aliança do dedo, porque há sempre mesas com senhoras que as alianças indispõem. Como é que eu sei isso? Sei isso como toda a gente sabe, não sou surdo, as criaturas à nossa volta falam. Ainda por cima esta, que só me livro dela cortando o osso, não, não experimentei, estás parva, não sou pessoa de me serrar com a faca do pão ou aleijar-me com a tesoura do peixe. Uma loira, imagine-se, no meio de senhoras grisalhas, para o forte, arranjadas à matroca ainda por cima, com os retratos dos defuntos no fio do pescoço, claro que já notei, é impossível não notar, o que mais existe no meu trabalho são finados, que, às vezes, se lhes enfiam pelo decote dentro e as viúvas, a puxarem-nos logo, queixando-se

- Sempre pronto para a brincadeira, o malandreco

que, pelos vistos, eram atrevidotes quando cá andavam. E não me venhas com discursos acerca deles que qualquer dia ainda tenho que aturar algum mais assanhado

- Deixe a minha esposa em paz, você

convencido que morou com uma rainha de beleza. Esta é a minha vida e tu a estragá-la com os ciúmes, nem às velhas dás descanso, quanto mais. Tu, ainda por cima, jeitosa, magra, toda triques, com esse dentinho encavalitado que me exalta, sempre achei graça ao dentinho e não sou só eu porque os meus colegas não te tiram os olhos de cima, quando lá vais por um recado ou assim. O César, por exemplo, o Maltês para ir não mais longe, sempre a gabar a minha sorte. Até o chefe, menos severo quando entras

- Bons olhos a vejam, bons olhos a vejam

a exigir dois beijinhos em lugar de um passou bem

- Já tenho idade para dois beijinhos, não acha?

e a demorar-te a palma no ombro, o camelo, de polegar para a esquerda e para a direita. Portanto, se fôssemos falar dessas coisas, também tenho assuntos para te responder, o que se passa é que confio em ti, acredito nas pessoas, não me passam poucas vergonhas pela ideia. Casamento para mim é casamento, fidelidade, amor, almoçamos fora ao domingo, termos as nossas coisas, com respeito, a meio da semana, sem palavrões nem palmadas, um suspiro aqui e ali, decente, e fica o trabalho feito até à quarta-feira que vem, cada um dorme para seu lado e pronto. E é por isso que há coisas que me admiram, francamente não entendo, não encontro explicação. Para não ir mais longe quando, pelos Santos, tive que ir ao escritório um sábado à tarde, buscar uma minuta, pareceu-me que barulho de pessoas por lá, uma espécie de correriazinhas, risinhos e tu, que eu julgava no supermercado, a fugires do chefe, suficientemente devagar para consentires que ele te apanhasse

- Mazona, mazona

a voltares-te para o beijares e a dares comigo, de pasta na mão, a mirar-vos, ao chefe e à mazona, com os teus dedos numa zona dele em que nunca me tocaste. Já perto da porta ouvi-o

- Não é o que você pensa

e ao chegares a casa, indecisa e pálida, não te disse nada: para quê? Apesar de tudo é humano ter ciúmes não é? E, tirando isso, não encontro nenhuma razão de queixa de ti e estou seguro que nunca encontrarei. Só te peço que não voltes a referir a loira: quero que continuemos a dar-nos bem um com outro. E prometo que, na próxima quarta-feira, me podes tocar onde quiseres. Há hipóteses que não seja mau de todo.