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O meu pai Nós – 3 (crónicas pequeninas)

À hora do jantar interrompeu a música, sentou-se na cabeceira da mesa, no lugar dele, esperou que chegássemos com a mãe e ocupássemos os nossos lugares, tirou os óculos escuros que enfiou no bolso, parecia sereno e distante, quase indiferente, praticamente não tocou na sopa nem no que havia para comer a seguir, e ali ficámos todos calados durante o tempo da refeição

Ilustração: Susa Monteiro

A única vez que vi o meu pai de óculos escuros foi quando o meu avô morreu. Morreu no dia 9 de Novembro, o pai colocou os óculos escuros, não os tirou mais nesse dia, nem em casa, nem no velório, nem quando voltou para dormir um bocadinho, nem durante a missa na manhã seguinte, nem durante o enterro, nem em casa depois, nem quando as pessoas vieram cumprimentá-lo, nem quando regressámos no fim daquilo tudo, ele, a mãe, nós. A mãe e nós ficámos na sala, ele fechou--se no escritório, ligou música de Bach para orgão no máximo da intensidade, fechado sozinho lá dentro e as paredes todas da casa não paravam de vibrar. À hora do jantar interrompeu a música, sentou-se na cabeceira da mesa, no lugar dele, esperou que chegássemos com a mãe e ocupássemos os nossos lugares, tirou os óculos escuros que enfiou no bolso, parecia sereno e distante, quase indiferente, praticamente não tocou na sopa nem no que havia para comer a seguir, e ali ficámos todos calados durante o tempo da refeição. Não me lembro de ter olhado para nenhum de nós como não me lembro de nenhum de nós o ter olhado. No fim acendeu um cigarro, depois do cigarro levantou-se em silêncio, alcançou de novo as escadas, tornou a fechar-se no escritório enquanto a mãe o olhava à socapa na cabeceira oposta da mesa, a música de Bach regressou e na manhã seguinte encontrei-o como de costume em tronco nu, a barbear-se ao espelho. Nós gostávamos de o ver fazer a barba porque os músculos das costas se mexiam e o seu corpo era muito bonito. Pelo menos nós achávamo-lo muito bonito e todos os seus gestos eram elegantes. Tinha um corpo magro e atlético porque fizera muito desporto, fez parte da seleção nacional de hóquei em patins nos campeonatos do mundo, costumávamos brincar com uma caixa de medalhas a que ele não ligava um pito, mesmo aos sessenta anos continuava a ganhar-nos corridas de bicicleta e a patinar admiravelmente, graças às suas lições com cinco ou seis anos eu já patinava muito bem, aos catorze ou quinze anos andei pelo Futebol Benfica e pelo Benfica depois, trouxe-me um stique óptimo de Inglaterra mas acabou-me com as proezas desportivas porque eu não estudava, deram-me ganas de o estrangular mas não me atrevi, ele foi para o hospital

(sempre gostei de o ver de bata)

e nós para o liceu ou para a escola porque os nossos pais tinham filhos com todas as idades, e tudo se passou como se nada se tivesse passado; uma das principais qualidades dele era um imenso pudor e uma imensa discrição em tudo, não fazia perguntas pessoais, não falava de coisas íntimas, quando estávamos doentes sentava-se numa das nossas camas e lia-nos em voz alta os poetas e os prosadores de que gostava, com a voz lindíssima que tinha, chamava-nos a atenção para a construção das frases, nunca havia frio ao pé da sua voz, às vezes encontrava-o na figueira do jardim a vasculhar as pobres produções que eu lá queimava, copiava algumas delas num caderno de capa verde e grossa que tinha no escritório, nunca me fez nenhum comentário mas recordo-me de o ouvir dizer à mãe, sem dar conta que eu andava por ali

– Não o podes tratar como os outros porque esse é diferente

e o respeito dele pelos artistas era infinito embora, claro, eu não fosse artista nenhum, mas sei que secretamente esperava sei lá o quê de mim

(ele esperava sei lá o quê, eu esperava imenso)

reparei que havia agora uma fotografia do avô na sua mesa de trabalho, junto ao microscópio e aos papéis, descobri numa gaveta da sua secretária as cartas que o meu avô lhe escrevera da guerra em França a tratá-lo por Janjão, só falei nisso à mesa uma vez, quando aproveitei um silêncio para dizer Janjão, os minúsculos olhos azuis do meu pai pareceram-me de repente turvos mas não disse nada e compreendi de repente, assustadíssimo, que ele continuava a ser o menino do pai dele, sem nunca o referir e, pela primeira e última vez, senti-o tão perto e tão pequeno. Não falou mas deu-me ideia que, juntamente com a garfada seguinte, engoliu uma espécie de lágrima em que ninguém reparou. Infelizmente nunca mais tornei a ver os óculos escuros porque me deu ideia que ele se achava necessitado deles. Quando houve o almoço dos cinquenta anos de casados dos meus pais disse-lhe

– Gosto muito de si paizinho

e ele respondeu

– Eu também gosto muito de ti filhinho

e foi a conversa mais comprida que tivemos. Que pena não haver por aí uma peça de Bach agora.