Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O meu avô e eu Nós – 1 (crónicas pequeninas)

A nossa viagem de volta a casa passou-se num silêncio absoluto. As últimas palavras de André Brun foram – Não deixes que me façam uma estátua equestre, quero uma estátua divanestre e piscaram o olho um ao outro ao imaginarem André Brun estendido num divã de bronze, todo repimpadinho

Ilustração: Susa Monteiro

Eu moro no último andar de um prédio muito alto, de traseiras encostadinhas à Penitenciária de Lisboa, de maneira que vejo a cadeia quase toda e oiço os gritos dos presos durante o futebol dos recreios. Foi ali que o meu avô, António Lobo Antunes, esteve preso a seguir à tentativa de revolução monárquica de Monsanto, em 1918, de onde partiu desterrado para Tanger e de onde voltou, anos depois, na sequência de uma amnistia qualquer, que perdoou os oficiais envolvidos no golpe. Durante esse tempo trabalhou numa fábrica de conservas e a vida dele, nascido muito rico, não deve ter sido fácil embora nunca lhe tenha escutado uma queixa. Era um homem bonito, alegre e corajoso, que encheu a minha vida de um amor sem fim, eu o filho mais velho do seu filho mais velho, que em nada me parecia com ele, ainda por cima loiro e de olhos azuis, sem valentia alguma, que tentei não o envergonhar durante a guerra em África, já ele tinha morrido, a fim de não sujar o seu nome e fazê-lo sentir-se orgulhoso de mim. Foi o homem de quem mais gostei neste mundo, de quem continuo a gostar mais neste mundo, embora o inquietasse o facto de eu passar o tempo a escrever, ele achar que escrever era o primeiro e terrível passo para uma trágica existência de maricas, e a mariquice fosse um pecado imperdoável. De maneira que volta e meia dava com ele a mirar-me de banda, inquieto, se calhar receoso que eu desatasse para ali a tricotar casaquinhos de malha. Ao fim de semana levava-me a montar a cavalo, eu que detestava cavalos, achava-os perigosos nas duas pontas e desconfortáveis no meio mas, como revelava um precoce interesse por meninas, ele descansava um bocadinho. Ainda por cima o herdeiro do seu nome, do seu anel e do seu título, sempre a fazer versos de pé quebrado em todos os pedaços de papel que encontrava, sempre a ler livros brasileiros, os únicos que havia na sua casa enorme

(Aluísio Azevedo, Pompeia, Coelho Neto, Machado)

e que nunca o vi folheá-los, escandalizado comigo porque livros eram coisas de mulheres e de palermas, receoso que eu fosse como os pneus dos automóveis, cuja única coisa que tinham de bom era o ar. Mas, com o tempo, lá se foi acostumando aos meus hábitos estranhos, e como eu escorregava olhares disfarçados para as empregadas e fumava às escondidas, senti-o sossegar a pouco e pouco. Adorava que me pusesse a mão na nuca, adorava que me abraçasse, adorava que me chamasse

– Meu morgado

e me apresentasse, orgulhoso, aos amigos, também oficiais, também monárquicos, também valentes como as armas. Durante a guerra em França, era ele capitão

(eu não passei de alferes, avô, desculpe)

amigo do major André Brun, que ele apreciava imenso e cuja coragem o encantava, que me levou a visitar já o compincha estava bastante doente. Recordo-me de lhe ter perguntado

– Como vais tu, André?

e o outro lhe responder com um sorriso

– Olha, se calhar vou de casaca

e notei que os olhos do meu avô

(nunca tinha visto isso nele)

brilhavam do que pareciam lágrimas. Recordo-me que se abraçaram ao despedirem-se, espantou-me imenso que os homens a sério também chorassem e amei-o ainda mais por isso, admirado que a sensibilidade e a coragem fizessem ambas parte de um homem a sério. A nossa viagem de volta a casa passou-se num silêncio absoluto. As últimas palavras de André Brun foram

– Não deixes que me façam uma estátua equestre, quero uma estátua divanestre
e piscaram o olho um ao outro ao imaginarem André Brun estendido num divã de bronze, todo repimpadinho. Já no carro, de volta a casa, disse-me

– O André é um homem a sério

e falou-me de vários actos de bravura dele. Espero do coração que a estátua divanestre de André Brun esteja numa praça de Lisboa, com ele, de chinelos, confortável no seu sofá. De chinelos mas de bronze, é claro. Chegámos em silêncio e o avô instalou-se numa cadeira do jardim a olhar os peixinhos do lago, de mão espalmada no meu ombro:

– Não há nada mais importante do que um amigo

com as pupilas tão grandes dentro das minhas. Nunca nos tínhamos olhado assim. Só eu para si, avô, quando morreu. Morreu o tanas. E há-de ter a sua estátua divanestre mesmo que eu a pague sozinho. Você com a sua boquilha nos dentes e a gente a olhar um para o outro, cheios de amor.

(Crónica publicada na VISÃO 1343 de 29 de novembro)