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Há outro mundo mas está dentro deste: 4 crónicas romenas – Segunda

Tinham-me avisado que ele pertencia à Securitate, a tenebrosa polícia política e que tomasse muito cuidado a fim de não aparecer a boiar num canal. Nunca acreditei nisso e permaneci sempre ao seu lado

Ilustração: Susa Monteiro

E depois de Lahti Dinu voltar para a Roménia, Dimítar para a Macedónia e eu para Portugal: o Trio Komintern pareceu dissolver-se para sempre. Não foi assim Dimítar, que não está traduzido para Português, que eu saiba, continuou a escrever e a publicar romances. Contava que podia trabalhar do modo que entendesse desde que não interferisse na questão das nacionalidades e que, sob Tito, a liberdade de criar era total. Criticou directamente e de forma muito dura, diante de toda aquela gente em Lahti e diante da numerosa delegação soviética, o realismo socialista e a falta de qualidade dos seus escritores. Quando lhe disse, preocupado, que estava a correr riscos, respondeu-me que não corria risco nenhum. Espero que, para o ano, estejamos todos juntos em Timisoara. Com Dinu a amizade foi crescendo. Consegui, através do meu amigo Pedro Tamen, que a Fundação Gulbenkian lhe desse uma bolsa para fazer uma antologia da poesia portuguesa moderna, que Dinu não publicou. Viveu comigo em Portugal durante grande parte desse tempo e a nossa amizade continuou a crescer. Aprendi com ele a amar a Roménia e a dar-me conta da sua profunda latinidade, enquanto a situação política se ia deteriorando, a repressão policial, sempre violentíssima, crescia mais, o haverá vida antes da morte tornava-se uma pergunta lancinante. Pouco depois foi a Paris ao Congresso dos escritores lusófonos. Nesse mesmo ano Ceausescu cai mas Dinu só voltou à Roménia dez anos depois, desgostado com o rumo da revolução e a atmosfera de compadrio ali reinante, onde os próceres da ditadura eram substituídos pelos filhos. O seu ajuste de contas com a Roménia levaria muito tempo a resolver-se, as suas feridas interiores anos e anos a sararem, Dinu é um camponês latino: duro, exigente, com uma incapacidade absoluta em perdoar o que considera absurdo e injusto, o que só aparentemente parece em desacordo com a sua generosidade, mas quem nasceu e cresceu num regime atroz torna-se duro por necessidade de sobrevivência, tantas vezes difícil. Amigos há mais de quarenta anos nunca tivemos uma discussão, um diferendo, um amuo sequer. Uma ocasião, estava eu no Salão do Livro em Paris quando comecei a ouvir ao longe uma voz que gritava, no meio das centenas de pessoas que ali estavam

– Il m’a sauvé la vie, il m’a sauvé la vie

e continuei a assinar livros enquanto a voz se aproximava. Achei estranho que no meio daquela confusão de público, escritores e livros, alguém se ocupasse a gritar

– Il m’a sauvé la vie

quando nem uma piscina havia por ali. Depois comecei a achar a voz vagamente familiar, cada vez mais familiar enquanto o

– Il m’a sauvé la vie

não cessava de crescer. Levantei a cabeça do autógrafo que estava a escrever quando o autor dos gritos apareceu ao meu lado. Um homem grande, forte, de braços abertos e olhos cheios de lágrimas que me apertou com tanta força contra si que dá ideia que me ia esmagar ao fazer-me desaparecer no seu abraço. Era o Dinu. Em que é que eu lhe salvei a vida é um assunto só nosso, de que não falo. Tinham-me avisado que ele pertencia à Securitate, a tenebrosa polícia política e que tomasse muito cuidado a fim de não aparecer a boiar num canal. Nunca acreditei nisso e permaneci sempre ao seu lado. Aquele camponês da Transilvânia, que tanta amizade me tem dado, era lá capaz de uma traição, era lá capaz de colaborar com assassinos e filhos da puta. Os franceses do Salão do Livro que estavam na bicha dos autógrafos olhavam, de boca aberta, para aqueles estrangeiros de olhos molhados, meio selvagem claro, sem finesse nenhuma, ou seja um óptimo poeta e um prosador cansado de escrever o nome na livralhada toda que lhe estendiam. Tenho pena de não poder falar de certas coisas a respeito deste homem que tanta fraterna ternura me tem dado. Talvez o faça nas duas próximas e finais crónicas passadas na Roménia, país que aprendi a amar com ele e no qual, finalmente, a vida existe antes da morte, o País de Brancusi, o meu escultor favorito e de Mircia Dumitrescu, o meu escultor favorito vivo, de quem falarei nas duas crónicas que faltam. 
E lembra-te que não te salvei a vida no pesadelo romeno. Estive só ao teu lado, irmão, como tu estarias ao meu. 
E há vida antes da morte. Agora já sabemos. Quero voltar a ver, junto ao Mar Negro, os pássaros enormes que regressam da Ucrânia, projectando na água as sombras brancas das asas e passando sobre mim num ruído 
de revistas que se folheiam depressa.

(Crónica publicada na VISÃO 1327 de 9 de agosto)