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Subsídios acerca da minha educação para a vida

Os homens largavam as garrafas de cerveja no balcão e corriam para as Vénus das cadeiras com os crucifixos a pularem de Fé, Esperança e Caridade, misturando os eflúvios da brilhantina com o perfume espanhol, então muito em voga, Madeiras do Oriente, capaz de provocar reações optimistas em centenários diabéticos

Ilustração: Susa Monteiro

Nos meus anos de aprendizagem frequentava, aos sábados à noite, os bailes do Clube Estefânia, os bailes dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, os bailes dos Alunos de Apolo e outras agremiações beneméritas de cujos nomes não me recordo agora. Passava a semana a juntar tostões para pagar a senha de entrada, punha casaco e gravata, o que espantava a minha doce mãe

– Onde é que vais todo pinoca?

perfumava-me com o after-shave do meu pai, dava uma engraxadela nos sapatos e de risca cuidada

(há que trabalhar as extremidades)

seguia de eléctrico para uma dessas sociedades, entregava o dinheiro ao porteiro que me exigia o bilhete de identidade a fim de se certificar que eu já tinha dezoito anos, comparando a minha cara com o retrato de vítima de acidente ferroviário em que as fotomatons me transformavam, o porteiro devolvia--me a imagem do cadáver a comentar para o polícia que garantia a paz e a ordem logo a partir da rua

– Olha, afinal não morreu

subia uma escada quase vertical com a música de Tony Silva & Os Companheiros Do Luar ou de Vítor Gomes & Os Seus Gatos Negros a crescer degrau a degrau enquanto Tony Silva e Vítor Gomes segredavam ardentemente

Meu bem
Esse teu corpo parece
Do jeito que ele me aquece
Um amendoim torradinho

ou seja um slow irresistível que me falava directamente às glândulas, e desembocava numa sala com os músicos num estrado na extremidade mais distante da dita, cadeiras encostadas, lado a lado, às paredes, cada qual com a sua pequena sentada à espera e um bar cheio de homens de garrafa de cerveja na mão na extremidade oposta à fonte musical, quase todos muito mais velhos do que eu, alguns com um crucifixo vermelho, enorme, ao pescoço, provando a sua religiosidade e a pureza dos sentimentos que os animavam, de cada vez que o amendoim torradinho dava lugar, com um solo de viola eléctrica a abrir, 
a um novo slow

Tu que andas neste mundo
Em busca de outro mundo
Vem ouvir o mar

os homens largavam as garrafas de cerveja no balcão e corriam para as Vénus das cadeiras com os crucifixos a pularem de Fé, Esperança e Caridade, misturando os eflúvios da brilhantina com o perfume espanhol, então muito em voga, Madeiras do Oriente, capaz de provocar reações optimistas em centenários diabéticos, e os pares principiavam a mover-se num vagar de caranguejos coxos, que tentavam desesperadamente encostar a patilha a uma bochecha menos renitente, dando início a um caso passional que, com sorte, terminaria na Pensão Martins Águas Correntes Quentes & Frias

(as quentes nunca funcionavam)

ou na Residencial Dallas, um terceiro andar sem elevador onde um lulu microscópico nos abocanhava os tornozelos durante a assinatura da ficha exigida pela gerente, uma gorda só varizes e chinelos, de cabeleira loira com raízes grisalhas que prevenia

– Ao fim de cada meia hora dobro o preço

apontando uma porta com um número numa medalha de esmalte, decorada por uma cama desfeita onde estagnavam suores e um garrafão de permanganato a um canto. Ao contrário dos devotos dos crucifixos eu demorava a avançar, contemplando a multidão de sereias que me esperavam, eu e um velhote de bigode branco, todo lareca, a quem comentei

– A partir da meia noite todas as pequenas aqui ficam giras.

Ele, experiente, respondeu com sabedoria

– Todas não: algumas ficam lindíssimas

e era verdade, de facto. Ficavam lindíssimas. Eram lindíssimas. Aí iniciei negociações com uma cabeleireira do Salão Rosa de Oiro

(que ainda estou para saber onde fica)

de cabelo duro como ferro de tanta laca, as negociações tornaram-se tão veementes

(as decisões políticas são assim mesmo)

que fomos chamados a um gabinete que anunciava Gerência, onde um coxo solene nos censurou a veemência das nossas negociações, explicando

– Não há nada que a Pensão Dallas não cure

e tive ocasião de comprovar a profunda verdade das suas palavras ao acabar atravessado na cama, sem fôlego, sobre uma Preciosa também moribunda que repetia

– Ai boneco ai boneco

a mergulhar num coma que eu pensava irreversível mas do qual

(quem me explica isto?)

renascia com uma vitalidade feroz. Durante todo o domingo a minha mãe lá me ajudou com pratos de Farinha Predilecta

(Para a criança, para o doente e também para o atleta prove a Farinha Predilecta)

que me permitiu, graças a um subsídio não da Fundação Gulbenkian mas da Fundação 
Avó Margarida

(a mãe da minha mãe)

manter-me longe do Sanatório do Lumiar até que a Preciosa voltou para a terra

(creio que Ermesinde)

para tomar conta do padrinho viúvo que deve ter encontrado as delícias ardentes do Purgatório logo 
ao segundo embate e a esta hora a espera, de bengala 
a tremer, no Paraíso onde ela acabará por unir-
-se a ele quando os frascos de Madeiras do Oriente desaparecerem do mercado e Deus, no gabinete da Gerência, os mandar para o Inferno a fim de purgarem, com chamas, os delírios da Carne.

(Crónica publicada na VISÃO 1232 de 11 de julho)