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Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais

A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte

Ilustração: Susa Monteiro

Faz este mês quarenta e cinco anos que cheguei 
de África, onde vivi a única expêriencia radical 
da minha vida durante vinte e seis meses, quase vinte e sete. Só posso aproximar dela as dos cancros que tive, um no cólon primeiro 
os outros dois nos pulmões, cancros anatomo-
-patologicamente diferentes, um à esquerda, 
outro à direita. Durante a horrível experiência 
da doença fui um pobre roberto de feira carregado de sofrimento, depois da doença um homem espantado. Não sei, claro, quando o comprimento da minha vida vai terminar. Precisava de mais algum tempo para acabar o meu trabalho. Faltam-
-me quatro livros para que a obra fique redonda. Sempre existi em função dela. Dar-me-ia pena não a completar.

Lembro-me com uma nitidez absoluta do primeiro militar morto. Era um rapaz loiro, alegre. Mandei que 
o deitassem na minha cama enquanto dizia aos soldados que ele estava só a dormir. Se calhar tinha razão. Estava só a dormir. 
Depois fui para junto do arame 
farpado olhar a mata. Que céu tão grande, tão alto. E a paz majestosa 
de Angola à minha volta.

Estava no destacamento do Ninda, com o Ernesto Melo Antunes, quando outro soldado, que tinha ido buscar água ao rio numa Mercedes, pisou uma mina e ele ficou esmagado entre o volante e os sacos de proteção. Chamavam-lhe Macaco por ser 
peludo. Não me esqueço da cara 
do Ernesto

– Tinha jurado que os levava 
a todos

não me esqueço do estrondo, acolá em baixo, da explosão. Estou certo que a população da aldeia de apoio, perto do rio, sabia das minas como tenho a certeza que apoiava o MPLA: no lugar deles eu faria o mesmo. Nunca vira um brilho assim nos olhos do Ernesto que por um instante me pareceu um menino frágil, indefeso. Só por um instante. E era uma das pessoas mais corajosas que conheci. Morreu cedo com uma serenidade admirável. Eu ia passar os sábados com ele, sozinhos um com o outro. Se estavam mais pessoas e lembro-me, por exemplo, do Chefe do Estado Maior do Exército dessa época, um homem de que gostei logo, saíam para que pudessemos estar juntos. Não lhe ouvi uma queixa em nenhum momento. Apenas um pedido, uma ocasião

– Não me deixes morrer sem dignidade

e mudou logo de assunto, seguro que eu cumpriria. Chega uma altura em que temos mais ausências que glóbulos no sangue. Perguntava

– Estás a escrever não estás?

numa fé inabalável em mim e descansa que estou 
a escrever, amigo, não vou parar de escrever. Viemos, faz este mês quarenta e cinco anos, de Angola. Uma ocasião tínhamos apanhado umas pessoas na mata, numa lavra de apoio ao inimigo, como se dizia, e veio o helicóptero com o chefe de brigada da Pide que se apresentou 
com um pontapé na barriga de uma mulher grávida. 
O Ernesto apontou-lhe a pistola e mandou o helicóptero embora sem o deixar levar os prisioneiros. Claro que teve problemas. Não vou falar nisso. Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais. Não esqueço esta frase de Conrad. Não esqueço nada. Nem o romancista francês moribundo que rabiscou num papelinho

Não me sacudam que estou cheio de lágrimas

de modo que não quero sacudir ninguém. A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de 
Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. 
Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte. Da janela vejo as gaivotas lá fora. Uma ou outra nuvem. Chegar de avião a Lisboa, depois de tanto tempo longe, a minha família à espera e eu contente, sem entender ainda, tão transtornado. Só me apetecia tirar 
a farda e eles a baterem-me palmas, a rirem felizes. É um privilégio imenso estar vivo em Portugal. 
O meu Paízinho. É aqui o meu lugar, pertenço a este sítio, a esta língua, a esta luz única, a este mar. Eu podia lá ser estrangeiro. Eu podia lá viver com uma mulher que não fosse portuguesa. Um oficial cubano, que havia estado em Angola:

– Não conheço soldados como 
os portugueses

Nem eu mas conheço soldados portugueses. Bom, os catangueses que estavam conosco também. E os pilotos sul africanos, a falarem afrikander entre eles na messe quando não queriam que os entendessemos. Largavam-nos a quatro ou cinco metros do chão, no Ninda, dos seus helicópteros prateados, sem insígnias, salta e não chateies, vai matar pretos, anda. As bebedeiras deles no barraco 
a fingir de messe. Faz quarenta e cinco anos.

Agora estou aqui sentado a escrever isto. A escrever isto. A escrever isto. No meu paízinho. Na minha terra encantada, cheia de sol, dizia António Nobre. No único sítio em que quero viver. Sou daqui como estas pedras, estes cheiros, este povo, e até estes políticos de merda sou capaz de aturar, embora os políticos sejam de merda em toda a parte. Quando falo em políticos sabem o que quero dizer e a quem me refiro. Esta crónica saiu um bocado descosida, peço desculpa: é que faz hoje quarenta e cinco anos que voltei ao sítio a que pertenço. E é neste chão 
que ficarei, um dia destes, a adubar, a adubar.

(Crónica publicada na VISÃO 1312 de 26 de abril)