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Tocar lira antes de morrer

Chaplin contava que após terminar um filme sacudia a árvore, e todas as cenas que não se aguentavam nos ramos eram eliminadas. Eu lia o material fazendo troça dele, utilizando uma voz de desenhos animados a fim de fazer saltar os erros, as asneiras, as redundâncias, gritava as frases, sussurrava-as, desprezava-as. Se elas se aguentassem talvez servissem. Isto aprendi de Flaubert

Ilustração: Susa Monteiro

Faz para o ano quarenta anos que os meus dois primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, foram publicados. A minha vida desde que chegara de Angola, em Março de 73, não foi fácil. Cumpria o internato no Hospital Miguel Bombarda e era médico numa clínica psiquiátrica pertencente a uma Ordem Religiosa mas como o dinheiro não abundava tinha bancos e consultas fora de Lisboa, morava num sótão pequenino, não podíamos jantar fora, íamos ao cinema de vez em quando, e o pouco tempo que me sobrava era para escrever: escrevia em casa, escrevia nos sítios onde trabalhava, escrevia, se não estava muito cansado, a tirar horas ao sono, sempre a levantar-me para enfiar a chupeta na boca da Joana que chorava sem interrupção, escrevia e deitava tudo fora a repetir desesperado

– Ainda não é isto, ainda não é isto

ou seja a frase que me dizia sempre ao ler o que tinha feito, desde a adolescência, porque não há talentos, há bois como explicou Jules Renard, continuava a marrar, a marrar, começara a minha luta a sério com as palavras ainda adolescente e orgulho-me de não ter tido pressa. Pensando bem não há motivo para orgulho algum uma vez que estava seguro de ser capaz

(de onde me viria esta segurança?)

tratava-se apenas de uma questão de tempo dado que acreditava piamente em mim, na minha teimosia e na força da minha vocação. Entre outros ensaios ficou pelo caminho um livro em que gastei dez anos porque ainda não era aquilo e, sem exagero, mais de uma dúzia de tentativas abortadas, ora no princípio, ora no meio, ora quase no fim, que largava sem pena visto que ainda não era aquilo. O material que sentia cá dentro era óptimo, parecia-me que conseguia e ao ler, a frio, o que ficava no papel, enfurecia-me pela sua pobreza. E não tinha pressa: na minha ideia o tempo corria a meu favor, como disse Miguel Torga, cujos livros, aliás, não me interessavam, o destino destina mas o resto é comigo, ou seja acreditava profundamente em mim. Lembro-me de uma ocasião, ao espelho, durante a barba da manhã, me anunciar

– Vais ver o que eu vou fazer, vais ver o que eu vou fazer
numa raiva triunfal

quando apenas enchia o cesto dos papéis de páginas amarrotadas. Isto durou anos e anos até que de repente me começa a sair a Memória de Elefante numa surpresa que me confundiu. Enquanto lutava com ela tinha a certeza de me achar finalmente no início da obra que queria: no início apenas. Precisava ainda de muito esforço, a minha sensação era a de me achar num caminhito que talvez levasse à estrada mas iria necessitar de muitas horas, meses, anos, até chegar lá. Lembro-me de me lembrar de uma ocasião, em Angola, irmos para um objectivo que se via do unimogue e que nunca mais alcançávamos porque a picada dava curvas sem fim. A certa altura cruzámo-nos com um camponês numa orla da mata, mandei parar o carro, perguntei se o tal objectivo era perto e o homem respondeu

– É perto mas é longe

uma das frases mais sábias que escutei na vida. E de facto os livros que queria compor achavam-se agora, após tanta teimosia e tanta paciência, perto e longe, começava a entrevê-los mas o caminho que faltava teria de fazê-lo de joelhos. E assim tem sido até hoje: entre a primeira versão e a obra acabada o caminho, como dizia o outro, faz-se de joelhos como aquelas pobres mulheres que se arrastam em Fátima. Embora isto seja muito diferente aprendi isso com elas. E aqui estou eu às voltas, inabalável. Escrever é sobretudo corrigir, emendar, tornar a fazer mas de modo a que o leitor não se aperceba do sangue que o autor suou até conseguir aquilo. Se o leitor der conta das infinitas emendas, das infinitas correções, das infinitas hesitações cansa-se da prosa. Chaplin contava que após terminar um filme sacudia a árvore, e todas as cenas que não se aguentavam nos ramos eram eliminadas. Eu lia o material fazendo troça dele, utilizando uma voz de desenhos animados a fim de fazer saltar os erros, as asneiras, as redundâncias, gritava as frases, sussurrava-as, desprezava-as. 
Se elas se aguentassem talvez servissem. Isto aprendi de Flaubert. E comecei a tratar o meu texto com desprezo. Só no caso de ele ser melhor do que tu vale a pena publicá-lo. Uma ocasião estava na Bélgica e enquanto uma actriz lia páginas de prosa ao microfone, no écran atrás dela projectavam o texto em 
Português. Pensei, a olhar aquilo

– O que eu dava para escrever assim

e, a pouco e pouco, o aquilo foi-se-me tornando familiar, a pouco e pouco compreendi que era meu, num espanto enorme.

Pensava

– Fui eu que fiz isto

pensava

– Fui eu que fiz isto

numa surpresa absoluta, pasmado, pensei

– Isto é muito bom foda-se

assim mesmo, desculpem

– Isto é muito bom foda-se

cheio de admiração por um homem que não sou eu, a lembrar-me de Sarah Bernardt

(tirei-lhe o h agora para não errar)

quando, em Paris, se cruzou na rua com um admirador que lhe perguntou

– Desculpe mas a senhora não é Sarah Bernardt

ela respondeu

– Vou ser logo à noite, no palco

e compreendi que apenas sou António Lobo Antunes nos livros. Fora deles sou um tipo qualquer. Só os tipos quaisquer são capazes de voar. Depois aterram e nem damos por eles.

– De que te serve, Sócrates, aprender a tocar lira visto que vais morrer?

– Serve-me para tocar lira antes de morrer.

E toco.

(Crónica publicada na VISÃO 1311 de 19 de abril)