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O Conde de Redondo

Caminhava rente à parede comprida do Hospital Miguel Bombarda, repleta de cartazes que se desfaziam e grafitis de toda a ordem. Lembro-me um que afirmava EU NÃO SEI SENÃO SONHAR numa caligrafia caprichosa, perfeita, que um segundo artista comentou a carvão, em letras apressadas NUNCA CAGAS?

Ilustração: Susa Monteiro

Antes desta casa morei num apartamento na minha opinião muito bonito, no Conde de Redondo, com a parede da frente toda em vidro, de onde tive que sair por já não haver espaço para mais livros. Estavam em toda a parte: no quarto, no corredor, na sala, na cozinha, até a lareira desapareceu atrás deles, na moldura da porta, etc., e gostava muito do bairro que me lembrava o sítio da minha infância, isto é casas antigas e comércios pequeninos, sapateiro, merceariazinhas, cafés de pobres, costureiras, cabeleireiros modestos

(ali imensos, frequentados por travestis opulentos)

bilhares manhosos, capelistas, vizinhos à janela, um ou dois malucos oficiais que apimentavam o bairro, restaurantes baratos, pastelariazecas frequentadas por bandos de viúvas todas loiras, com a menopausa oculta nos caracóis, de cãezinhos ao colo com os quais dividiam os ducheses, reformados imóveis, papelarias que também vendiam bonecos de loiça abracadabrantes que eu adorava, automóveis cobertos com panos, barbeiros de uma única cadeira, carrinhos de bebé, mulheres da vida, decadentes, nas esquinas, em guerra com outras mais novas que afinal eram rapazes, um ex-combatente da guerra de África, sempre de gravata, a insultar os caixotes do lixo, pombos a sujarem tudo, polícias 
que davam joelhadas nas mulheres 
da vida e nos travestis ordenando

– Andor, andor

tudo o que eu gosto enfim, me encanta, me seduz, me dá pena, sobretudo as viúvas de idade cosidas às paredes, sobretudo a dignidade lenta dos bêbedos, sobretudo os caixotes das mercearias no passeio, sobretudo as raparigas que moravam em quartos alugados a desejarem os vestidos baratos, cheios de coisas que brilhavam, nas montras, bares de alterne guardados por porteiros avantajados e cheios de senhores dignos de bigode e brasileiras capitosas arredondadas por enchumaços, comerciantes nepaleses com o inevitável poster do Himalaia na parede. 
A seguir ao almoço, antes de recomeçar a escrever, andava até ao Campo de Santana a fim de dar alguma corda às pernas, frequentado por viúvas esmoleres que traziam sacos de plástico cheios de pães de ontem para os pombos e os reformados do costume entretidos nas suecas do costume, batendo do alto, muito acima dos bonés de xadrez, uma manilha triunfal. O lago já não tinha cisnes nem patos porque a malta fixe da droga 
os comera todos, e eu dava a volta na estátua do doutor Sousa Martins, cercada de fiéis do espiritismo, oferecendo-lhe velas acesas e membros de cera que agradeciam curas milagrosas. Caminhava rente à parede comprida do Hospital Miguel Bombarda, repleta de cartazes que se desfaziam e grafitis de toda a ordem. Lembro-me um que afirmava

EU NÃO SEI SENÃO SONHAR

numa caligrafia caprichosa, perfeita, que um segundo artista comentou a carvão, em letras apressadas

NUNCA CAGAS?

e era a profundidade de diálogos como este que dava sentido ao mundo. Arranjei amigos firmes por ali, 
por exemplo o mulato imenso que desafiava a polícia

– Por cima de mim só os aviões

com o cálice de bagaço sumido na palma infinita, de quem a esposa se queria separar por ele se ter aborrecido com ela, desejo que o mulato não entendia, a explicar-me surpreendido

– Palavra de honra que só lhe parti um braço

poisando-me no ombro um cotovelo amigo que me esmagou a omoplata. A verdade é que eu gostava imenso da fauna e da flora daquele bairro, de ouvir as pessoas, lhes fazer perguntas, conversar com elas, dos cães a quem os troncos proporcionavam um banquete de cheiros, do sujeito de bigode e patilhas a zangar-se com a empregada da capelista por uma questão de trocos, apelando-lhe à inteligência

– Ó flor pensa com a raiz

do urinol cilíndrico, de metal, postado junto a um cruzamento, que se abria com uma moeda de euro, se fechava sobre nós e não se abria mais, no interior gemia, de tempos a tempos, um pedido de socorro cada vez mais ténue até que um empregado da Câmara viesse remover o cadáver

(adoro a expressão remover o cadáver)

de boca e braguilha meio abertas, conforme meio de joelhos e meio deitado, olhando-o de baixo para cima numa censura vítrea. Gostava de me livrar desta coisa dos livros e comprar um rés do chão ali, com cortinas de macramé, por baixo do segundo andar da Hospedaria Dallas ou ao lado do rés do chão e primeiro da Residencial Santa Maria Madalena Águas Correntes Quentes e Frias, cuja dona, idosa e ruiva, vinha cá fora fumar de boquilha em roupão e chinelos de cetim e respondia ao meu aceno com

– Olá boneco

prometedor. Dona Áurea, ouvi chamarem-na uma vez Dona Áurea. Tenho ideia que a mulher do chefe de posto quando eu estava em África era Dona Áurea também e também gorda, confortável. Mas em Angola havia mais morcegos e nenhum travesti em cada esquina como nenhum automóvel caro em conversações com eles, de cadeirinha de bebé no banco de trás.