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A longa brevidade da vida

Voltando à Professora Mahler estar com ela era isto o tempo inteiro. Tinha sempre em casa músicos vindos da sua terra que ela achava talentosos e ajudava com a sua generosidade. Uma ocasião era uma pianista que convidei para sair comigo. A Professora olhou-me furiosa: – If I was younger I would seduce you (se eu fosse mais nova seduzia-o)

Ilustração: Susa Monteiro

Eu estava em Nova Iorque, em casa do João, a tentar escrever o Fado Alexandrino e conheci a Professora Margaret Mahler, sobrinha do compositor. A Professora, então com mais de oitenta anos, morava numa casa com um letreiro cá fora “No Smoking” e ela lá dentro, uma senhora grande, vestida de schocking pink, de sapatos prateados e quadros de cair de cu na parede, que só bebia vodka, dona de uma voz imensa com um sotaque alemão que até doía. Foi um dos maiores psiquiatras, do século vinte, analisada por Anna Freud e muito amiga dela, e os seus trabalhos científicos, nomeadamente sob a relação precoce do bebé com o pai, são notabilíssimos. É provavelmente, a par de Melanie Klein, o nome de mulher mais importante no que concerne ao conhecimento do funcionamento mental das crianças, que decifrou de maneira luminosa, e as suas técnicas de tratamento têm resultados excelentes. O João operou-a

(a Professora estava condenada a uma cadeira de rodas na sequência de problemas vertebrais)

ela ficou bem e tinha pelo João um reconhecimento enorme e uma profunda estima. Uma ocasião veio a Lisboa

(nunca vi a Gulbenkian tão cheia)

onde deu uma lição estupenda e mandou aos meus pais um ramo de flores de dois metros, grata por eles terem posto no mundo aquele filho. Quando o João a internou para a tratar mandou que retirassem os quadros hospitalares das paredes do quarto e substituíu-os pelos seus Cézannes. Feia, tornava-se irresistível pela inteligência luminosa e a personalidade fortíssima, temperadas por uma ternura discreta e um sentido de humor extraordinário. Claro que me apaixonei logo por ela: tinha uma capacidade única de nos fazer sentir importantes, e o seu terrível sotaque alemão divertia-me imenso. Saía-se sempre mais rico da sua companhia. Uma tarde olhou-me em silêncio um bom bocado e depois disse

– You are magnificently unpreparated for the long littleness of life

e a frase dela nunca mais me saiu da cabeça: você está magnificamente impreparado para a longa brevidade da vida é de uma beleza terrível e de uma verdade assustadora. De facto ninguém está pronto para aceitar o compridíssimo minuto da nossa existência. Aprendo imenso a tentar traduzir

(só para mim, claro)

os meus queridos poetas latinos, Ovídio, Horácio e Vergílio, a Santíssima Trindade, e há uns anos pus assim:

Há lágrimas na natureza das coisas

E a certeza do efémero toca-nos o coração

e estes dois versos continuam a arrepiar-me: não é preciso acrescentar mais nada para sentir que somos todos tão pequeninos e sem importância. Se tivesse de escolher duas linhas apenas, de toda a poesia que conheço, escolhia estas. Se apenas pudesse escolher uma ia buscá-la a Victor Hugo: A sombra é sempre negra, mesmo a que cai dos cisnes. E eu, que infelizmente não sou poeta, invejo-os tanto. Já agora tomem lá outro verso de Hugo, tão mal conhecido, tão mal amado: O sonho é o aquário da noite. E Gide, a responder quando lhe perguntavam quem era, na sua opinião, o maior poeta francês:

– Victor Hugo, infelizmente. Bom, mas voltando à Professora Mahler estar com ela era isto o tempo inteiro. Tinha sempre em casa músicos vindos da sua terra que ela achava talentosos e ajudava com a sua generosidade. Uma ocasião era uma pianista que convidei para sair comigo. A Professora olhou-me furiosa:

– If I was younger I would seduce you

(se eu fosse mais nova seduzia-o)

respondi-lhe logo

– You already did it, Professor

(– Já me seduziu, Professora)

o que não a impediu de durante dois dias ficar amuada comigo. A pianista levou-me ao 54, então a discoteca mais famosa de Nova Iorque, com os seguranças numa espécie de varanda, à entrada, escolhendo, de dedo espetado, os eleitos, os felizes poucos (olá Shakespeare) dignos de ocuparem esse lugar sagrado. Disse à rapariga que, se calhar, iam proibir-nos o paraíso terrestre e ela olhou-me de banda numa pontinha de desprezo

– With my mink and your looks no problem

(– com o meu casaco de peles e o teu aspecto não há problema)

e não houve problema de facto. Nenhum problema. Nenhum nenhum problema. Nenhum nenhum nenhum problema. Mas a longa brevidade da vida, que a Professora Mahler me estampou na alma, a dolorosa verdade das suas palavras, continua a atormentar-me, aumentando ainda mais a minha permanente guerra civil interior, que procuro esconder sob este sorriso. É que, como dizia o meu amigo Karl Krauss, escritor austríaco em voga sobretudo nos anos vinte do século passado e que muito me agrada

– Não gosto de me meter nos meus assuntos privados.

João, João: nós nunca vamos ser velhos, não é verdade? Garante que nunca vamos morrer. E já agora, se não te importas, responde-me com aquele teu risinho curto, escondido atrás da palma: desculpa mas é que me dava tanto jeito, palavra de honra. Mano.

(Crónica publicada na VISÃO 1309 de 5 de abril)