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Crónica com a Avó Margarida no fim

A sensação desagradável, eu que não sou hipocondríaco, que o meu corpo está a mudar, se afasta permanecendo aqui, não sinto febre, não sinto dores, não descubro nenhum sinal de alarme claro, apenas um incómodo difuso, uma agitação vaga ao longe, a sensibilidade da pele diferente, o meu corpo, estranho, a afastar-se devagarinho de mim, os meus sentidos, como explicar isto

Ilustração: Susa Monteiro

E de repente, há dez ou quinze minutos, a sensação desagradável que qualquer coisa física me vai acontecer, aqui sentado à mesa onde escrevo, no momento em que pensava como começar o livro, em que me parecia que a primeira frase estava a chegar, me descia, braço abaixo, da cabeça à mão, com palavras que só conhecerei quando se alinharem no papel, a sensação desagradável, eu que não sou hipocondríaco, que o meu corpo está a mudar, se afasta permanecendo aqui, não sinto febre, não sinto dores, não descubro nenhum sinal de alarme claro, apenas um incómodo difuso, uma agitação vaga ao longe, a sensibilidade da pele diferente, o meu corpo, estranho, 
a afastar-se devagarinho de mim, os meus sentidos, 
como explicar isto, ao mesmo tempo agudos e dispersos, as pernas familiares e estranhas, arrepios imprecisos que crescem, a voz do meu pai

– Vou morrer de pneumonia como a minha avó
antes de começar a delirar, tão agitado, acendendo e apagando, acendendo e apagando, acendendo e apagando o candeeiro da mesa de cabeceira às quatro horas da tarde, 
a minha mãe aflitíssima

– O que fazemos agora?

eu de pé ao lado dele

– Vamos chamar uma ambulância

enquanto o meu pai ia falando cada vez mais alto, isto na véspera do 10 de Junho e quase ninguém em Lisboa, a minha filha Joana, sempre tão corajosa

(saiu morena, aquela)

queria fazer este livro ainda, pelo menos fazer este livro, dêem-me o tempo de fazer este livro, quero meter o mundo inteiro lá dentro, não sei quanto tempo tenho ainda, apeteciam-me muitos anos mas o corpo a faltar-me, fico sempre tão surpreendido com o resultado no papel, quando acabar esta crónica talvez consiga a primeira frase, o meu pai para a Joana e para mim

– Quem são vocês?

sem reconhecer a casa nem a gente, despenteado cheio de terror nos olhos, a tentar levantar-se e a tombar na almofada, às vezes fazíamos corridas de bicicleta e ele ganhava, nunca me apeteceu ganhar-lhe e ele 
odiava perder, o seu ar de triunfo

– O velho hã, o velho

tão contente, descanse que nunca será velho, pai, e os últimos anos sempre na mesma cadeira, rodeado de livros e música, a tomar notas nas margens

– Senta-te aí

comigo sentado no divã e ele já não a fumar cachimbo, a fumar cigarros, o horror dele morto na cama do hospital, de pijama ainda, muito mais sério que o costume, não sério, grave, com a biografia de Bismark, gordíssima, 
à cabeceira, o João não biografias, romances, contos

– Não gostas de Alice Munro pois não?

a largar o livro

– É o género de prosa que tu achas uma merda

eu

– De facto gosto mais dos Inventos e Tropelias do Serapião Tobias

e o sorriso dele, tão doente

– Devíamos ler isso outra vez

eu

– Talvez ainda o descubra numa livraria, no fundo continuamos com sete anos

a mão dele com as sardas de sempre, a maneira de me olhar de boca entreaberta, de lado

– Hã?

eu

– Só os parvos passam dos sete anos

e o seu sofrimento a custar-me, a custar-me, sem uma queixa, um lamento, a boca a repetir

– Os Inventos e Tropelias do 
Serapião Tobias

e eu tocar-lhe no ombro do pijama, com ganas de dizer

– Mano

e calado, a repetir para dentro

– Porquê porquê porquê?

e porque sim, porque a vida, porque nunca imaginei que acabássemos desta forma, o João

– Dá-me água

a fechar os olhos devagarinho, a tornar a abri-los, a fechá-los de novo, a sensação desagradável que qualquer coisa física me vai acontecer e, neste momento, não me rala o que vai acontecer, eu

– É estúpido mas agora lembrei-me do Mondego, da nascente do Mondego com o pai

e ele, devagarinho

– A nascente do Mondego com o pai

isto na serra, claro, isto na nossa infância, o Pedro ou o Miguel 
a atirarem pedrinhas à água, o João

– Acabou-se tudo não é?

como se uma lágrima, ou seja sem lágrimas, como se uma lágrima, eu para ele, a levantar-me

– Vamos fugir daqui?

pelo seu soslaio compreendi que a sua resposta era

– Sim

pelo seu soslaio compreendi que vinha comigo, não fazia mal que de pijama, magríssimo, cada um de nós com um exemplar dos Inventos e Tropelias do Serapião Tobias no sovaco, a caminho da casa onde a avó nos esperava numa das janelas de cima, com aquele sorriso de

– Já pensava que não vinham

nós que nunca lhe faltámos.

(Crónica publicada na VISÃO 1308 de 30 de março)