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Quatro Cartas de Amor: Quarta

(Não me perguntem porquê mas aposto que o meu avozinho está aqui a ver-me escrever isto, do mesmo modo que Santo António está acolá, sobre o móvel em que trabalho. Há um segundo no meu quarto, há um terceiro na sala)

Ilustração: Susa Monteiro

Aos oito meses eu estava em coma com uma meningite. Não havia antibióticos e eu ia morrer. O meu avô, devoto de Santo António, prometeu-lhe que me levava a fazer a primeira comunhão em Pádua, junto ao seu túmulo: no dia seguinte eu não tinha febre. Sete anos depois estava em Pádua a comungar, com o meu avô, um homem grande e forte, de enorme coragem, veterano de duas guerras, a chorar ao meu lado. Como se explica isto? É simples: Santo António comoveu-se com a Fé do meu avô. O meu pai era então um jovem médico de vinte e tal anos que estava na tropa em Lagos com a mulher e o seu primeiro bebé, o qual, de súbito, começou com uma febre altíssima, coma, rigidez da nuca, os sintomas habituais da meningite para a qual, nessa época, não havia antibióticos. A minha condenação era certa. Os meus pais pegaram em mim e fizeram a viagem Lagos-Faro e Faro-Lisboa em comboios raros e ronceiros, em plena Segunda Guerra Mundial, que os tornava ainda mais raros e ronceiros. Imagine-se a epopeia que terá sido a daquele casal de quase garotos carregando o seu filho moribundo. Finalmente, um dia e tal depois, chegaram a Lisboa comigo inconsciente. Saíram do comboio para um taxi, ao que parece difícil de arranjar nessa época de guerra, que os levou ao Hospital de Santa Marta, então hospital escolar, onde o meu pai trabalhava antes de ser chamado para o Exército e ele mesmo fez-me uma punção lombar para tirar líquido da espinha. O diagnóstico confirmou-se, a criança piorava. Telefonaram ao meu avô, então com cerca de cinquenta anos: o neto ia morrer. Deram-me umas injeções de sulfamidas na barriga, sem esperança alguma como era natural

(coitadas das sulfamidas)

falaram para Lisboa pelo telefone, o meu pai explicou ao seu pai o que se passava. Iam perder o neto, anos antes o irmão mais novo do meu pai morrera da mesma doença.

(Não me perguntem porquê mas aposto que o meu avozinho está aqui a ver-me escrever isto, do mesmo modo que Santo António está acolá, sobre o móvel em que trabalho. Há um segundo no meu quarto, há um terceiro na sala.)

O meu avô fez então a sua promessa e, no dia seguinte, o bebé saíra do coma e estava a brincar 
e a palrar, para grande espanto de toda a gente, comigo a pensar, enquanto digo isto, na frase de Jesus

– A tua fé salvou-te

ou seja a fé do meu avô salvou-me. A piedade de Santo António salvou-me. Ambos nos chamamos, o meu avô e eu, António Lobo Antunes. Em Pádua mandou--me colocar a mão no túmulo, colocou a sua ao lado da minha e pediu-me

– Promete que se tiveres um filho lhe chamas António e o trazes aqui a fazer a primeira comunhão

de cara toda molhada de lágrimas. Foi a única vez que o vi chorar. Passados três ou quatro anos ligaram de madrugada ao meu pai para lhe anunciar a morte do meu tio João Lobo Antunes, irmão mais velho do avô, ele que adorava a família. Como o meu pai era o filho mais velho, e segundo os costumes de Belém do Pará, pediram-lhe que fosse dar a notícia ao patriarca e os meus pais lá foram. A minha mãe conta este episódio na Fotobiografia que Tereza Coelho publicou. Chegaram a casa dos meus avós estavam eles ainda deitados. O meu pai disse da porta

– Pai, trago-lhe uma notícia muito triste

e a minha mãe conta que o avô ficou subitamente rígido na cama, de olhos fixos no tecto. O meu pai informou então

– Pai, o tio João morreu.

Comentário da minha mãe

– Até parecia aliviado, ele que adorava o irmão.


A sua única frase foi

– Pensava que fosse o António.

E acho que nunca ninguém gostou tanto de mim. Eu era, como ele dizia sempre, à brasileira

– O meu morgado

e tinha por mim, sendo muito melhor que eu sob todos os aspectos, um amor absoluto. Sentava-me à cabeceira ao seu lado, anunciou que o anel do visconde, que ele trazia sempre no dedo, pertencia-me, quando lhe disseram que eu escrevia versos perguntou--me, preocupadíssimo, se eu era maricas. Eu não sabia bem o que queria dizer maricas

(acho que ainda não sei)

para o acalmar garanti logo que não, perguntei a amigos mais cultos o que aquilo significava e a explicação deixou-me ainda mais confuso, eu que detestava os supositórios com que a minha mãe combatia gripes e desventuras semelhantes e contra os quais eu me debatia como um possesso. Volta e meia o meu avô olhava para mim com desconfiança

– Versos, hem?

até que os supositórios lhe foram desaparecendo da ideia. Pouco antes de morrer disse-me

– Tenho tanta pena de te deixar

e não há um dia em que não penso em si. O que eu não dava para tornar a vê-lo nem que fosse um segundo. E, se me portei bem em África, você um oficial a sério, eu um simples miliciano, foi porque não podia suportar a ideia de o desiludir, não podia suportar a ideia de que o seu morgado fosse um merdas. A única coisa que me importava era honrar o seu nome. Desculpe, senhor: não sei se consegui.

(Crónica publicada na VISÃO 1304 de 1 de março)