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Quatro Cartas de Amor: Terceira

Chamava-se Ernesto Augusto de Melo Antunes, e principiámos a jogar xadrez no dia seguinte. Eu perdia quase sempre e tive a impressão que às vezes ele me deixava ganhar. O seu esquema posicional era muito mais forte do que o meu, a sua defesa indiana do rei excelente e eu tomava riscos idiotas, cometendo erros elementares, descurando o centro

Ilustração: Susa Monteiro

Levámos muito tempo a aproximarmo-nos um do outro porque nenhum de nós era de intimidade fácil. Achava-o antipático e frio, talvez não bem antipático, distante. Depois ele era capitão e eu apenas alferes e, no Exército, essa distância conta. Depois estava já uns meses com a sua companhia no Ninda e eu na sede do batalhão em Gago Coutinho, onde quase não havia guerra, enquanto ele batia com os ossos na mata onde a música era outra. Depois era arredio e eu também e nenhum de nós falava muito. Depois era bastante vigiado pela polícia política e eu não tinha nenhum passado de resistência e nunca mencionava a guerra. Não mencionava fosse o que fosse, fazia o meu trabalho e pronto. Depois passava o tempo livre fechado a escrever ninguém sabia o quê. Depois tinha um nome de família conhecido e não fazia confidências. Depois ninguém sabia o que eu pensava e quase não participava das conversas dos oficiais nem dizia piadas. Depois havia-me recusado a dormir na antiga casa do chefe de posto, uma ruína junto ao arame farpado, sozinho, no que se me afigurava um risco inútil porque o MPLA me podia com toda a facilidade, caçar à mão. Ele insistiu, eu tive que obedecer, em desacordo com ele e ao aceitar, contrariado, exigi uma ordem por escrito, o que ele não gostou. Andámos assim uns tempos, até que um soldado, que fora ao rio buscar água numa Berliet, apanhou uma mina numa roda da frente e morreu esmagado entre o volante e os sacos de areia da proteção. Ele disse uma única frase

– Tinha jurado que os levava 
a todos

ajudei a trazê-lo até ao arame, ao descer da Berliet olhámo-nos porque a sua frase e a raiva das suas palavras nos aproximaram um do outro e compreendemo-nos instantaneamente. Acho que percebemos que éramos irmãos. E irmãos ficámos até a sua morte. Chamava-se Ernesto Augusto de Melo Antunes, e principiámos a jogar xadrez no dia seguinte. Eu perdia quase sempre e tive a impressão que às vezes ele me deixava ganhar. O seu esquema posicional era muito mais forte do que o meu, a sua defesa indiana do rei excelente e eu tomava riscos idiotas, cometendo erros elementares, descurando o centro. Desatámos portanto a falar a pouco e pouco. A cara daquele homem, vagamente parecido com Edward G. Robinson, concentrada no tabuleiro, ia ganhando uma humanidade que me agradava. Pela primeira vez apertámos a mão antes de nos despedirmos. Depois foi mais um bocado de guerra, a sua promoção a major, 
a pistola apontada a um pide que se apresentou a uma prisioneira

(os prisioneiros eram evidentemente sagrados para o Ernesto)

com um pontapé na barriga, a sua transferência para o norte, a poesia de Victor Hugo que me deixou “para o seu longo exílio”, as cartas que íamos trocando (“cada vez mais isto me parece um erro formidável”), o reencontro em Portugal quando o MFA começou a crescer, o seu empenhamento nele, com a serena coragem que sempre foi a sua, a generosidade, o bom senso, acompanhei o Movimento numa proximidade cúmplice, falávamos longamente, ia-me narrando a evolução e as peripécias e vicissitudes daquela complexa e arriscada aventura até o transferirem para os Açores, depois foi o 25 de Abril, depois a vitória, depois o seu regresso a Portugal, depois os problemas de toda a ordem que foram surgindo até ao 25 de Novembro, depois a vitória, depois a solidificação da democracia e o papel importantíssimo do Ernesto em tudo o que se passou, a sua inteligência, a sua rectidão, a sua muita coragem, as diversas missões de que se ocupou, o nosso diálogo constante, a eleição de António Ramalho Eanes, a quem tanto quero, para a Presidência, 
as múltiplas tarefas do Ernesto, 
a nossa relação fraterna, a preciosa amizade que mantivemos sempre, sem uma única ruga, ao longo dos anos, a notícia brutal da sua doença que ele comunicou aos filhos a meio do jantar

(– Tenho um cancro do pulmão e não se fala mais nisso)

a sua ida aos Estados Unidos ao hospital em que trabalhava o meu irmão Nuno, o estado horrível do seu mal que ele viveu de forma exemplar, as tardes de sábado juntos, sem testemunhas, que não vou reproduzir aqui, a progressiva deterioração do seu estado

(– Hoje acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade)

a sua morte que me fez sofrer horrivelmente, que continua a fazer-me sofrer, o cemitério onde fui com uma das suas filhas em cada braço, a presença dos camaradas, a sua ausência que tanto continua a custar-me, a dor que se mantém em mim, a sua total confiança no meu trabalho, o modo como sempre esteve ao meu lado, os nossos eternos jogos de xadrez comigo a perder nove em dez, raios te partam 
Ernesto. Não há um dia em que não pense em ti, 
o irmão mais velho que ganhei e com tanta maldade 
a vida me tirou.

(Crónica publicada na VISÃO 1303 de 22 de fevereiro)