Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Quatro Cartas de Amor: Segunda

Estou triste, estou triste, estou desinfeliz e agora como se tira 
a desinfelicidade, diga-me, esteja onde estiver, porque há-de andar por aí, bata 
à porta dos meus pais que já não existe mas estão lá dentro e sorria, por favor sorria, tão parecido com o sorriso do avô o seu, se eu pudesse, não, a sério, se eu pudesse receber de novo o mundo que me tiraram, tornar a ouvir – Filho

Ilustração: Susa Monteiro

Estou triste, estou triste, estou desinfeliz, queria tanto que a minha mãe chamasse agora a tia Madalena, a tia Madalena vinha sempre e sorria, dizia-me

– Meu filho

com a sua voz tão bonita, de olhos cheios de ternura sem pieguice, quer dizer de amor verdadeiro e tudo começava logo a tornar-
-se suportável, ela que tinha a doçura menos maricas do mundo, que tinha uma capacidade de amor ao mesmo tempo exigente e tolerante, ela que era de uma bondade absoluta, firme, me deu alguns dos momentos melhores da minha vida, me fez sempre sentir querido. O João e eu falámos muitas vezes nisto e não é fácil ser assim, não é nada fácil ser assim, sinto tanto a sua falta, tenho a certeza que durante os meus períodos difíceis esteve sempre comigo, que continua comigo, continua conosco, parecia-se tanto com o Avô, armava-
-nos o presépio, jantávamos às quintas-feiras na sua casa, estou triste, estou triste, estou desinfeliz e agora como se tira a desinfelicidade, diga-me, esteja onde estiver, porque há-de andar por aí, bata à porta dos meus pais que já não existe mas estão lá dentro e sorria, por favor sorria, tão parecido com o sorriso do avô o seu, se eu pudesse, não, a sério, se eu pudesse receber de novo o mundo que me tiraram, tornar a ouvir

– Filho

da sua boca, levar-me ao cinema outra vez, ouvir os meus irmãos, ouvir-me a mim

– Mãe, chame a tia Madalena

e contar-lhe os meus segredos mais íntimos, os meus pobres segredos, a minha vida e os seus caminhos sempre errados, as minhas patetices de criança

(sou tão pateta não sou?)

a dor de certas noites, a dor de certos dias, coisas que gelam dentro de mim um bloco de saudade, o que posso esperar agora, diga-me, o que posso esperar ainda, o meu avô de repente brasileiro a poisar-me a mão no ombro, cheio de orgulho

– O meu morgado

as últimas palavras que me disse

– Tenho tanta pena de te deixar

e a viagem juntos a Belém do Pará que nunca fizemos, vou lá sozinho um dia tocar as nossas raízes, explico

– Sou eu

e toda a gente compreende, em Jerusalém contaram-
-me como os Lobos lá chegaram depois da fuga da Holanda, tia Biluca, tia Marocas, tia Mimi, Avó Chuta, a cocada da tia Isabel, os rebuçados de ovos, a guerra do Paraguai de que o meu avô falava, o patriarca Bruno Álvares Lobo que nunca conheci, os poucos livros, todos brasileiros, Machado, Aluízio, Alencar, Pompeia, que só eu lia, na estante de uma das salas cá em baixo, Láiá Garcia, Láiá Garcia, Láiá Garcia, Navio Negreiro de Castro Alves, o retrato da Avó Chuta, tão parecida com o meu avô que podia ter sido caçador de esmeraldas como Pais Leme, estou, Bilac, triste, estou triste, estou desinfeliz. Fernão Dias Pais Leme, a borracha, a borracha, a borracha, a borracha, que ricos nós éramos senhores, se calhar safadezas o tempo todo para chegar aí, mandava-se engomar a roupa a Paris. E agora vou acabar porque estou triste. Estou triste, estou triste, estou desinfeliz. Oi maninha, desinfeliz. Os meus avós andaram na guerra, eu também. 
A tia Madalena. A tia Madalena dizia-nos sempre

– Filho

como dizia

– Filha

à nossa prima. Custou-nos tanto a sua morte. Nunca deixámos ninguém descobrir-lhe o lenço que lhe escondia as feições. Acho que era para que não a vissem piscar-nos o olho e tranquilizar-
-nos baixinho

– Estou aqui.

E graças a Deus, tia, está. Mesmo que tentasse com muita força

(e tinha muita força)

não era capaz de morrer. Isso nunca seria uma coisa sua. E depois quem concebe a ideia de não poder chamá-la? Não, a sério: quem concebe a ideia de não poder chamá-la?

(Crónica publicada na VISÃO 1302, de 15 de fevereiro de 2018)