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A Florzinha e o Gé

A autópsia disse que não, que o coração tropeçou em si mesmo e pronto, dado que 
às vezes até o coração tropeça em si mesmo 
e pronto. É possível, não sei, quem não tropeça em si mesmo nesta vida? Ao fecharem-lhe o caixão a minha mãe segredou-me – Agora é que ele está sozinho mesmo

Ilustração: Susa Monteiro

Desde que os meus pais morreram a casa calou-se. Nem sequer a torneira faz barulho no lava-loiças de alumínio, os meus chinelos, quando muito, segredam no soalho, às vezes lá escuto um suspiro ao sentar-me no sofázito da sala, mas deve ser das molas da almofada ou se calhar são os meus ossos e as molas ao mesmo tempo porque não estou muito certa de que material sou feita desde que estou sozinha. Parece-me que sobretudo sou feita de silêncio, com um suspiro mudo dentro. Passos no andar de cima mas de quem se ninguém mora no sótão? A minha mãe perguntava-me

– Quem será?

com os olhos, respondia-lhe

– Não sei

porque o senhor Vidal, o antigo inquilino não morava com ninguém. Às vezes, quando muito, escutava-o

– Ai eu

num eco amortecido.

Depois o rim levou-o para o hospital e não tornou mais. Soube pela viúva do rés do chão que faleceu, e também porque vieram uns primos levar-lhe os tarecos. Pouca coisa dado que coube tudo numa furgoneta pequena, com o sobrinho do senhor Vidal a juntar uns caixotezinhos lá dentro, um ou outro com um tilintar de loiça e de talheres e mais nada. O sobrinho do senhor Vidal recomendou ao chofer


– Cuidado porque há aí coisas que se quebram


o chofer respondeu


– Para o que elas valem não se perde grande coisa


e partiu aos solavancos a badalhocar inutilidades. O senhor Vidal era gordo e quase não falava, dizia que sim ou não com a cabeça, numa espécie de sorriso que não chegava a sorriso, ficava a meio caminho entre a seriedade e a educação. Por mim gosto de pessoas discretas que não mostram o que sentem, embora o senhor Vidal volta e meia um suspiro. Creio que nunca lhe escutei muito mais do que um suspiro, algo como uma espécie de balão que se esvazia um bocadinho e era tudo. Esvaziava-se um bocadinho, de facto, mas continuava gordo. Usava óculos com a lente do lado esquerdo mais grossa e o olho por trás dela menos nítido. Pergunto-me se teria algum problema desse lado da vista mas nunca o interroguei por timidez. Os meus pais também não, éramos uma família discreta. Fomos sempre uma família discreta, respeitadora. Houve uma época em que me pareceu que o senhor Vidal dava a impressão de se interessar por mim porque, depois de nos cruzarmos sentia qualquer coisa a pesar-me nas costas. Depois pesou menos, depois deixou de pesar. Pode ser que me tenha enganado, a gente às vezes inventa palermices. Deve ser de nos sentirmos sozinhos. O meu pai, por exemplo, achava que nos sentimos sempre sozinhos.

A minha mãe respondia-lhe


– Ainda aqui estamos os dois


um bocado ofendido, acho eu, e o meu pai, que detestava discussões, dizia


– Pois é


e calava-se. Faleceu na farmácia ao pesar-se, quer dizer estava a calcular a densidade avançando e recuando o cursor e nisto veio por ali abaixo devagarinho. 
O sujeito da ambulância informou-nos que tinha sido um aneurisma que é quando uma bolha rebenta na cabeça. A autópsia disse que não, que o coração tropeçou em si mesmo e pronto, dado que às vezes até o coração tropeça em si mesmo e pronto. É possível, não sei, quem não tropeça em si mesmo nesta vida? Ao fecharem-lhe o caixão a minha mãe segredou-me


– Agora é que ele está sozinho mesmo


e durante uns tempos ainda fomos ao cemitério pôr-lhe flores numa jarrinha, que podia ser que lhe fizessem companhia. Há alturas em que os lírios consolam. Pelo menos espero que consolem. Dois ou três anos depois a minha mãe estava a fazer croché num banquinho baixo e a agulha parou. Pusemo-la quase ao lado dele. As vezes que os visitei nunca os ouvi borbulhar: provavelmente isso da solidão é verdade, quem se atreve a afirmar o contrário. De modo que aqui estou em sossego. Cozinho, limpo a casa, vejo televisão, durmo. Tenho cinquenta e seis anos, faço cinquenta e sete em abril. Por acaso pareço menos. Com a pensãozita dos meus pais as coisas aguentam-se. No outro dia, quando fui recebê-la, conheci o Rogério. Tem setenta e quatro e é um bocadinho mais baixo do que eu. Também não é bonito mas é educado. Dantes tratava-me por Conceição, agora trata-me por Florzinha. Há pouco tempo começámos a andar de mão dada na rua. Não é desagradável. Nunca me tinham tratado por Florzinha. Também não é desagradável. Eu, a ele, trato-o por Gé. A esposa do Gé sofre de uma doença chamada espinha bífida. Não sei o que será. Mas tenho a promessa do Gé que quando a espinha bífida a levar casamos. 
O médico diz que ela dura mais um ano ou dois que não é nada que com um bocadinho de paciência não aguente e dá tempo ao Gé para colocar dentes novos e, a mim, para emagrecer uns cinco quilos. Quero que sejamos um casal bem posto. O Gégézinho merece uma esposa decente. Além disso consultei um doutor que me garantiu que a minha espinha é perfeita e que, pelo menos de aneurisma, o Gé não bate a bota. Na opinião dele o meu noivo está que nem uma flor.


– Até a há-de enterrar a si


disse ao descobrir-me os diabetes. De maneira que não sei. E se eu arranjasse um pouco de remédio contra as baratas?

(Crónica publicada na VISÃO 1300 de 1 de fevereiro)