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Eu, pequeno

Aos domingos um primo gordo, chamado Marciano, vinha buscá-la à tarde, cintilante de brilhantina, e sentavam-se num banco da praça sem falarem um com o outro, lado a lado apenas, com o primo Marciano a decapitar a cinza compridíssima do cigarro com a guilhotina do mindinho

Ilustração: Susa Monteiro

Os berros dos pavões ao fim do dia na mata, ao mesmo tempo próximos e distantes, ao mesmo tempo estranhos e humanos, a chamarem por mim. Às vezes, já de luz apagada, escutava-os ainda conforme escutava, baixinho, a buganvília do quintal ao longo do muro e o ciciar das árvores. Meu Deus a quantidade de ruídos de que o silêncio é feito, uma constelação de pingos de torneira, cochichos, vozes na sala, longíssimo, passos em bicos de pés, de quando em quando um riso, de quando em quando uma ameaça, tudo tão alarmante, misterioso. Apetecia-me chamar

– Mãe

e não chamava a fim de que os gatunos, escondidos nas pregas das cortinas não dessem por mim, transportando-me para os poços e os compartimentos subterrâneos onde moram, puxando-me o braço

– Vamos levar-te conosco, rapaz, vamos levar-te conosco

e eu aterrado, quieto, sem força para chamar por socorro, à espera. Gatunos de olhos fosforescentes e unhas compridíssimas como a amiga da minha irmã mais velha que trabalhava na farmácia. Perguntava-lhes

– Depois comem-me na cave, não comem?

e eles risos terríveis, parecidos com lata que se esfregava em lata

– Claro que sim, temos fome e precisamos de comer, aquele ali é o que chupa os ossos

comigo, incapaz de pedir socorro, a engolir lágrimas de aflição tentando tornar-me microscópico nos lençóis, a fim de que os gatunos

– Que é do catraio?

não dessem por mim e acabassem por ir-se embora

– Amanhã apanhamo-lo de certeza

com aquelas gargalhadas horríveis deles que se dissolviam corredor fora, até sobrar apenas o pêndulo do relógio para um lado e para o outro

pum, pum

e nisto uma voz de pessoa crescida a abanar-me

– Acorda, garoto

instalava de repente o dia na janela enquanto a figueira do quintal ia aumentando, aumentando, e uma voz no fim do corredor se aproximava com uma caneca de leite que cheirava a paz

– Bebe isto depressa antes que ganhe nata

descendo-me a garganta. Pássaros no limoeiro, lagartixas no muro, paradas em atitudes de arranque, de pupilas cromadas. Como a infância é esquisita. O eco do meu pai

– Ainda não acordou, o preguiçoso?

num tom que, como era cedo, não tinha rugas ainda, à medida que a casa se ia enchendo de móveis e ruídos domésticos felizmente inofensivos, loiças, vassouras, a voz da cozinheira

– Tanta tralha para lavar senhores

um aspirador com vocação de sirene de ambulância, um bebé a palrar. Às vezes a minha tia cantava

Todos nós temos na vida
uma ilusão mais querida
uma ilusão de amor

numa voz fininha, bonita. Pisei uma mancha de sol no chão, que se me pregou ao pé e caminhava comigo. 
A cozinheira

– Mais uma coisa para limpar não é?

que só a água da chuva dissolve quando cai lá fora enquanto a nespereira, perto do muro, não cessa de tremer. O meu pai a colocar a gravata

– Já é tarde

sem se ralar com os gatunos que se calhar a cozinheira varreu para debaixo do tapete ou reuniu na pá e despejou no balde. Era uma velha para aí de quarenta anos, ainda não com bigode, uns pelitos só, o olho esquerdo um bocado desviado e a pálpebra meio descida, cheia de desinteresse. Aos domingos um primo gordo, chamado Marciano, vinha buscá-la à tarde, cintilante de brilhantina, e sentavam-se num banco da praça sem falarem um com o outro, lado a lado apenas, com o primo Marciano a decapitar a cinza compridíssima do cigarro com a guilhotina do mindinho. Uma ocasião perguntei à cozinheira

– Vais casar com o primo Marciano, La Salete?

ela, de repente corada

– Nunca se sabe

a insistir com o fósforo no fogão, que acabava por acender-se num estrondo apocalíptico, capaz de sacudir os quadros nos pregos. A minha avó, preocupada

– Qualquer dia matas-nos aqui a todos, La Salete

a La Salete, que não gostava da minha avó

– No seu caso não era um grande desperdício

e a minha avó uma semana sem lhe falar, 
ofendidíssima.

A minha mãe lá punha água na fervura

– Então, então

mas parecia-me mais ou menos inevitável que cedo ou tarde uma delas havia de enfiar a faca do peixe no umbigo da outra, o que não chegou a acontecer porque a minha avó faleceu de diabetes não dando chances à faca. Esteve uns dias no hospital e pronto. Então a La Salete jogou a arma no balde e ninguém morreu lá em casa. Com o desaparecimento da minha avó sumiram-se os gatunos igualmente, que não me obrigavam a partir com eles. 
De modo que hoje em dia sobro eu aqui e um único pavão na mata a chamar o fim do dia, tão próximo e distante, tão estranho e tão humano, de tal forma que me sucede às vezes pensar qual de nós sou eu.

(Crónica publicada na visão 1299 de 25 de janeiro)