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Que rezem pela minha alma pecadora

Resta-nos esperar (eu, pelo menos espero, ter o destino do meu poeta favorito, Quevedo, nascido no ano em que Camões morreu (1580) que termina num dos seus mais geniais sonetos, falando de si mesmo após a sua morte: Serei pó mas pó apaixonado

Há anos assisti na televisão inglesa à última entrevista de Evelyn Waugh, um escritor notável e brilhante e um homem complexo, contraditório, de temperamento difícil, muitas vezes insuportável, autor de uma obra importante e extensa, apesar de a sua vida não ter sido muito longa. Morreu de uma forma mais frequente do que se imagina: sentado na retrete a tentar fazer cócó, que é uma excelente maneira de explodir um vaso do cérebro. A entrevista foi talvez a melhor a que assisti em toda a minha vida porque o jornalista era extraordinário de talento, inteligência e humor e toda a gente sabe que a qualidade de uma entrevista depende do mérito e do engenho de quem a conduz. No caso de Evelyn Waugh a conversa, de parte a parte, foi espantosa e eu passei uma hora feliz a escutá-los porque nada se compara ao espectáculo de duas inteligências em movimento. Falaram da vida do escritor, da sua obra, do mundo, de tudo e eu ali pasmado a escutá-los, a aprender e a fruir. A última questão era assim

– O que espera dos leitores depois da sua morte?

e Evelyn Waugh, colérico, sarcástico, irónico, em muitas ocasiões insuportável, outras furioso, outras sereno, sempre em guerra consigo mesmo e com os outros, tornou-se de súbito uma espécie de menino grande

(quem não é um menino grande?)

e respondeu num pedido doce, com uma súbita sinceridade desarmante:

– Que rezem pela minha alma pecadora

Católico inglês, como o seu amigo Graham Greene, coisa não muito frequente no seu país protestante, repetiu, mas baixo

– Que rezem pela minha alma pecadora

e a entrevista encerrou-se ali. Não menciona a posteridade, a esperança de permanência da sua obra, não aludiu a sonhos de glória póstuma: limitou-se a pedir que rezassem pela sua alma pecadora. E eu que sou seu leitor, rezo, apesar da minha tão complicada e por vezes agressiva relação com Deus

(Voltaire, por exemplo, dizia acerca d’Ele

– Cumprimentamo-nos mas não nos falamos)

por uma alma que, com tanta sinceridade, se desnudou por completo ali à minha frente e de muitos milhares de outros espectadores, a pedir-nos ajuda com uma simplicidade desarmante. A sua obra já não lhe pertencia, pertencia aos leitores do futuro que a julgariam de diversas formas, sujeitas às constantes flutuações do gosto, ora esquecida ora lembrada, ora inexistente ora viva de novo, ora exaltada ora diminuída, estendida de muitos e variados modos e, finalmente, esquecida para sempre, porque seremos inevitavelmente, esquecidos para sempre. Santo Agostinho, por exemplo, sustentava que, se deixasse cair um pingo de água, uma vez por ano, numa imensa esfera de ferro, quando finalmente a água deixasse marca no ferro ainda nem a eternidade havia começado, e as nossas chances de fazermos parte dela são, evidentemente, nulas. Nem é preciso ir tão longe. Nem é necessário ir tão longe: Aristóteles deixou os nomes dos dez maiores tragediógrafos gregos ou, pelo menos aqueles que ele considerava os dez maiores tragediógrafos gregos. Chegaram até nós três apenas, escritores sublimes, e nenhum deles consta da lista de Aristóteles: Eurípedes, Ésquilo e Sófocles, autores, aliás, sublimes. E, mesmo desses, o que perdura está longe de ser o seu trabalho completo. Estamos condenados ao desaparecimento total do nosso combate, por maior e mais genial que ele tenha sido. Oscar Wilde tinha razão

(tinha quase sempre razão, o sacana)

quando, ao mencionar Homero, escreveu “Homero ou outro grego com o mesmo nome”, visto que o Homero que temos, o da Ilíada e da Odisseia, não é certamente o original, a sua existência parece agora mais que problemática, e desconhecemos o verdadeiro autor daquelas onomatopeias únicas de que Pound falava. Sobram talvez os restos de uma alminha, para usar a expressão de Marco de Aurélio, perdida entre ínfimos restos de alminhas, um ditongo aqui, quase uma palavra acolá, e tudo o resto é, provavelmente, apócrifo. De qualquer modo o que compusémos, com tanta angústia, dificuldade e esperança, perder-se-á para sempre, e a certeza disto torna as nossas vidas mais estreitas e insignificantes ainda, condenadas a um esquecimento absoluto. Mais cedo ou mais tarde as nossas almas pecadoras vogarão sozinhas, minúsculas luzes bruxuleantes num nada absoluto. Resta-nos esperar

(eu, pelo menos espero, ter o destino do meu poeta favorito, Quevedo, nascido no ano em que Camões morreu
(1580)

que termina num dos seus mais geniais sonetos, falando de si mesmo após a sua morte:

Serei pó mas pó apaixonado

e nesse pó inapreensível continuaremos a ser. Uma ocasião, numa viagem de Bucareste para Constança parámos, o poeta Dinu Flamand e eu, num mosteiro isolado, com mais de seiscentos

(seiscentos)

seminaristas. O bispo disse-nos

– Vamos rezar uma oração pelas almas eternas dos escritores falecidos e seiscentas vozes a cantarem naquela catedral imensa foi a coisa mais grandiosa e comovente que alguma vez escutei. Todo eu tremia como uma folhinha ao vento, de olhos cheios de lágrimas. E tive, pela primeira vez na vida, a certeza de ser eterno. Pensei em Evelyn Waugh, pensei em mim. E consolou-me, Senhor, ser um grãozinho eterno. Um grãozinho sem obra e sem nome, mas de quem Te não esqueces. Por favor não ponham boneco nenhum nesta crónica. É que já está suficientemente iluminada. E é, de certeza, a mais comprida que fiz.

(Crónica publicada na VISÃO 1298 de 18 de janeiro)