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Crónica aos zigue-zagues

Nós, homens, nunca saberemos o que é uma vida a nascer dentro do nosso corpo, numa intimidade absoluta. De certo modo tento compensar isso com o que escrevo. Vou parindo livros, mas os livros não me abraçam da mesma maneira

Ilustração: Susa Monteiro

Numa entrevista a propósito deste último livro o jornalista perguntou-me

– Matou alguém em África?

respondi

– Passe à questão seguinte

e não percebeu que estava a dizer-lhe, com delicadeza, que isso não era uma questão que se pusesse, que mais não fosse por pudor, que mais não fosse por respeito humano. Eu nunca me atreveria a colocar essa questão a ninguém. Mas uma coisa posso contar, porque aliás foi publicada na Fotobiografia de Tereza Coelho a meu respeito e contada a ela por camaradas meus: Devo ter sido o único militar que, em Angola, torturou um bocado um Pide. Quando li o livro nem me recordava já do episódio, foram outros que o disseram, depois do dito Pide contar algumas histórias horríveis de África, e ao ler o que se passou vieram-me à cabeça os gritos do homem. Está lá escrito

(a Fotobiografia teve mais que uma edição)

na boca de, pelo menos, dois militares, mas claro que não vou falar dessa história. Também não me orgulho mas é verdade, e não foi feito às escondidas. Nunca fiz coisas às escondidas. Ainda hoje não percebo a intenção do jornalista nem quero pensar. Ganhou uma caixa? Ganhou um título? Mostraram--me, no facebook dele, essa pergunta e, por baixo da pergunta uma fotografia minha a tapar a cara, num gesto que faço muitas vezes quando estou cansado, nada tinha a ver com esse assunto, mas é lógico que quem tenha visto o retrato de imediato pensaria numa admissão de culpa da minha parte, o que é feio, muito feio. E aproveita para atacar o livro. Tem todo o direito de o atacar, sobretudo porque ficou furioso por eu ter dado antes da sua, uma entrevista a outra pessoa. Qual o mal? Uma entrevista não é uma notícia. Já dei tantas antes dessa sobre tantos romances e por conseguinte no lugar dele tanto me fazia, o que me ralava isso? Comigo, no lugar em que escrevo, estava o Prof. Gordon Love que assistiu a tudo, ele que vive em Portugal agora, não nos Estados Unidos, a traduzir o romance em apreço e a investigar a minha obra, e que por isso comigo, como assistiu às visitas de vários jornais estrangeiros e continuará a assistir nos próximos meses, trabalha aqui à minha frente e sinto-
-me bem na sua companhia. Isto de que me ocupo é tão solitário, tão difícil, que o facto de haver uma pessoa por perto me faz bem. Um livro sempre foi para mim um penar profundo. Termino os dias exausto. E ver outra criatura a penar palavra de honra que ajuda. Quando estava a fazer quimioterapia a sala, bastante grande, encontrava-se cheia de companheiros de infortúnio, o que ajudava a sentir-me acompanhado. Auxiliaram--me tanto como a sua dignidade, a sua coragem, a solidariedade que me manifestaram sempre. Claro que aquilo não era muito agradável: era um horror. Mas fiquei a conhecer melhor os portugueses, sempre cheio de orgulho por ser um deles, sempre cheio de orgulho de estar rodeado de príncipes. Lembro-me de um homem numa situação terminal me dizer:

– Abrace-me que é o último 
abraço que me dá

e nunca esquecerei o seu sorriso, nunca esquecerei a sua cara quase encostada à minha. Morreu muito pouco tempo depois. Quer dizer: continua vivo em mim. Continuará para sempre vivo em mim, o sorriso não se vai apagar nunca. Trago-o comigo para me iluminar quando estiver muito escuro. Sempre que vou ao Serviço de Oncologia fazer revisões passo sempre pela sala da quimioterapia e cumprimento as pessoas uma a uma. Sinto-me entre irmãos junto deles. Sou um deles. Serei sempre um deles. Engraçado como o Prof. Gordon Love está cada vez mais português, o sotaque vai desaparecendo aos poucos, tem um calão e uma coleção de palavrões notável que melhora todos os dias, no caminho para aqui e daqui se vai enriquecendo porque faz o trajecto a pé. E vê ministros e deputados a dar com um pau dado que mora perto da Assembleia da República. Alto, ruivo, chegou magrinho e engorda que é uma beleza, já de barriga respeitável. De vez em quando fazemos uma pausa, tiramos ambos os óculos e conversamos um bocadinho antes de recomeçar, eu que ando a corrigir um livro que me está a dar um trabalhão sem fim. Olha, comecei este livro perto dele, o anterior também, chegou estava eu a acabar Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, portanto agora conheço-o melhor, somos amigos oferece-me exemplares da Library of America, foi a Espanha com a família e trouxe-me de lá uma edição óptima da obra completa de Quevedo, autor que muito admiro, nascido no ano em que Camões morreu. Parafraseando o meu amigo George Steiner, em Tolstoi e Dostoievski, ou se é filho de Quevedo ou se é filho de Gôngora, e eu sou filho de Quevedo. Ou de Bashô, o grande poeta japonês do século XVII.

Uma tradução minha de um dos seus hai-ku:

Os quimonos secam ao sol.
Ai as mangas pequenas
da criança morta.

Que extraordinário, não é? Mas voltando ao princípio e a

– Matou alguém em África?

O que me vem à cabeça é que me matei a mim: nunca mais tornei a ser o mesmo e julgo que isto se passa com toda a gente que lá esteve, é inevitável. Qualquer experiência radical nos muda, e toda a gente sabe isto, toda a gente passou por isto de uma maneira ou outra. Uma mulher, por exemplo, depois de ter um filho torna-se inevitavelmente uma nova pessoa. Freud falava muito da inveja do pénis, mas nunca falou da inveja, a maior parte das vezes inconsciente, que os homens têm de não poderem engravidar e parir, e quando fui médico senti isso tantas vezes nas psicoterapias, era tão óbvio. Nós, homens, nunca saberemos o que é uma vida a nascer dentro do nosso corpo, numa intimidade absoluta. De certo modo tento compensar isso com o que escrevo. Vou parindo livros, mas os livros não me abraçam da mesma maneira. Se fosse capaz de ter filhos em mim não escrevia, disso tenho a certeza. Só não sei como fazia para engravidar porque a ideia de um homem dentro de mim me repugna infinitamente, era lá capaz. Eu vi a minha mãe com todos os filhos lá dentro e ainda hoje a invejo. Vi-a dar de mamar a cinco galfarros e ela, que era muito bonita, ficava linda na sua comunhão absoluta. A única vez que a vi chorar foi quando um deles se perdeu dentro da sua barriga. E já contei que, quando o Pedro morreu, ela disse

– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto
e morreu também.

Quando foi do pai não disse

– Uma mulher não tem o direito de estar viva com o seu marido morto

ela que gostava muito dele e não voltou a ser a mesma pessoa nunca mais. Mas aguentou-se, que mais não fosse por nós. Quando eu estava com um dos cancros vi isso, tão claro, na cara dela. Teria morrido por mim também estava tão claramente escrito na sua cara, ela que não demonstrava os sentimentos e era corajosa e dura. Será que nós, homens, sabemos o que é o amor? Às vezes penso que sim, às vezes duvido. Auden: “diz-me a verdade acerca do amor”. Eu quero uma mulher que morra por mim. Como Modigliani teve. Há assim cabrões como ele, que têm essa sorte, Modigliani que morreu a dizer

– Querida, querida Itália

que não sei ao certo se é um País ou uma Mulher.

(Crónica publicada na VISÃO 1296 de 4 de janeiro)