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O meu velho

Desprezava o dinheiro mas era teso que se fartava, o meu velho, de uma coragem que alguns dos meus irmãos herdaram. Eu nem por isso, tenho dias. Portanto, no meio dos seus inúmeros defeitos, possuía umas qualidadezitas e nunca o vi gabar-se fosse do que fosse. Mesmo assim, em Santa Maria, ainda deu porrada num ou noutro colega que ele considerava desonesto

Ilustração: Susa Monteiro

O meu pai, que tinha um feitio difícil, foi a pessoa mais honesta que conheci. Desprezava profundamente o dinheiro e portanto, com seis filhos, não havia muito em casa. Médico, professor da Faculdade de Medicina, não cobrava aos doentes do consultório se simpatizava com eles: trazia-os para jantar em casa, o que complicava a vida à minha mãe que era quem administrava as poucas finanças que havia. O Mestre dele, o Professor Egas Moniz, postulava que não se devia aceitar fosse o que fosse de artistas e o meu pai seguia escrupulosamente essa regra. Como, na sua opinião, toda a gente era artista, aparecia muitas vezes com desconhecidos que sentava à nossa mesa do jantar, obrigando a uma constante multiplicação bíblica dos pães e dos peixes. Uma ocasião perguntou-me, perplexo

– Como posso eu aceitar dinheiro de uma pessoa que sofre?

Lembro-me, por exemplo, de ter ido ao seu Serviço em Santa Maria na ideia de apanhar uma boleia de carro para o almoço. O meu pai estava a examinar um camponês já de certa idade

(os doentes eram as únicas pessoas para quem ele, geralmente bruto e em não poucas ocasiões violento, mostrava uma inesperada ternura)

quando acabou de medicá-lo o camponês perguntou-lhe quanto lhe devia, o meu pai respondeu

– Nada

o camponês olhou-o com espanto primeiro, depois começou a vasculhar as algibeiras, depois tirou de lá uma moeda de vinte e cinco tostões, depois enfiou a moeda no bolso da bata do meu pai, depois disse-lhe

– Tome lá para uma cerveja, senhor doutor

o meu pai, que nunca vi beber cerveja, agradeceu imediatamente, eu, que sempre fui parvo, perguntei, quando ele se foi embora

– Não tem vergonha de aceitar dinheiro de um pobre?

o meu pai olhou o idiota de dezoito ou dezanove anos que eu era

– Achas que ia ofendê-lo recusando?

e claro que me calei, consciente da minha idiotice. Acho que foi das raras ocasiões em que olhei o meu pai com amor, ele que, geralmente rugoso, tratava os doentes com uma suavidade imensa, inalteravelmente paciente, ele que para os familiares dos doentes era muitas vezes brusco, como era para nós e para o mundo em geral. Lembro-me, por exemplo, de no seu Serviço estar internada a filha de um ministro importante, de o ministro dizer ao meu pai

– Ó Senhor Professor eu acho que

e do meu velho, de quarenta e tal anos, lhe cortar a palavra

– Aqui quem acha sou eu e se o senhor quiser achar vai achar para casa

como me lembro de o chamarem para ver Salazar e ele contar à mesa à minha mãe

– Eu sempre detestei o homem mas estava cheio de pena dele

o meu pai que tivera no Serviço Henrique Galvão, o homem que raptou o paquete Santa Maria para chamar a atenção do mundo para a ditadura, a quem inventou uma doença para o manter fora da cadeia, e embora o Serviço estivesse cheio de polícias políticos ajudou-o a fugir e ninguém, sei lá porquê, lhe foi à mão. O que mandava nos pides protestou

– Ó senhor professor, ó senhor professor

o meu pai, impávido

– No meu lugar você fazia o mesmo

e nem sequer lhe estendeu a mão. Desprezava o dinheiro mas era teso que se fartava, o meu velho, de uma coragem que alguns dos meus irmãos herdaram. Eu nem por isso, tenho dias. Portanto, no meio dos seus inúmeros defeitos, possuía umas qualidadezitas e nunca o vi gabar-se fosse do que fosse. Mesmo assim, em Santa Maria, ainda deu porrada num ou noutro colega que ele considerava desonesto. Lembro-me de ter aplicado um enxerto no jardineiro do meu avô, pai dele, homem enorme conhecido, no Colégio Militar, pelo Arranca Cabeças, que lhe ralhou à minha frente

(o único que vi ralhar com ele e o meu pai calado) a olhar-lhe os dedos cheios de sangue:

– Soube-te bem, não soube? A mim na tua idade também me sabia

e saiu sem mais palavras, com o meu pai caladinho de respeito, sem se justificar. Aqui para nós acho que o meu avô estava todo orgulhoso, ele cujas cenas de pancadaria eram lendárias, chegou a andar à trolha, sozinho, com a Filarmónica de Benfica que se atreveu a uns piropos à minha avó, e com um primo também enorme a quem acabou a quebrar-lhe o guarda-chuva na cabeça, sentado em cima da barriga do outro. Felizmente que o meu pai e o meu avô já cá não estavam quando me deram o Prémio Camões: é que o Presidente da República demorou a chegar e o primeiro ministro, Sócrates, passou meia hora a falar comigo. Era um sujeito sem interesse nenhum, mas ainda bem que eles não viram. Já estou daqui a escutar os comentários – Não tens vergonha, tu, de falar com esse?

e embora, nesse tempo, não se lhe conhecessem as proezas, a cara não enganava e eu ia fatalmente ouvir o comentário, para ele, mais desdenhoso do mundo:

– Camelo

e claro que não me atreveria a protestar. Em geral a razão estava do lado deles. É que a honestidade, percebem, a honestidadezinha era a coisa mais importante desta vida. Aqui há meses telefonei a um fulano a preveni-lo que nunca se atrevesse a aparecer-me à frente. Ainda não apareceu mas continuo à espera. Como dizem os jogadores de futebol a esperança é a última coisa a morrer. Se por acaso ele ler isto fica a saber que eu não esqueço. Ainda não perdi as minhas qualidades de pedagogo e o meu pai havia de, secretamente, ficar contente comigo. Nunca utilizei com ele a palavra paizinho. Vou usá-la agora: Tenho muito orgulho em ser seu filho, paizinho.