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Um hipopótamo chamado Jorge

Tudo isto porque uma rapariga de olhos cor do musgo nas árvores velhas pegou no filho pequeno e lhe começou a meter letras dentro. A culpa é sua, senhora. De modo que ando assim. O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima

Ilustração: Susa Monteiro

Foi a minha mãe, que tinha olhos da cor do musgo nas árvores antigas, que nos ensinou a ler, aos meus irmãos e a mim. Sentava-se numa cadeira baixa, chamava-nos com um livro aberto nos joelhos, ela que em matéria de educação formal chegara à terceira ou quarta classe, mostrava-nos as letras com uns bonecos por cima, isto durante cinco ou dez minutos de cada vez porque na sua óptica as crianças, explicou-nos depois, não aguentam a atenção durante muito tempo, assim que nos afastávamos a aula acabava e em pouquíssimas semanas, sem nunca nos forçar, éramos capazes de decifrar aquilo tudo. Às vezes tento recordar-me do seu método e a única coisa que ficou é o dedo espetado e a gente a passear com ele. Não sei como a minha mãe fazia. Era uma rapariga de vinte e tal anos que parecia quinze ou dezasseis: quando almoçávamos com ela, sem o pai, o empregado que trazia a ementa perguntava-lhe sempre

– E para os irmãos da menina?

o que me indignava imenso por ser a minha mãe, não menina nenhuma

uma ocasião passeávamos com ela no Jardim Zoológico, onde havia um casal de hipopótamos e eu zangado com o tratador porque o macho se chamava Jorge e a fêmea Margarida, zangado

ainda me põe zangado isso

visto que o Margarida estava certo, a minha mãe Margarida, portanto exigia que o macho João como o meu pai, não um Jorge qualquer, e ela teve de me agarrar o braço por eu considerar um insulto horrível a Margarida casada com um Jorge em lugar de um João, queria bater no sujeito que lhes dava hortaliça

– Não é Jorge é João, o meu pai é João

e a minha mãe, aflitíssima, a puxar-me os calções. Podem achar idiota mas até hoje, palavra de honra, me irrita que tenha havido um Jorge no mundo de uma Margarida, mesmo que imensa e gorda e não pequena e elegante como ela, que em lugar de concordar comigo me ameaçava com uma palmada no rabo, e só conceber a minha mãe de João ao lado. Claro que contei ao meu pai e julgo que ele, ciumento como era, pensa igual a mim. Claro que volta e meia nos levavam de novo ao Jardim Zoológico comigo atento ao Jorge, pronto a saltar para o tanque à menor aproximação daquele monstro. Em casa, quando o meu pai não estava, abria a porta do escritório e espreitava com desconfiança não fosse haver um Jorge, também médico, também de cachimbo, também ao microscópio, a olhar para mim, o idiota, instalado na cadeira do meu pai: felizmente que isso não aconteceu, mas se a gente não andar a pau nunca se sabe. Acho que foi a única vez na vida em que senti ciúmes, conforme ainda hoje os hipopótamos machos não me são simpáticos. Mudemos de conversa antes que me aborreça. Estamos a falar de leituras, não é? Bom, como em casa não havia bichos, nem sequer um hipopótamozinho para amostra, raios o partam, comecei a escrever. Devia ter cinco anos ou assim, e isso não foi a minha mãe quem me ensinou, comecei sozinho. Fiz um primeiro romance, enorme, de uma página inteira, chamado, nunca me vou esquecer do título, “A Voz do Campo”, sei lá o motivo. Devia ser fresco. E, a partir dessa obra prima, não parei mais. Romances, poemas, sobretudo depois só poemas até que aos dezoito ou dezanove anos descobri que não tinha talento algum para versos e entrei, que me recorde pela única vez, numa depressão horrível: o que é que eu faço agora? Como já tinha o vício voltei à prosa e mal acabava destruía tudo, enquanto ia insultando a minha mãe em silêncio por me ter ensinado a ler. Depois passei dez anos com um romance imenso que não destruí e que ao voltar da guerra abandonei não sei onde. Dez anos de trabalho diário naquilo e lá foi para o boneco. Não prestava para nada mas eu já estava convicto

(aliás já estava convicto desde o princípio)

que era o melhor do mundo

(Isso, claro, continuo a estar)

e nisto aconteceu-me uma cambalhota interior qualquer, e após numerosas falsas partidas em que gastei um bom par de anos, comecei, quase sem dar por isso, uma coisa que se veio a tornar a Memória de Elefante, levou-me um tempão, depois do hospital, depois do consultório, e ia fazendo-o todos os dias, até durante os bancos, no intervalo de dois doentes. Não contei isso a ninguém. Mal o acabei mostrei à minha cunhada, igualmente Margarida, a Margarida disse

– Acho que devias publicar

e apareceu um editor, já eu terminara os Cus de Judas e estava às voltas com o Conhecimento do Inferno. Tudo isto porque uma rapariga de olhos cor do musgo nas árvores velhas pegou no filho pequeno e lhe começou a meter letras dentro. A culpa é sua, senhora. De modo que ando assim. O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima. Se ao menos eu fosse banqueiro ou ex primeiro ministro ou, na pior das hipóteses, administrador de empresas, andava aí a declarar-me inocente. De quê? O meu advogado havia de saber, que era para isso que lhe pagava.