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Que farei quando tudo arde?

Como até o mundo era novo nesse tempo. E vi Gouveia em chamas na televisão, e vi a parte boa da minha vida inteira consumir-se em labaredas, e vi a minha saudade a chorar, e vi o cheiro que logo em Carregal do Sal nos conduzia até nós mesmos pela mão. Tudo isto continua em mim, tudo isto nunca se apagará em mim

Ilustração: Susa Monteiro

Meu Deus o que me dói o meu País a arder! Na Beira Alta onde está sepultada toda a alegria e toda a saudade da minha infância, ali diante da Serra da Estrela, cercado de castanheiros na varanda da casa dos meus avós, em que fui sempre inalteravelmente feliz no meio de ternura e sorrisos, a ver à noite Manteigas a cintilar ao longe, a jantar na varanda enquanto o correio das sete passava lá em baixo no vale. No dia em que o meu pai morreu o João estava em Bragança e voltou para Lisboa para se despedir do que do pai sobrava em Nelas, para se despedir, olhos nos olhos, dos nossos melhores dias, vividos sem uma única mancha de tristeza, com a bicicleta a girar sem fim ao redor da casa. Como até o mundo era novo nesse tempo. 
E vi Gouveia em chamas na televisão, e vi a parte boa da minha vida inteira consumir-se em labaredas, e vi a minha saudade a chorar, e vi o cheiro que logo em Carregal do Sal nos conduzia até nós mesmos pela mão. Tudo isto continua em mim, tudo isto nunca se apagará em mim. 
A Joãozinha a jogar ténis na Urgeiriça. O senhor abade. O sacristão coxo. A gente a comprar rebuçados na venda do Senhor Casimiro. Partir pinhões com uma pedra. O colégio Grão Vasco, sempre fechado, ameaçador. O meu irmão Pedro calado, misterioso, a segredar coisas suas às lagartixas enquanto o D. João Primeiro Borges, o louco da vila, passava na vinha com a sua barba terrível, o seu cajado. O nosso pai diferente, com paciência para nós, muito mais bem disposto do que em Lisboa, palavra de honra. O Miguel a rir-se, com uma covinha em cada bochecha. Que é feito das tuas covinhas, mano, estarão a arder também? O que isto magoa transformarem em cinzas a parte mais fiel e pura de mim. Por favor tomem cuidado com a minha avó, tomem cuidado com a minha mãezinha. Já pouco sobra, não me tirem o resto. Depois pareceu-me que um fogo perto de Braga. Foi dali, de perto de Braga, de uma aldeia nas redondezas da Póvoa do Lanhoso, em que o pai do pai do pai do meu pai, um camponês, meteu o filho de oito anos, sozinho, num barco qualquer e o mandou para o Brasil na esperança de o salvar da miséria e da fome. Acabou em Belém do Pará, rico da borracha. Chamava-se Bernardo António Antunes. O filho dele, meu bisavô, casou-se com uma menina judia, Leopoldina Lobo, cuja família tinha fugido à Inquisição, e o meu avô, seu quarto filho, inaugurou com os irmãos o apelido Lobo Antunes. Há uma fotografia dele pequeno numa das fazendas, chamada Nazaré. A saga desses Lobo, primeiro na Holanda e depois no Brasil, dava um romance histórico à Alexandre Dumas. Ficaram-me uns nomes, umas cartas, imensos primos agora no Rio. Quando me entregaram o Prémio Camões, em 2007, na presença dos Presidentes de Portugal e do Brasil, Lula, o presidente de lá, repetiu várias vezes

– Antônio não é português, ele é nosso

eu, criatura de tantos sangues misturados, até alemão, até brasileiro mas que, dentro de mim, pertenço à Póvoa do Lanhoso e a Nelas, e em relação à Póvoa do Lanhoso as poucas vezes que lá fui cheguei sempre às sete da manhã de modo a não encontrar ninguém e ouvir bater o meu sangue, sozinho, nas ruas desertas. Um amigo meu, do Porto

– A Póvoa do Lanhoso, a terra dos brasileiros, é tão feia

e só não levou um pêro por acaso. Apenas respondi

– Chama feia a Braga, se quiseres, mas na Póvoa do Lanhoso não tocas

e ficou a olhar para mim, surpreendido. O meu trisavô quis ser enterrado lá e andei à sua procura no cemitério. Depois vim-me embora. Sozinho sempre. Não: encontrei um cachorro que veio atrás dos meus passos, a farejar-me com prudência. Deve continuar a perguntar-se quem eu sou. Podia ter-lhe respondido

– Sou um menino em Nelas com sangue antigo daqui

que ontem sofreu muito a ver o seu País em labaredas, pensando que dava a vida pela minha terra. Só me concebo em Portugal e era incapaz de viver com uma mulher estrangeira. Gemem numa língua que não é a minha, olham para as coisas de um modo tão diferente, os parentes não tiveram fome em Portugal e nunca perguntariam que farei quando tudo arde, por ser uma questão que apenas Sá de Miranda e eu podemos pôr.

Crónica publicada na VISÃO 1287 de 2 de novembro