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O Liceu Camões

Um dos contínuos, que tinha um gabinete minúsculo e uma mala muito grande, recebia uma porção de professoras no dito gabinete. Abria a mala, que estava cheia de lingerie mais ou menos transparente e outras coisas esquisitas que a minha mãe também não tinha e as setôras vinham comprar

Susa Monteiro

Eu fiz o ensino secundário num estabelecimento chamado Liceu Camões que ainda hoje acho o mais pavoroso e sinistro local que frequentei na vida. Os professores eram inenarráveis. O de Matemática, por exemplo, gordo, careca e de bata a proteger o fato dado que os números sujam, entregava-nos os testes num desgosto profundo porque quase toda a turma tinha negativas e a seguir, a abanar a cabeça, culpava as asneiras que a gente escrevia com o cinema. Na sua opinião só pensávamos no cinema e, em lugar de estudar, passávamos o tempo em salas às escuras a regalarmo-nos com inutilidades que nos faziam mirrar a massa cinzenta. E dava-se então a si mesmo como edificante exemplo de devoção e trabalho, em frases espantosas que nunca esqueci, como por exemplo

– Eu, quando tinha a vossa idade, ia ao cinema uma vez por semana e era lá de mês a mês

ao passo que nós gastávamos a existência a ver o Fred Às Tiras e a Ginja Às Rodas, não falando no corsário Enrola O Filme e no galã Tiró Pulover, que nos desviavam das equações do segundo grau e outras utilidades semelhantes. O professor de Inglês, outra luminária, ditava-nos o texto do ponto num vozeirão feroz

– A filha da tia da prima dele encontrou o lápis em cima da mesa por baixo da lâmpada ao lado da cómoda da sogra da avó da amiga dela. Cinco minutos para porem isto numa linguagem decente.

E classificava em voz alta, baixando um valor a cada erro, que marcava com um lápis encarnado, descendo do dezoito porque os hotentotes que éramos não tinham direito a mais. Lembro-me de estar de pé ao lado da secretária onde ele, sentado, enorme, feio e sonoro gritava em soslaios ferozes

– Dezoito dezassete dezasseis quinze catorze treze doze onze dez nove oito sete seis cinco quatro três dois um

após o que erguia para mim a cabeça terrível e me entregava o papel despachando-me com o profundo desdém das costas da mão

– Zierao, parabéns ó feliz, vai-te embora.

O professor de Desenho, na prova de Desenho à Vista

(o que seria Desenho ao Ouvido?)

premiava as minhas canecas tortas com um sete indulgente. O de Geografia enfurecia-se comigo por me faltar uma estação no ramal da Beira Baixa. O de Francês achava que eu tinha um sotaque de Volapuque e não me passava do oito. No bendito Liceu Camões volta e meia não havia Ginástica porque o Ginásio estava ocupado pelas cadeiras de uns eventos chamados Serões para Trabalhadores com cantorias e orquestra. Nessas abençoadas alturas o professor de Ginástica vinha dar a lição à turma, isto é contar histórias de que ele era o herói. Exemplo tal e qual:

– Uma tarde, filhos, ia eu na minha Norton setecentos e cinquenta, perigosa, por vezes temível, aparece-me um muro pela frente, isto a cento e vinte à hora, falham-me os travões e eu digo para mim mesmo: alto, João, prepara o mortal. Salto

(pausa angustiante em que as mãos rebolavam uma por cima da outra)

e caio em perfeita flexão de pernas em cima do muro.

E, lá para o fundo da sala:

– Estás a rir-te ó idiota? Então sai já para o recreio antes que eu te dê uma biqueirada das minhas.

Claro que um estabelecimento destes só podia formar adolescentes mentecaptos. A minha sorte era que um camarada do Colégio Militar do meu avô era professor lá e, no terceiro período, as minhas notas transformavam-se miraculosamente em dozes e trezes e portanto acabei aquela fantochada aos dezasseis anos. A fantochada possuía no entanto as suas compensações: um dos contínuos, que tinha um gabinete minúsculo e uma mala muito grande, recebia uma porção de professoras no dito gabinete. Abria a mala, que estava cheia de lingerie mais ou menos transparente e outras coisas esquisitas que a minha mãe também não tinha e as setôras vinham comprar, agrupadas num bando de rolas famintas connosco a empurrarmo-nos uns aos outros a fim de espreitar a sessão de provas de um postigo junto ao tecto. Devo ao gabinete, à mala e ao contínuo

(senhor Ribeiro como podia esquecer-lhe o nome?)

os momentos mais felizes e as sensações mais estranhas da minha vida. Metamorfoseadas num grupo de unicórnios de catorze ou quinze anos incendiávamo-nos de entusiasmo, alegria, espanto e estranheza por estarmos finalmente diante de Ginjas às Rodas ao natural, que circulavam diante umas das outras a arrulharem suspiros que nós partilhávamos num júbilo mudo. Devo-lhes as minhas primeiras e confusas exaltações, os meus primeiros e confusos prazeres. Espero, de coração, que os maridos das setôras se sentissem tão felizes quanto nós. Portanto nem tudo era mau no Liceu Camões que se tornou, graças ao senhor Ribeiro, que merecia ser homenageado com o seu nome numa rua próxima, um verdadeiro estabelecimento de ensino. Mas talvez o planeta seja injusto e esqueça os grandes pedagogos. O facto é que até a setôra de Ciências me comovia, apesar de muito feia, e guardo dela uma calorosa lembrança. Devo ao Liceu Camões haver-me transformado não num homem, mas num geyser em botão. A nossa geração tornou-se incandescente e perigosa, fumegando lava a toda a hora. O problema, para mim, era que o senhor prior me compreendia mal durante as confissões, me carregava a penitência de Pais Nossos às dúzias, e os meus pais me olhavam por vezes com um sobrolho contumaz. Não sei muito bem o que contumaz quer dizer mas, de qualquer maneira, ignoro porquê, a palavra ainda me assusta. Uma marca de lingerie de certeza que não é.

(Crónica publicada na VISÃO 1270 de 6 de julho)