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A Monarquia

Lembro-me de, no Natal, receber as Boas Festas do pretendente à Coroa que traziam sempre duas fotografias: a do casal real, um senhor de bigode, igual a todos os senhores de bigode que lhe enxameavam a casa no Natal e Ano Novo, e uma senhora no género das minhas tias. O meu avô, que tinha algum sentido crítico, chamava-lhes os Pneus Mabor, marca muito comum na altura, porque a única coisa que possuíam de bom era o ar

Susa Monteiro

O pai do meu pai era, e foi até ao fim, profundamente monárquico. Oficial de Cavalaria esteve na revolução de Monsanto onde se portou heroicamente e não morreu por uma unha negra, a que se seguiu, derrotado, um longo calvário: preso na Penitenciária com outros oficiais, um desterro em Marrocos, com a mulher e os filhos, onde trabalhou numa fábrica de conservas, mal e porcamente pago, o regresso a Portugal autorizado bastantes anos depois

(mesmo que tivessem sido poucos seriam sempre bastantes)

em que ele, filho de pais muito ricos, recomeçou a vida do zero. Valeram-lhe os amigos, como a Camões, passe a comparação. Disse-me mais de uma vez

- Um homem pode não ter nada. Pode não ter dinheiro.

Pode não ter casa. Pode não ter mulher. Mas, se tiver amigos, nunca é pobre.

E esta frase continuou para sempre comigo: um homem com amigos nunca é pobre. Valeram-lhe os amigos.

A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de dantes, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô. Terrenos onde é agora o Rio. Terrenos onde é agora São Paulo, sem mencionar o que ficou no Pará. Com a vida refeita em Lisboa, e despido das grandezas brasileiras, continuou ferozmente monárquico. Toda a vida. Lembro-me de, no Natal, receber as Boas Festas do pretendente à Coroa que traziam sempre duas fotografias: a do casal real, um senhor de bigode, igual a todos os senhores de bigode que lhe enxameavam a casa no Natal e Ano Novo, e uma senhora no género das minhas tias. O meu avô, que tinha algum sentido crítico, chamava-lhes os Pneus Mabor, marca muito comum na altura, porque a única coisa que possuíam de bom era o ar. A outra fotografia representava os príncipes, que eu ficava a olhar de boca aberta porque eram atrozmente feios. Se andassem, como eu, na escola do Senhor André, estavam feitos ao bife porque se me afigurava impossível pregar uma ideia, por simples que fosse, naqueles rostos de expressão opaca. Isto repetia-se todos os anos, com os pais a envelhecerem e os filhos a crescerem, cada vez mais horrorosos. Não estou a dizer mal deles, estou a adoçar a prosa porque não quero magoar ninguém.

Os retratos chegavam uma vez por ano. Todas as semanas chegava um jornal chamado Debate, o jornal monárquico, que nunca saía da cinta mas o meu avô assinava. Da cinta seguia para o cesto dos papéis e, do cesto dos papéis, para o Tejo, mas o meu avô continuava implacavelmente monárquico. Queria à força que eu me inscrevesse na Juventude Monárquica, até me apareceu com o emblema, disse que não e o queixo desceu-lhe um bocadinho. Não me ralhou, não se zangou comigo. Foi só o queixo que desceu um bocadinho. Eu era miúdo, não tinha nada a favor nem contra a Monarquia conforme não tinha nada a favor ou contra a República. Faziam-me só impressão aqueles tios todos elegantes com aqueles filhos feios, e a ideia que, se por um acaso da vida, nos entrassem em casa, indispunham-me, porque não conseguiria brincar com eles e, se já quietos me incomodavam, a mexerem-se fariam de certeza com que eu me alistasse na Legião Estrangeira, na condição de ser colocado na República Centro-Africana. Mas o meu avô, que sofrera muito com as suas opções, mantinha-se firme.

Usava na lapela o emblema do Colégio Militar, outro grande orgulho seu, que eu aceitava, tentou que eu fosse para lá mas a minha mãe, filha de um oficial e neta de dois generais, opôs-se ferozmente; foi a única ocasião na vida em que se opôs a qualquer coisa e o meu pai, que só fazia o que queria, concordou com ela sem que eu entendesse porquê, eu que até gostava de fardas, de modo que iniciei uma medíocre estadia de sete anos no Liceu Camões, salvo das reprovações pelo meu avô: um camarada dele no Colégio Militar era professor no Camões e, no último período, conversava com os colegas e aparecia na pauta um doze ou um treze salvadores, graças à mãozinha do amigo que, na única vez que lhe pus a vista em cima, me acariciou o pescoço com um

- Ai rapaz, ai rapaz salvador.

Entretanto o casal bem vestido foi falecendo e os príncipes tornaram-se homens. Nunca falei com eles, nunca os vi ao vivo e é se calhar por isso que não faleci de susto. Também vi, uma ou duas vezes, o mais velho dos príncipes na televisão, a querer declarar guerra à Indonésia.

Declarar guerra à Indonésia não lembra ao diabo. Lembrou-lhe a ele, num súbito ímpeto de visão política que ainda hoje admiro. Que ideia mais extraordinária, que capacidade à Bismarck. Declarar guerra à Indonésia é uma delícia.

Porque não aos esquimós ou aos islandeses? Mas pronto, a Indonésia ocupou Timor e a gente iria lá, a remos, libertá-lo em duas penadas. O rei, para azar meu, tem-se mantido em silêncio, eu que adoro as suas elucubrações, talvez por não compreender metade das palavras uma vez que a dicção tem muitas pedras na boca. Mas o que está entre as pedras é, sem dúvida, de primeira água. A Causa Monárquica começa a seduzir-me. Como estive na guerra em África talvez pudesse dar uma mãozinha na Indonésia também.

E regressar, coberto de glórias, dos antípodas, para beijar, de joelho em terra, a mão lúcida e generosa de um monarca feiíssimo mas com ampla visão de Estado, que talvez me desse um castelo de três assoalhadas como recompensa.

E com marquise.