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  • Embrulhem e vão buscar

    Apesar da angústia que traz consigo há não sei quê de divertidamente apaixonante na composição de um livro. Escreve-se numa espécie de estado segundo, a flutuar, tudo é ao mesmo tempo denso e leve, resistente e submisso, impossível e fácil. Era o que faltava que me deixasse vencer. A única questão complicada é que é perigoso, não existe rede por baixo como têm os trapezistas

  • Zé Tolentino

    Esta crónica não vai ser comprida porque está cheia de amor, amizade, respeito e ternura e esses sentimentos poupam-se. Só quero dizer quanto te agradeço não por seres meu amigo, só quero dizer quanto te agradeço por eu ser teu amigo

  • Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais

    A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte

  • Tocar lira antes de morrer

    Chaplin contava que após terminar um filme sacudia a árvore, e todas as cenas que não se aguentavam nos ramos eram eliminadas. Eu lia o material fazendo troça dele, utilizando uma voz de desenhos animados a fim de fazer saltar os erros, as asneiras, as redundâncias, gritava as frases, sussurrava-as, desprezava-as. Se elas se aguentassem talvez servissem. Isto aprendi de Flaubert

  • O Conde de Redondo

    Caminhava rente à parede comprida do Hospital Miguel Bombarda, repleta de cartazes que se desfaziam e grafitis de toda a ordem. Lembro-me um que afirmava EU NÃO SEI SENÃO SONHAR numa caligrafia caprichosa, perfeita, que um segundo artista comentou a carvão, em letras apressadas NUNCA CAGAS?

  • A longa brevidade da vida

    Voltando à Professora Mahler estar com ela era isto o tempo inteiro. Tinha sempre em casa músicos vindos da sua terra que ela achava talentosos e ajudava com a sua generosidade. Uma ocasião era uma pianista que convidei para sair comigo. A Professora olhou-me furiosa: – If I was younger I would seduce you (se eu fosse mais nova seduzia-o)

  • Crónica com a Avó Margarida no fim

    A sensação desagradável, eu que não sou hipocondríaco, que o meu corpo está a mudar, se afasta permanecendo aqui, não sinto febre, não sinto dores, não descubro nenhum sinal de alarme claro, apenas um incómodo difuso, uma agitação vaga ao longe, a sensibilidade da pele diferente, o meu corpo, estranho, a afastar-se devagarinho de mim, os meus sentidos, como explicar isto

  • Uma história de amor

    E realmente, aos trinta e dois anos, sou velhíssimo, aposto que a batina vermelha de menino do coro já não me serve, os calções não me servem, de certeza que nada me serve, a menina para mim – Como é que te passou pela cabeça que eu podia apaixonar-me e casar contigo, és tão tonto

  • Tantos ontens

    Tantos ontens meu Deus, tantos ontens, um braço em gesso, um pássaro empalhado em cima do armário da farmácia e o farmacêutico para mim – Quietinho rapaz que me deitas ao chão o frasco da tintura da cor da túnica do Senhor dos Passos