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Perfil

  • Um hipopótamo chamado Jorge

    Tudo isto porque uma rapariga de olhos cor do musgo nas árvores velhas pegou no filho pequeno e lhe começou a meter letras dentro. A culpa é sua, senhora. De modo que ando assim. O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima

  • As coisas que mais prazer me deram na vida

    Agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar-me ganhar-lhe uma corrida

  • O senhor Barata

    As pessoas têm a ideia que a morte é a solidão total num nada completo. E provavelmente é. Julgo que é. Mais: tenho a certeza que é, mas não somos capazes de conceber isso. Não aceitamos conceber isso. De forma alguma nos resignamos a isso. E assim nasceram as religiões. Que todas elas nos prometem, nos garantem, nos juram a existência do dia seguinte e o tornam mais ou menos aceitável

  • Que farei quando tudo arde?

    Como até o mundo era novo nesse tempo. E vi Gouveia em chamas na televisão, e vi a parte boa da minha vida inteira consumir-se em labaredas, e vi a minha saudade a chorar, e vi o cheiro que logo em Carregal do Sal nos conduzia até nós mesmos pela mão. Tudo isto continua em mim, tudo isto nunca se apagará em mim

  • O novo livro

    Um dia levaram o escritor francês Gautier a ver as Meninas de Velázquez. Ficou que tempos a olhá-las até perguntar – Mas onde está o quadro? é isso que me pergunto ao olhar um livro meu: – Onde está o livro? e no entanto está ali, exactamente onde o pusemos. É nosso e não é nosso: em última análise é só dele

  • Mano

    A mãe contou-me uma vez que ele lhe perguntou – O António não gosta mais do Pedro do que de mim, pois não? Se me tivesse perguntado a mim, ter-lhe-ia respondido que gostava mais dos dois. E finalmente, depois da missa na Basílica da Estrela saí de lá de mão dada com o nosso irmão Nuno, que me dizia – Meu bebé, meu bebé, o que me ajudou tanto

  • E pronto

    Vamos tomar este comprimidinho, vamos ver a nossa temperatura, vamos beber, excepcionalmente, um golinho de água. Isto depois de me cegarem com a lâmpada do tecto, no interior da qual o insecto que eu era se agitava

  • Avô

    Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse