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Perfil

  • A gente os três

    Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe – Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis? e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara: – Francamente

  • A viagem à China

    Meu Deus o que eu teria gostado de, aos cinco anos, viajar à China com o meu pai. Ou sozinho. O problema é que não conheço muito bem o caminho, não estou certo se para a China se vira antes ou depois do Marquês de Pombal, se é necessário passar pelo Areeiro, se há uma seta nos Olivais com a palavra China por baixo

  • MÃE

    Os nossos mal entendidos residiam nisso: eu só me preocupava com o centro da Terra e a minha Mãe queria que eu fosse uma pessoa responsável e séria. Compreendo-a muito bem: no seu lugar faria os impossíveis para impedir um filho meu de se tornar uma espécie de Ícaro a tombar, de asas desfeitas, no negrume do desconhecido

  • Manos

    Com o Pedro, por exemplo, os momentos em que dialogávamos mais eram a seguir ao jantar das quintas-feiras, quando íamos fazer chichi contra a cascata à esquerda do portão, ambos olharmos para baixo, lado a lado, no escuro. Fazer chichi acompanhado é o acto de amizade mais profundo que conheço

  • O doente

    Talvez seja completamente idiota dizer isto mas dei por mim a gostar muito de si. Há uma dor aqui no quarto, filho, mas não sei se sou eu que a tenho. E o meu coração entendeu que daria a vida por mim. Graças a Deus não foi preciso

  • Há outro mundo mas está dentro deste: 4 crónicas romenas – Primeira

    Quando não nos batíamos contra dúzias de Cholokoves possessos, concedíamo-nos alguma alegria numa discoteca próxima, tentando melhorar as nossas relações com as beldades locais. O macedónio, romancista, fisicamente parecia um chulo do Cais do Sodré, o romeno, o poeta Dinu Flamand, grande e forte, era um camponês dos Cárpatos e eu um loirito de Lisboa, os três no meio de dúzias de génios de toda a parte

  • O guardador de tias

    Vou dar-te outra moeda porque és um neto como deve ser. E era de facto um neto como deve ser, um pilar essencial para a honra da instituição familiar, um impecável guardião da Virtude. As minhas tias, de actividade cerebral lenta, percebiam passada uma semana o meu amor à Castidade e tornavam a tratar- -me com a ternura que eu merecia. No fim de contas era o sobrinho favorito delas