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Perfil

  • Júlio Pomar

    Gostei do seu sorriso, da ironia terna dos olhos, ele que podia ser implacável, que era implacável. Rimo-nos imenso. O Zé calado, atento, a verificar a temperatura da nossa relação, a sossegar aos poucos, a sossegar de todo, visto que a corrente passava

  • Ná havendo novidade

    O tempo apagará para sempre o que fomos até não termos sido nada. E as palavras que deixarei são provisórias como todas as palavras que se pronunciaram no mundo. Ná havendo novidade, dizia o velhote sem pernas. Mas havendo ou não havendo novidade será assim. A sua cadeira de rodas desaparecerá também. Mesmo o teu nome, António Lobo Antunes, não terá sequer a sombra de uma sombra

  • Embrulhem e vão buscar

    Apesar da angústia que traz consigo há não sei quê de divertidamente apaixonante na composição de um livro. Escreve-se numa espécie de estado segundo, a flutuar, tudo é ao mesmo tempo denso e leve, resistente e submisso, impossível e fácil. Era o que faltava que me deixasse vencer. A única questão complicada é que é perigoso, não existe rede por baixo como têm os trapezistas

  • Zé Tolentino

    Esta crónica não vai ser comprida porque está cheia de amor, amizade, respeito e ternura e esses sentimentos poupam-se. Só quero dizer quanto te agradeço não por seres meu amigo, só quero dizer quanto te agradeço por eu ser teu amigo

  • Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais

    A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte

  • Tocar lira antes de morrer

    Chaplin contava que após terminar um filme sacudia a árvore, e todas as cenas que não se aguentavam nos ramos eram eliminadas. Eu lia o material fazendo troça dele, utilizando uma voz de desenhos animados a fim de fazer saltar os erros, as asneiras, as redundâncias, gritava as frases, sussurrava-as, desprezava-as. Se elas se aguentassem talvez servissem. Isto aprendi de Flaubert

  • O Conde de Redondo

    Caminhava rente à parede comprida do Hospital Miguel Bombarda, repleta de cartazes que se desfaziam e grafitis de toda a ordem. Lembro-me um que afirmava EU NÃO SEI SENÃO SONHAR numa caligrafia caprichosa, perfeita, que um segundo artista comentou a carvão, em letras apressadas NUNCA CAGAS?

  • A longa brevidade da vida

    Voltando à Professora Mahler estar com ela era isto o tempo inteiro. Tinha sempre em casa músicos vindos da sua terra que ela achava talentosos e ajudava com a sua generosidade. Uma ocasião era uma pianista que convidei para sair comigo. A Professora olhou-me furiosa: – If I was younger I would seduce you (se eu fosse mais nova seduzia-o)