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  • 10.6.17 (dia da morte do meu Pai)

    Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava

  • O Liceu Camões

    Um dos contínuos, que tinha um gabinete minúsculo e uma mala muito grande, recebia uma porção de professoras no dito gabinete. Abria a mala, que estava cheia de lingerie mais ou menos transparente e outras coisas esquisitas que a minha mãe também não tinha e as setôras vinham comprar

  • Crónica do menino de par de estalos

    Devia ser um chato para os outros e era também um chato para mim. Tirando escrever não me apetecia mais nada, e as pessoas eram todas tão óbvias. Portanto fui um aluno péssimo, uma criança esquisita, uma entidade insólita e sofria como um cão com isso. Seguiu-se a pavorosa chumbada do liceu, sem ligar nenhuma às aulas, com notas miseráveis. Como num instante metia meia dúzia de noções no caco aos dezasseis anos matricularam-me na Faculdade de Medicina

  • A Bíblia de Frederico Lourenço

    Para mim, que sempre tive com Deus uma relação complicada, que tanto me zango com Ele, que às vezes sou tão injusto (ou talvez não, pode ser que em algumas ocasiões a razão esteja do meu lado) que me apetece, quando me interrogam acerca da nossa relação, responder como Voltaire (– Cumprimentamo-nos mas não nos falamos) mas este trabalho de Frederico Lourenço fez-me aproximar mais d’Ele e de Cristo

  • Agustina

    Os livros de Agustina são um alimento difícil porque a transgressão sistemática dos nossos conceitos racionais é metodicamente eficaz, substituindo- -os por uma espécie de nudez primordial. E sai-se dos romances como de um pesadelo implacável, irónico, terno, violento, doce, obscuro e evidente

  • O meu futuro

    É fácil de explicar o sucesso do jornal Correio da Manhã, de certos programas de televisão, de certos políticos, dos espaços sobre futebol que encharcam os ecrãs, das telenovelas miseráveis. Como dizia uma das minhas tias – Ó filho escolhe-me aí um filme levezinho que para maçadas basta a vida

  • A vida e outras insignificâncias

    Os Almeida Lima moravam num segundo andar de risca ao meio e as duas coisas que eu inevitavelmente recebia no dia 25 de Dezembro, ao jantar, depois de um opíparo almoço nos Lobo Antunes e uma alcofa enorme cheia de bugigangas caras, era uma caixinha de cartolina com lápis de cor (nunca esquecerei a marca Viarco)