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Perfil

  • O meu futuro

    É fácil de explicar o sucesso do jornal Correio da Manhã, de certos programas de televisão, de certos políticos, dos espaços sobre futebol que encharcam os ecrãs, das telenovelas miseráveis. Como dizia uma das minhas tias – Ó filho escolhe-me aí um filme levezinho que para maçadas basta a vida

  • A vida e outras insignificâncias

    Os Almeida Lima moravam num segundo andar de risca ao meio e as duas coisas que eu inevitavelmente recebia no dia 25 de Dezembro, ao jantar, depois de um opíparo almoço nos Lobo Antunes e uma alcofa enorme cheia de bugigangas caras, era uma caixinha de cartolina com lápis de cor (nunca esquecerei a marca Viarco)

  • Conto infantil

    Depois o Beto começou a chegar mais tarde a casa explicando que os motores eram difíceis, sobretudo estes modernos com cheiro, sabe-se lá porquê, a perfume de mulher. Depois os motores modernos com cheiro a perfume de mulher deixavam nódoas de baton no colarinho do Beto

  • 3.11.16

    Sou de esquerda pela mesma sem razão que sou do Benfica e não consigo conceber que pessoas de quem gosto muito sejam do Sporting. Talvez a explicação mais elaborada, até filosoficamente, para este facto fosse a do meu querido amigo, o actor Artur Semedo, que ao perguntarem-lhe por que motivo se sentia do Benfica respondeu – Porque não sou homem às riscas, sou homem de uma cor só

  • Escrever

    Pegado à casa dos meus pais, com um jardim em torno, o cubículo do senhor Florentino, sapateiro, a martelar solas, de porta aberta, no meio de um grupo de cegos, dois ou três, ou seja imensos, a beberem de um garrafão de vinho tinto, isto para cima, na Travessa dos Arneiros e, abaixo, a carvoaria, uma espessura de escuridão com alguns brilhos de briquetes pelo meio e a voz do dono da loja, vinda de não sei onde

  • Aguenta-te

    Vida, vida, quanto tempo duras tu de facto? Prolongas-te por abril, maio, junho, julho, agosto, até ao setembro dos meus anos? As marés do equinócio a que eu assistia da muralha sobre a praia, as ondas que à noite, em criança, escutava da cama, no escuro, numa fúria teimosa, misturada com a inquietação dos pinheiros. Onde se escondem os melros à noite? Na garagem? No canavial?

  • O meu filho mais novo

    Tudo se passou sem grandes discussões e nem lhe perguntei se havia outra mulher. Para quê? Claro que havia. Nenhum homem se vai embora no caso de não existir outra mulher, não são capazes de ficar sozinhos, têm um medo horrível da solidão, não se imaginam, por exemplo, com febre, sem uma mulher para tomar conta deles

  • Coisas de que me lembro

    E o meu outro avô, o homem que eu menos queria desiludir na vida pelo amor que lhe tinha e continuo a ter, que me chamou para me perguntar (alguém lhe disse que eu passava o tempo a escrever) para me perguntar, preocupadíssimo, se eu por acaso não era paneleiro

  • A separação

    O homem ouviu-lhe os passos que se afastavam na direção do corredor, da entrada, ouviu a porta abrir-se e fechar-se, não ouviu mais nada depois, nem sequer o som dos cabos do elevador. Pensou em ir espreitar à janela mas não quis saber se havia alguém lá em baixo a esperá-la.