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Varandas com vista para o abismo

É o que eu acho

Manuel Barros Moura

Getty Images

O presidente do Sporting anda perdido no labirinto em que se deixou encurralar. Pouco ou nada lhe corre bem e o futuro afigura-se negro. Para ele e, sobretudo, para o clube

A humilhante derrota diante do Alverca, e consequente afastamento da Taça de Portugal, prova da qual é detentor do troféu, é só o mais recente desastre na carreira do Sporting na presente temporada futebolística e mais uma nódoa no currículo de Frederico Varandas enquanto presidente. O antigo médico da equipa de futebol tarda, aliás, em conseguir mostrar artes para encontrar a cura para a doença crónica do clube de Alvalade.

Valha a verdade que se diga que a tarefa de Varandas não era fácil. Herdou um clube desfeito pelos anos loucos da presidência de Bruno de Carvalho e com uma massa adepta fiel e exigente, mas profundamente dividida, no seio da qual se destacam vários grupos organizados, com agendas próprias e, em muitos casos, demasiado poder. Em Portugal, e sobretudo num clube com o passado recente do Sporting, só se consegue vencer um desafio destes de uma maneira: obtendo sucesso desportivo. Só assim a contestação abranda, a maioria se une em torno de quem comanda, e há tempo para construir.

Frederico Varandas até teve um início de mandato relativamente feliz. Entrou já com a época em andamento e viu o clube conseguir alguns feitos desportivos. No futebol, venceu duas Taças (a da Liga e a de Portugal), ambas frente ao FC Porto e ambas nos penaltis. Nas modalidades foi mais longe, nomeadamente com a conquista de títulos europeus no hóquei em patins no futsal. Estas poderiam ter sido sementes para tempos tranquilos, mas Varandas tem deitado tudo a perder com decisões erradas, sobretudo na área mais visível e determinante da vida do clube, o futebol.

As manifestas dificuldades financeiras não servem para justificar tudo. O planeamento da época foi desastroso. Apostou tudo na venda de Bruno Fernandes por valores astronómicos, mas as propostas não apareceram. Sem plano B, desfez-se de alguns ativos importantes (Bas Dost e Rafinha) a preços reduzidos e acabou por reforçar a equipa com jogadores emprestados, cujo valor está ainda por demonstrar. Entre os jogadores que chegaram no último verão, só Vieto tem dado sinais de poder ser um valor de futuro.

Este desinvestimento no plantel veio tornar ainda mais evidente a dependência da equipa de Bruno Fernandes. Porém, desgastado com toda a novela do defeso e cada vez mais obrigado a resolver tudo sozinho, aquele que foi considerado o melhor jogador do campeonato transato vai dando crescentes sinais de desorientação. Quer na relação com os colegas, quer no capítulo disciplinar. O rendimento em campo vai baixando, os resultados não aparecem e das exibições de Bruno vão sobrando protestos e pontapés em portas.

A somar a isto há que juntar a estratégia errática de Frederico Varandas na escolha do treinador. Se não gostara do trabalho de Kaiser na época anterior, devia ter escolhido outro para começar a temporada. Se só depois de ver o Sporting goleado pelo Benfica na final da Supertaça é que percebeu que, afinal, o holandês não servia, tinha a obrigação de encontrar logo um substituto. Voltou a não o fazer nessa altura para acabar por despedir Kaiser, mais tarde, mas sem ter uma alternativa. Tentou imitar o efeito Bruno Lage com a chamada de Leonel Pontes e, perante novo fracasso, acabou por escolher Silas, o elo mais fraco. Não só porque não tem ainda o grau de treinador exigido para a Primeira Liga, mas porque o próprio presidente se encarregou de o desvalorizar, explicando que os treinadores que ele realmente queria não estavam para “aturar um clube de malucos como o Sporting”.

O resultado deste desnorte está à vista. Em meados de outubro, o Sporting já está fora da Taça de Portugal, tem vida difícil da Taça da Liga e na Liga Europa e, no campeonato, segue já a oito pontos do líder Famalicão e a sete de Benfica e FC Porto. Pior: dos 12 jogos disputados, perdeu metade e ganhou apenas 4. Resultados medíocres que explicam a ira dos adeptos, agravada pela contestação metódica e até violenta das claques (cujos apoios foram retirados por Varandas) e demais grupos oposicionistas organizados. Contestação essa que não dá mostras de vir a abrandar, pelo contrário. Tenderá a intensificar-se caso os resultados não apareçam. E Varandas arrisca-se mesmo a ver totalmente desvalorizado uma das conquistas da sua direção, que foi a conclusão da negociação com os bancos, que permitiu reestruturar a dívida do clube e ganhar alguma solidez financeira para os tempos mais próximos.

O problema é que este balão de oxigénio, consubstanciado num perdão de dívida na ordem os 95 milhões de euros, de nada servirá se o clube não se reerguer e não conseguir gerar receitas que lhe permitam, no futuro, recuperar as ações dadas como garantia pelas injeções de capital da banca (as famosas VMOC). Se assim não o fizer, com a atual desvalorização destas ações, o controlo da SAD do Sporting ficará à mão de semear, a preços da uva mijona, para quem o quiser adquirir. E, se é verdade que são já muitos os sócios que anseiam pela chegada de um qualquer xeque das arábias que faça do Sporting o novo PSG ou Manchester City, não deixa também de ser verdadeiro que esta é também uma porta que se abre para que exemplos como os do Belenenses se repitam. Estarão os sportinguistas dispostos a arriscar?

Manuel Barros Moura

Manuel Barros Moura

Editor

Jornalista com mais de 20 anos de profissão, com passagens pelo jornal O Jogo, 24Horas e A Capital. Entrei para a VISÃO em 2001 para ajudar a criar o site, do qual sou editor desde 2003.